OITIS PELAS CALÇADAS

OITIS PELAS CALÇADAS

Lembranças de Noel

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OITIS PELAS CALÇADAS
Fazem lembrar Noel

Por Rogério Marques - QuarentenaNews

Frutinhas que vemos de montão pelas ruas do Rio são citadas em homenagem póstuma ao poeta da Vila ("Violões em funeral") e cantadas por Sílvio Caldas, João Bosco e Aldir Blanc . Ao longo do verão, e também do outono que bate à porta, as calçadas do Rio ficam cheias de pequenos frutos de tom verde-amarelo que às vezes chutamos sem querer - os oitis.

Oitis e um oitizeiro da Rua do Catete

(Foto: Rogério Marques)

Embora sejam comestíveis, ficam pelo chão, aos montes, porque o sabor não agrada a muita gente. O oitizeiro (Licania tomentosa), árvore brasileira de copa frondosa, dá uma boa sombra. Por isso, é muito usado na arborização de vários bairros da cidade. Cada árvore produz centenas de frutos. Embora pouco apreciados, os oitis ficaram eternizados em um dos mais belos poemas da música brasileira, graças a Sebastião Fonseca, um poeta sobre quem pouco se sabe (se os meus oito fiéis seguidores tiverem informações, agradeço). 

"Sebastião Fonseca morava em Vila Isabel lá pela década de 1930 e era admirador de um outro poeta do bairro, o genial Noel Rosa (1910-1937). Logo depois da morte de Noel, por tuberculose, no dia 4 de maio de 1937, Sebastião Fonseca escreveu “Violões em funeral”, que ficaria para sempre na história da nossa música.”

Noel Rosa e Lindaura Martins, sua mulher, dezembro de 1934

(Foto: Reprodução/Internet)

Muito tempo depois, em 1951, os versos de Fonseca foram musicados e gravados por Sílvio Caldas. Uma homenagem belíssima, emocionante, digna do poeta da Vila (música completa no final do texto).

Oitis e um oitizeiro da Rua do Catete

(Foto: Rogério Marques)

A estrofe que fala dos oitis é, para mim, a mais bonita de todas: 

"Dentre as nuvens escondida
Como de crepe vestida
A Lua fica a chorar
E o pranto que a Lua chora
Goteja, goteja agora
Dos oitis do Boulevard." 

Todos nós já cansamos de ver a Lua "como de crepe vestida", semioculta por nuvens de tons escuros, mas somente um grande poeta seria capaz de associar esta imagem ao luto, como fez Sebastião Fonseca em um momento de grande inspiração. 

"Também é belíssima a imagem do “pranto que a Lua chora” a gotejar dos oitis do Boulevard, a Avenida 28 de setembro, a principal de Vila Isabel de Noel Rosa. A data faz referência à assinatura da Lei do Ventre Livre pela Princesa Isabel, que por sua vez dá nome ao bairro.”

De nada adiantou o próprio Noel pedir que não chorassem sua morte, no samba "Fita amarela", de janeiro de 1936, gravado em dueto por Mário Reis e Francisco Alves (música no final do texto): 

"Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela
(...)
Não quero flores
Nem coroa com espinho
Só quero choro de
Flauta com violão e cavaquinho." 

Em 1982, 45 anos depois da morte de Noel Rosa e da criação do poema de Sebastião Fonseca, os oitis do Boulevard seriam novamente lembrados pela grande dupla João Bosco-Aldir Blanc na música “Viena fica na 28 de Setembro” (música no final do texto). Embora sem citar “Violões em funeral”, a canção é um mergulho etílico-nostálgico que logo no começo remete à Vila de Noel e a seu poeta maior:  

“Morre a luz da noite / O porre acende pra me iluminar / Numa outra cena... / Zune o vento e valsam os oitis / No velho Boulevard / Bosques de Viena."

"Noel Rosa foi um fenômeno da música brasileira. Viveu apenas 26 anos e produziu mais de 250 composições, algumas eternas como "Conversa de Botequim" (com Vadico), "Feitiço da Vila" (com Vadico) e "Último desejo". Influenciou toda uma geração de compositores e continua influenciando. Foi, realmente, um poeta do povo, cronista de sua Vila Isabel e da sua cidade amada, o Rio. ”

https://www.youtube.com/watch?v=MFR1qykKonU

https://www.youtube.com/watch?v=B18zPYeillw

https://www.youtube.com/watch?v=wqKdWmNjllQ

Rogério Marques é jornalista