Duas Viagens, Duas Margens

Duas Viagens, Duas Margens

Kremlin de Rostov Velikiy

logo

Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

Viajar é, acima de tudo, treinar o olhar para encontrar conexões invisíveis. Recentemente, tive a oportunidade de visitar duas cidades geograficamente e culturalmente distantes: Ouro Preto, cravada no relevo acidentado de Minas Gerais, e Rostov Velikiy, erguida nas planícies russas às margens do Lago Nero. À primeira vista, nada parece uni-las. No entanto, ao caminhar por suas ruas e observar a silhueta de seus horizontes, percebi que ambas compartilham uma lógica urbana fascinante: nelas, a arquitetura religiosa foi usada como uma ferramenta cirúrgica de poder, controle e espiritualidade.

Em Ouro Preto, a topografia dita as regras. Ao subir as ladeiras íngremes, ficou claro para mim como os templos foram implantados de forma estratégica em pontos altos, topos de morros e entroncamentos. Essa escolha não foi apenas estética; cada igreja servia como um marco de referência geográfico e um ponto de observação dos vales, garantindo à Coroa Portuguesa e às elites um controle visual absoluto sobre a região mineradora.

"A experiência em Rostov Velikiy foi o oposto geográfico, mas com a mesma ambição de impacto. Diante de um relevo predominantemente plano, a estratégia de localização dos templos submete-se à criação de uma linha de visão impressionante, voltada para a imensidão do Lago Nero. Ali, as majestosas sineiras e as cúpulas em forma de cebola funcionam como verdadeiros faróis visuais ou "marcos guias", conectando visualmente o imponente Kremlin local (a fortaleza) aos antigos mosteiros vizinhos.

O que mais me impressionou, contudo, foram as motivações por trás dessa ocupação sacra. Em Minas, entendi que a distribuição das igrejas e capelas pelas áreas de mineração tinha um forte foco econômico e fiscal. Como a Igreja e as ordens religiosas atuavam de braços dados com o Estado na engrenagem colonial, pulverizar os templos pelo território facilitava a fiscalização e a arrecadação de tributos para a Coroa Portuguesa, transformando a fé em barreira alfandegária.

"Já quando visitei os complexos de Rostov Velikiy, a atmosfera que respirei foi outra: ali, o desenho urbano carrega um forte teor defensivo e militar. Muitas igrejas incorporavam fisicamente a estrutura das fortificações, conectando-se diretamente a muralhas e portões — como notei nas belíssimas igrejas da Ressurreição e de São João Evangelista. Elas funcionavam como sentinelas, controlando ativamente as principais entradas da cidade vindas de Moscou.

Por fim, as divisões sociais e espirituais de cada lugar me fizeram refletir sobre as feridas e os sonhos de cada povo. Em Ouro Preto, a geografia das igrejas escancara uma rígida segregação racial e espacial baseada na hierarquia do Ciclo do Ouro. Enquanto a elite branca frequentava as suntuosas matrizes centrais, os africanos escravizados ou alforriados precisavam construir seus próprios templos — como a Igreja de Santa Efigênia —, afastados do núcleo principal, evidenciando também as disputas de prestígio entre as irmandades locais.

"Em Rostov Velikiy, o olhar não estava voltado para as divisões dos homens, mas para a ordem divina. A lógica da cidade responde a um simbolismo puramente teológico e canônico. Os templos seguem rigorosamente o cânone eclesiástico ortodoxo, com altares voltados para o leste (o nascer do sol, a ressurreição) e entradas para o oeste. Tudo ali foi projetado sob o conceito da "Nova Jerusalém", idealizado pelo bispo Iona Sysoevich no século XVII para representar um verdadeiro "paraíso terrestre", protegido espiritual e fisicamente por suas torres e igrejas.

Voltei dessas viagens convicto de que as igrejas de Ouro Preto e os templos de Rostov Velikiy são muito mais do que monumentos de devoção. São manifestações políticas e ideológicas cravadas na pedra e no ouro, que continuam a nos contar como a fé moldou a terra e a história.

Luiz Carlos Prestes Filho é escritor