Cidades Irmãs: Rostov Veliky e Ouro Preto
Puchkin e Gonzaga unem Rostov Veliky e Ouro Preto

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
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Quarta-feira, dia 25 de março de 2026, será assinado o acordo de Cidades Irmãs entre Rostov Veliky e Ouro Preto.
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Separadas por continentes e oceanos, a mineira Ouro Preto e a russa Rostov Veliky (Rostov, a Grande) guardam entre si um diálogo silencioso que desafia a geografia. Embora distantes por mais de 11 mil quilômetros, ambas as cidades compartilham o status de "cidades-museu", servindo como referências históricas onde o Brasil e a Rússia apresentam suas identidades mais profundas.
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"Rostov Veliky e Ouro Preto são cidades chanceladas pela UNESCO como Patrimônios da Humanidade, elas não são apenas destinos turísticos, mas sentinelas da memória de seus povos.” |

O papel dessas cidades vai além da estética. São o palco de movimentos que definiram o destino de seus países. Em Ouro Preto, então Vila Rica, o século XVIII foi marcado pelo clamor de liberdade da Inconfidência Mineira. Liderada por figuras como o mártir Tiradentes, a revolta não foi apenas um levante contra a opressão fiscal da Coroa Portuguesa, mas o primeiro sopro concreto de uma consciência republicana e de uma nação brasileira independente. Tiradentes, ao sacrificar a própria vida, tornou-se o símbolo da resistência e da formação moral do Brasil.
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"Da mesma forma, Rostov Veliky é um dos pilares da fundação da Rússia. Citada pela primeira vez em 862 d.C., a cidade foi a capital de um dos principados mais influentes da Rússia Antiga (Rus de Kiev). O papel de Rostov na consolidação do Estado russo e da Igreja Ortodoxa foi fundamental para a unificação dos povos eslavos, servindo como um bastião de resistência cultural e religiosa durante as invasões mongóis.” |

A arte da FINIÍFTI de Rostov Veliky e a arte da PEDRA SABÃO de Ouro Preto
A conexão mais tátil entre as duas localidades reside em seu artesanato singular, que elevou materiais brutos ao status de joalheria nacional. Em Ouro Preto, a maleabilidade da pedra-sabão permitiu que Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, esculpisse o ápice do Barroco mineiro, transformando a dureza mineral em curvas e expressões sacras que hoje povoam o Largo de Coimbra. Cruzando o globo, Rostov responde com a finifti (финифти). Esta técnica russa de esmalte pintado sobre metal exige uma precisão quase cirúrgica, onde mestres como Pyotr Ivanov elevaram a miniatura ao nível da alta arte. Assim como a pedra-sabão é a alma de Minas, a finifti é o reflexo vítreo da paciência e do rigor artístico russo.
A arquitetura de ambas as cidades desenha horizontes que são verdadeiras orações em pedra e tijolo. Ouro Preto se impõe com as fachadas curvilíneas da Igreja de São Francisco de Assis e a opulência dourada da Matriz de Nossa Senhora do Pilar. Já Rostov Veliky exibe o imponente Kremlin de Rostov e a Catedral da Assunção. Se em Minas o barroco brasileiro expressa o drama e a devoção colonial, em Rostov, as cúpulas em formato de cebola e os famosos sinos afinados representam a solidez e a espiritualidade da alma eslava.

Tomás Antônio Gonzaga e Alexandre Puchkin unem Rostov Veliky e Ouro Preto
Essa ponte cultural atinge seu ápice na literatura, provando que o Arcadismo mineiro ecoou até nas estepes russas. O maior poeta da Rússia, Alexandre Pushkin, reconhecendo a universalidade do sentimento humano, traduziu fragmentos de Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, uma das lideranças intelectuais incontestáveias da Inconfidência Mineira. Obra-prima do Arcadismo e marco do século XVIII, este poema lírico-narrativo representa um momento único na literatura brasileira, onde o amor e o exílio político se entrelaçam. O interesse de Pushkin pela obra de Gonzaga sela o destino comum dessas duas nações: o de transformar a dor e a história em beleza eterna. A tradução refletia o receio de Puchkin ser preso e deportado como Gonzaga. O poeta russo era simpático aos revolucionários que lutaram contra a monarquia russa no início de século XIX. Gonzaga foi deportado para Moçambique onde veio a falecer, Puchkin poderia ser deportado para a Sibéria, destino de seus amigos e parceiros.

https://youtu.be/RffEVOOHj9k?feature=shared
Acima link de vídeo sobre a Expedição Langsdorff com composição musical de Luiz Carlos Prestes Filho
Hoje, Ouro Preto e Rostov Veliky provam que a distância é apenas um detalhe diante de tanta semelhança no DNA de suas nações. Unidas pela arte, pela fé e pelo sacrifício histórico, elas seguem como faróis que iluminam o passado para explicar o presente.
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LUIZ CARLOS PRESTES FILHO – Cineasta, formado em Direção e Roteiro de Filmes Documentários para Televisão e Cinema pelo Instituto Estatal de Cinema da União Soviética; Especialista em Economia da Cultura e Desenvolvimento Econômico Local; Coordenou estudos sobre a contribuição da Cultura para o PIB do Estado do Rio de Janeiro (2002) e sobre as cadeias produtivas da Economia da Música (2005) e do Carnaval (2009); é autor do livro “O Maior Espetáculo da Terra – 30 anos do Sambódromo” (2015).



