Um Século de Coluna Prestes na Fronteira Sul

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Exclusivo Catetear Notícias

Da Redação

A história, muitas vezes, não repousa em arquivos empoeirados, mas no pulsar das estradas e no eco de vozes que se recusam ao silêncio. Recentemente, a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) transformou-se no palco de um resgate necessário: as comemorações do centenário da Coluna Prestes. Entre os campi de Chapecó (SC), Erechim (RS) e Laranjeiras do Sul (PR), o que se viu não foi apenas um protocolo acadêmico, mas um mergulho na memória de um dos movimentos mais emblemáticos do Brasil.

Em pé: Anna Cecília Prestes, Ana Hammel, Zoia Prestes, Alessandro Ventura, Elisandra Aparecida Callegari (com Mel no colo), Fábio Pontarolo, Ronaldo Daros, Wellington Pavas, Antônio Marcos Miskiw e Ernesto Puhl. Abaixo: Luiz Carlos Prestes Filho, Geovana Pagio, Julio Moreira e Ernesto Puhl

“O sucesso de um evento não se mede apenas pela realização efetiva do que foi planejado. Na verdade, as atividades começam quando se toma a decisão política e coletiva de realizar um evento e, daí em diante, dar início a decisões também coletivas em reuniões de planejamento e organização. O grupo da coordenação contou com a participação de militantes, comunicadores, professores, pesquisadores dos três campus da UFFS (Chapecó, Erechim e Laranjeiras do Sul) e todos juntos pensamos a divisão de tarefas para assumir as responsabilidades (buscar recursos, articular apoio institucional, listar os possíveis convidados, reservar locais, organizar a programação e a divulgação, encaminhar burocracias internas à UFFS, entre muitas outras). E nesse quesito, a tarefa foi realizada com muita competência por todos os envolvidos, e esse é o papel da universidade pública. Quanto às atividades planejadas e realizadas, acredito que o recado foi dado e o tema atraiu um público bem diverso. Não vejo problema de o tema ser o mesmo, afinal, o evento tinha como foco o Centenário da Coluna Prestes. Mas, mesmo assim, houve uma variação, pois, em Chapecó discutimos o legado da Coluna; em Erechim, apresentamos pesquisas em andamento sobre temas da Coluna; e em Laranjeiras, apresentamos pesquisas e trabalhos já concluídos sobre a Coluna. Vale dizer que vivemos tempo de muita dificuldade para realização de eventos presenciais, mas podemos dizer que contamos com uma presença significativa nos três campus. Caso tivesse que sugerir alguma mudança, talvez seria reduzir o número de apresentações por mesa, para dar mais tempo para os palestrantes e as apresentações culturais.” Zoia Prestes

A atmosfera era de reverência e descoberta. Sob a coordenação das professoras Ana Hammel e Zoia Prestes, o evento provou que a universidade pública cumpre seu papel quando se torna espaço de construção coletiva. A presença de Zoia, filha do "Cavaleiro da Esperança", conferiu um peso simbólico e afetivo fundamental aos debates. O sucesso da iniciativa, como bem pontuou Zoia Prestes, começou muito antes das palestras, na decisão política de reunir militantes, comunicadores e pesquisadores para organizar cada detalhe, desde a busca por recursos até a divulgação. O esforço valeu a pena: em Chapecó, discutiu-se o legado; em Erechim e Laranjeiras, apresentaram-se pesquisas em andamento e trabalhos concluídos.

A mística da Coluna também se fez imagem e melodia. Uma exposição fotográfica, com acervo cedido pelas fundações Maurício Grabois, João Mangabeira e Astrogildo Pereira, permitiu ao público encarar os rostos da marcha. A mostra contou com o apoio de Miguel Manso e a curadoria do historiador Augusto Buonicore (in memoriam) e de Ana Prestes Rabelo, neta de Prestes.

Anna Cecília Prestes, neta de Luiz Carlos Prestes, apresentou seu trabalho audiovisual sobre a Coluna Prestes

No cinema, a diretora Anna Cecília Prestes, também neta de Prestes, humanizou a figura de seu avô, Luiz Carlos Prestes, em um filme que lotou os auditórios. Já o ciclo "Lendas da Coluna Prestes", apresentado pelo escritor, cineasta e compositor Luiz Carlos Prestes Filho e pelo músico Wellington Pavas, trouxe a viola caipira para o meio do povo, transformando a história em canção educativa. Segundo Pavas, a experiência nas rádios locais e o contato direto com os ouvintes foram fontes riquíssimas de conhecimento regional. 

“Também sou cientista social e estou fazendo meu mestrado no cinema. Por isso, minha avaliação parte de toda a minha formação e da minha vivência dentro da universidade. Acredito que o Seminário itinerante foi um sucesso. Todos os auditórios da UFFS, em Chapecó, Erechim e Laranjeiras do Sul, ficaram cheios de alunos e docentes. Professores optaram por não darem aula para prestigiar o evento com suas turmas. Além disso, toda a universidade parecia estar sabendo do Seminário, o que mostra que a equipe de planejamento e organização fez um trabalho excelente. Depois da pandemia é muito raro eventos acadêmicos conseguirem lotar os espaços, principalmente se também acontecem hibridamente, como foi o caso do Seminário.” Anna Cecília Prestes

O debate acadêmico não se esquivou de desafiar a visão tradicional. O pesquisador Alessandro Ventura trouxe à luz a presença negra na Coluna, citando figuras como o valente Tio Balduino e a estratégica Negra Onça (ou Mulata Onça). Ventura demonstrou que o movimento era um fenômeno multiétnico, movido por valores de justiça social que ecoam até hoje.

Alessandro Ventura, historiador, aponta para fotografia onde estão registrados revolucionários negros

“A questão da presença negra na Coluna Prestes nasceu de uma provocação de um grande amigo, Luiz Carlos Prestes Filho, que me questionou: ‘Professor Alessandro Ventura, já pensou sobre a presença negra na Coluna?’. Aquilo me gerou uma inquietação positiva. Formado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), atravessei os estudos sobre Brasil Colônia, Independência e República notando sempre uma escassa presença ontológica do negro nos registros oficiais. Minha resposta à provocação foi imediata: ‘Eu desconheço, mas tem que ter!’. ​Minha certeza vinha dos valores que animaram a Coluna — justiça social, instrução pública e combate à corrupção. São pautas que historicamente dialogam com as reivindicações de inserção social da população negra. A partir dali, Prestes Filho me instrumentalizou para que eu encontrasse os caminhos da pesquisa. Como historiador, busquei fontes clássicas e alternativas, encontrando indícios de formações multiétnicas vindas das lutas da Revolução Farroupilha e do Contestado. ​A evidência era robusta: se no levante de 1922, os ’18 do Forte’, já havia negros, seria impossível não tê-los na Coluna. Enfrentei a descrença de leigos, mas a bibliografia clássica, como a de Anita Leocádia Prestes, forneceu pistas inegáveis. Termos como ‘soldados de pelos duros’ revelam, em sua polissemia, a densidade capilar negra na marcha. Encontrei registros de bravura inesquecíveis, como o de Tio Balduíno, que atravessou um rio quando todos julgavam impossível, garantindo o curso da marcha; ou a ‘Negra Onça’, figura fundamental na logística e no reconhecimento de terreno. ​A presença negra na Coluna Prestes é insofismável e irrefutável. Foi um movimento diverso e multiétnico. Em um país pós-escravagista que relegou negros e negras ao desemprego e à margem, os valores da Coluna foram o combustível para que essa população marchasse por um Brasil mais justo.” Alessandro Ventura

Entrevistas na Rádio Campo Aberto (Laranjeiras do Sul), Rádio dos Trabalhadores (Chapecó) e TV Bom Dia (Erechim). Nas fotografias: Ernesto Puhl, Zoia Prestes, Isabel Rosa Gritti, Wellington Pavas e Luiz Carlos Prestes Filho

A diversidade de perspectivas foi ampliada por especialistas como a professora Maria Meire de Carvalho, que abordou a participação feminina, e a historiadora Marly Vianna, que analisou as articulações políticas do movimento. O cenário de opressão regional foi detalhado pelo professor Antônio Marcos Myskiw, ao falar sobre a semiescravidão nos ervais do Paraná. A memória foi reforçada por obras e presenças marcantes: Julio Moreira apresentou "A Coluna Prestes no Oeste do Paraná"; Guilherme Bravo, José Sergio Barroso e Júlio Cesar da Silva Machado contribuíram com análises sobre o impacto político e a urgência de levar esse tema aos livros didáticos.

Eduardo Figueiro, Wellington Pavas, Luiz Carlos Prestes Filho, Leonel Nascimento e Alessandro Ventura

“Como músico, as atividades artísticas realizadas nos três estados da federação, ligadas ao centenário da Coluna Prestes, foram uma oportunidade para apresentar meu trabalho a um público diferente daquele ao qual estou habituado, no cenário da música caipira/sertaneja. Além disso, por meio dessas atividades, pude também expandir meus contatos pessoais, conhecendo pessoas com os mesmos interesses que os meus e outras com uma visão de mundo diferente, com as quais pude dialogar. Isso se mostrou uma fonte riquíssima de conhecimento, não só no âmbito musical, mas também no campo do conhecimento histórico ligado ao movimento tenentista e à Coluna Prestes, bem como no conhecimento regional, pois as atividades versaram sobre temas que dialogam com a história de formação do povo daquela região do Brasil. Por isso, volto desse encontro com uma bagagem maior no que diz respeito à cultura e à história de nosso país. Por fim, esses encontros proporcionaram também a apresentação ao público das canções ligadas ao projeto “Lendas da Coluna Prestes”, idealizado por Luiz Carlos Prestes Filho, em comemoração ao centenário da Coluna Prestes. As canções apresentadas, conforme dito, estavam ligadas ao projeto “Lendas da Coluna Prestes” e foram cantadas por mim e por Luiz Carlos Prestes Filho, este, o idealizador do projeto. As canções eram previamente preparadas com uma narração de Luiz Carlos Prestes Filho, com o objetivo de contextualizar e levar a plateia à compreensão do momento histórico da marcha da Coluna e dos sentimentos que serviram de inspiração às composições musicais, constituindo, assim, um momento educativo da apresentação. O público se manteve atento a cada interpretação, demonstrando interesse em conhecer as canções, apresentadas acusticamente ao som da viola caipira e do violão, não no palco, mas no corredor, junto aos ouvintes. Essa proximidade entre os artistas e o público contribuiu para prender a atenção dos presentes e, ao final, com nosso auxílio, o público pôde também cantar o refrão de algumas canções, em especial a canção “A Coluna dos Prestes”. Outro ponto importante foram as apresentações realizadas nas rádios locais, nas três cidades onde o evento ocorreu. Nesses espaços, as canções puderam ser apresentadas a um público mais amplo, contribuindo tanto para a divulgação das canções e dos artistas quanto para a conscientização sobre o momento histórico da Coluna Prestes e sua importância para a história do Brasil.” Wellington Pavas

Para encerrar com a alma do Sul, os músicos Leonel Nascimento e Eduardo Figueiro trouxeram o tom festivo necessário para celebrar a identidade cultural da região. Com o suporte do Ponto de Cultura Kombinando Jornalismo, coordenado por Ernesto Puhl e do Pontão de Cultura do Sudoeste do Paraná, coordenado por de Ricardo Callegari, o centenário provou que o Cavaleiro da Esperança e seus seguidores continuam marchando na memória de quem acredita na luta social.