Guerra - saída do capital financeirizado

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Guerra como saída do capital financeirizado para suas crises estruturais

Ataques ordenados por Trump revelam a ofensiva rentista global e recolocam na agenda a convergência dos povos contra a dominação imperial

Por Miguel Manso

Unir povos e nações em desenvolvimento para derrotar Trump e a “pandemia da financeirização”,

seu fascismo e suas guerras imperialistas

Quando o capital já não pode mais comprar o consentimento, tenta impor a submissão pela força. Mas a força, quando usada contra a vontade da maioria, apenas acelera o colapso.

Às vésperas de uma provável derrota eleitoral nas eleições legislativas estadunidenses, em novembro de 2026, Donald Trump ordena ataques militares dos EUA a diversas nações que atingem interesses de aliados e elevam o preço do petróleo. A escalada ocorre em meio a um provável e anunciado julgamento seu por traição nacional, por prejudicar a economia americana com políticas tarifárias e agressões a aliados, que agravaram a crise econômica, e por subordinar o interesse nacional americano ao envolvimento em guerras, sem autorização do Congresso nacional, para favorecer Netanyahu e o Estado de Israel, bem como por acelerado enriquecimento ilícito, e por crimes de pedofilia e abuso de menores. A maioria do povo americano condena os ataques. A maioria do povo americano condena os ataques. Três em cada quatro cidadãos não apoiam as medidas de guerra, e a reação interna e externa à política de Trump cresce aceleradamente. Um líder em situação política desesperadora (derrota iminente, julgamentos, rejeição popular) que lança ataques militares contra múltiplas nações expressa a forma clássica pela qual a guerra é utilizada como tentativa de resolver contradições internas. A guerra não é uma anomalia ou um acidente histórico no capitalismo; ela é uma forma de resolução violenta das contradições quando os mecanismos econômicos normais (crises, desvalorização, tarifaços, falências, anexações) se mostram insuficientes para restaurar as condições de acumulação.

"A indústria da guerra não é um setor paralelo ou uma anomalia no capitalismo contemporâneo, mas sim a outra face da mesma moeda da financeirização. Ela representa o momento em que o capital fictício, incapaz de se valorizar pela via produtiva (expansão das forças produtivas), transforma-se em máquina de destruição como forma de resolver suas contradições.”

A indústria de guerra como solução para a superacumulação

A financeirização gera uma massa gigantesca de capital que não encontra aplicação produtiva lucrativa. Esse capital excedente busca valorização na esfera financeira (D-D’), mas tal valorização é, em última instância, parasitária: vive de sugar a mais-valia produzida alhures, sem expandir a base produtiva que a gera, estrangulando e desmontando a base produtiva real.

Chega-se a um impasse: o parasita cresce, mas o hospedeiro definha. A taxa de lucro cai, a estagnação se aprofunda, o capital fictício se acumula sem lastro.

A “indústria” de guerra oferece uma “solução” para este impasse por três vias:

  1. Destruição de forças produtivas

A guerra destrói fábricas, infraestrutura e cidades inteiras. Essa destruição “libera” espaço para um novo ciclo de acumulação, eliminando o excesso de capacidade produtiva que tornava baixas as taxas de lucro.

  1. Esterilização de capital morto

O capital investido em armamentos é, do ponto de vista da reprodução ampliada, capital esterilizado: não produz mercadorias para o consumo, não gera mais-valia nem amplia a capacidade produtiva da sociedade. Ainda assim, para o capital, cumpre uma função vital: realiza lucro para o complexo industrial-militar sem aumentar a superacumulação na esfera produtiva civil.

  1. Recomposição da taxa de lucro no pós-guerra

A destruição cria a necessidade de reconstrução, que, por sua vez, gera um novo ciclo de investimentos produtivos (o “keynesianismo bélico”). Os que sobrevivem e vencem emergem com controle ampliado sobre reservas estratégicas e mercados.

"A guerra como resolução violenta das crises: destruição de forças produtivas e capital fictício”

Como bem aponta a análise marxista, a guerra cumpre funções específicas:

Destruição massiva de forças produtivas: quando há superacumulação de capital (excesso de capital fictício em relação à possibilidade de realização do valor), a guerra física destrói fábricas, infraestrutura e estoques, na busca por criar “espaço” para um novo ciclo de acumulação e manter a hegemonia ameaçada.

Aniquilação de capital fictício: títulos públicos, ações e derivativos perdem valor em contextos de guerra generalizada. Essa destruição, contudo, não é uniforme: os detentores de capital fictício “podre” (pequenos investidores, classes médias) são os primeiros a ver seus papéis virarem pó, enquanto o núcleo financeiro, com liquidez e informação privilegiada, compra ativos reais a preços de liquidação durante o conflito.

Reconfiguração geopolítica da propriedade: a guerra redefine quem controla reservas estratégicas (petróleo, minérios críticos, terras agriculturáveis, água). O acesso a estas reservas, mediado pela violência estatal, torna-se a base para a valorização futura do capital financeiro das potências vencedoras.

A guerra como “solução final” para perpetuar a financeirização

Na fase da financeirização exacerbada, a guerra assume um caráter particular. Como o capital fictício cresceu muito além da base produtiva real, uma crise normal (como a de 2008) não consegue desvalorizá-lo suficientemente, como quando os bancos centrais intervieram com emissão monetária e compra de ativos podres, socializando as perdas e mantendo o castelo de cartas de pé.

Neste contexto, a guerra generalizada aparece como a única forma de:

Como observa Eleutério Prado, a dominância financeira se desenvolve em um contexto de declínio secular da taxa de lucro e estagnação prolongada. A guerra, neste quadro, é a tentativa desesperada de romper este ciclo de baixo crescimento através da violência aberta.

“A guerra imperialista é a continuação da política de financeirização por outros meios: onde a concorrência econômica já não basta para redefinir a partilha do mundo, a força bruta decide quem fica com os ativos sólidos e quem herda os papéis podres.”

A internacionalização do capital e a tentativa de borrar fronteiras

A globalização financeira e a ofensiva contra o Estado nacional

A financeirização não é um fenômeno nacional; ela é intrinsecamente global. Desde a expansão do mercado de eurodólares nos anos 1970 e a desregulamentação financeira dos anos 1980, o capital financeiro opera em escala mundial, buscando incessantemente destruir as barreiras nacionais que limitam seu movimento. Esta ofensiva assume várias formas:

Subordinação dos Estados nacionais ao “mercado”: como aponta Fattorelli, “Estados nacionais se curvam ao poder financeiro e às suas exigências, sacrificando os direitos sociais, o patrimônio público e até mesmo a estrutura do próprio Estado”.

A dívida pública torna-se o principal instrumento dessa subordinação: os Estados são forçados a priorizar o pagamento de juros aos credores financeiros em detrimento de investimentos sociais e produtivos.

Imposição de políticas de austeridade: credores internacionais (FMI, Banco Mundial, agências de rating) impõem condicionalidades que limitam a autonomia política das nações periféricas. A “confiança do mercado” torna-se um imperativo superior à soberania popular.

Captura institucional: o sistema financeiro captura as instituições reguladoras, os bancos centrais e os ministérios da Fazenda, que passam a operar em função dos interesses do capital rentista, não do desenvolvimento nacional.

O paradoxo: Estados fortes para o capital, fracos para os povos

É crucial entender que a financeirização não busca destruir o Estado nacional, mas sim reconfigurá-lo para que sirva aos interesses do capital globalizado. Como argumenta Fernando Nogueira da Costa: Há um condicionamento financeiro de políticas públicas. O custo do serviço da dívida e a necessidade de preservar a solvência pública condicionam escolhas: prioriza-se pagamento de juros e manutenção da confiança do mercado em lugar do investimento social. O resultado é um Estado com duas faces: Forte e interventor quando se trata de garantir o pagamento da dívida, salvar bancos falidos e reprimir movimentos sociais que ameaçam a “ordem” financeira. Fraco e submisso quando se trata de regular o capital financeiro, tributar a riqueza ou implementar políticas desenvolvimentistas.

A vacina é a resistência: luta pela emancipação das nações expropriadas

O crescimento da resistência como resposta à expropriação

A financeirização desenfreada, com sua carga de expropriação, desemprego, precarização e destruição de direitos, não ocorre sem resistência. Pelo contrário, ela gera suas próprias contradições políticas. As formas de resistência são múltiplas: Movimentos por auditoria da dívida pública: em diversos países (Equador, Grécia, Brasil), surgem movimentos exigindo a auditoria da dívida pública, denunciando sua ilegitimidade e o fato de que grande parte dela é formada por “mecanismos financeiros corruptos” que transferem recursos públicos para o setor privado. 

"Nacionalizações e reestatizações: a resposta à privatização de setores estratégicos (energia, água, telecomunicações) tem sido, em alguns contextos, a luta por sua reestatização ou por formas de controle público e social. Construção de alternativas financeiras: cooperativas de crédito, bancos comunitários, finanças solidárias e plataformas financeiras cooperativas emergem como tentativas de construir circuitos financeiros não subordinados à lógica parasitária. Luta contra tratados de livre comércio predatórios: a resistência a acordos que aprofundam a subordinação das economias periféricas ao capital financeiro internacional.”

A “pandemia da financeirização” e a consciência da expropriação

O limite objetivo à proliferação parasitária

A resistência das nações expropriadas não é apenas um fenômeno moral ou político; ela impõe limites objetivos à expansão da financeirização:

  1. Crises de legitimidade: quando o sistema perde legitimidade aos olhos da maioria da população, torna-se mais difícil impor novas rodadas de austeridade sem recorrer à repressão aberta.
  2. Crises de governabilidade: a dívida pública, principal instrumento de dominação financeira, só funciona se os Estados continuarem pagando. Movimentos que ameaçam interromper esse pagamento (default, reestruturação, auditoria) representam um risco sistêmico para o capital financeiro.
  3. Emergência de alternativas: a construção de projetos nacionais-populares que priorizam o desenvolvimento das forças produtivas internas e a distribuição de renda, em vez da subordinação ao capital financeiro internacional.
  4. Blocos regionais contra-hegemônicos: a formação de alianças entre nações periféricas (BRICS, Unasul etc.) que buscam construir instituições financeiras alternativas (Novo Banco de Desenvolvimento, Banco do Sul, sistemas de pagamento em moedas locais) e reduzir a dependência do sistema financeiro centrado no dólar.

A totalidade da contradição

A guerra como destruição e reconcentração

Função: destruir forças produtivas excedentes e capital fictício “podre” para recompor a taxa de lucro e redefinir, pela força, quem controla reservas estratégicas.

Quem ganha: o complexo industrial-militar e o núcleo financeiro das potências vencedoras, que emergem com controle ampliado sobre ativos reais.

Quem perde: as nações periféricas transformadas em campos de batalha; a classe trabalhadora mundial, que carrega o peso da destruição e da reconstrução; os detentores de capital fictício dos países derrotados.

A internacionalização e a resistência

Ofensiva do capital: globalização financeira, subordinação dos Estados, imposição de austeridade, captura institucional.

Contraofensiva dos povos: auditoria da dívida, nacionalizações, finanças solidárias, integração regional autônoma, luta ideológica contra a naturalização do rentismo.

Tendência contraditória: quanto mais a financeirização avança, mais ela gera resistência; quanto mais resistência, mais o capital recorre à violência aberta (guerra) para garantir suas condições de reprodução.

O duplo movimento da contradição

A financeirização, portanto, deve ser compreendida como um fenômeno total que envolve:

O sistema entra em um beco sem saída: não pode sobreviver sem a financeirização (que é sua forma atual de acumulação), mas não pode sustentá-la indefinidamente, porque ela corrói sua própria base produtiva e gera resistências crescentes. A guerra surge como a “solução” violenta para essa contradição, mas também carrega os germes de uma destruição ainda maior. A “pandemia da financeirização” não é uma metáfora vazia: como um vírus, o capital rentista invade organismos nacionais, reproduz-se parasitariamente, enfraquece seus hospedeiros e, quando confrontado, provoca reações inflamatórias (guerras) que matam o corpo para salvar o parasita. A diferença é que, no caso do capitalismo, o parasita pode ser expulso pela ação consciente dos povos que se recusam a morrer para alimentar a usura. O parasitismo e a decomposição do capitalismo atingem seu grau máximo na financeirização. Mas é precisamente esse estágio que, ao tornar insuportável a vida para a maioria, coloca na ordem do dia a necessidade histórica de sua superação. A libertação dos Estados nacionais capturados pela financeirização não é apenas uma tarefa entre outras; ela é a tarefa estratégica central do nosso tempo, a condição necessária para que qualquer projeto de desenvolvimento, soberania e justiça social possa florescer. Mas isso é possível? Será tema para outro artigo.

Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.

"A guerra como resolução violenta das crises: destruição de forças produtivas e capital fictício”