Solidez Técnica e a Devoção Humana - Nádia Campeão
Nádia Campeão, presidenta do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) foto:Portal Terra - Bruno Santos/Terra

Nádia Campeão - entrevista
Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
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Trajetórias políticas consistentes não se constroem do dia para o noite. São lapidadas pela coerência de ideais, pela capacidade analítica e pelo contato direto com a realidade do povo. Nádia Campeão encarna essa combinação singular. Com uma formação acadêmica que consolida sua paixão pela ciência, pela pesquisa e pelo rigor no estudo dos fenômenos sociais, a engenheira agrônoma forjou sua visão de mundo na militância universitária da USP e no trabalho direto junto a comunidades camponesas no interior do Maranhão. Essa bagagem técnica e humana conferiu-lhe a estofo necessário para transitar, com maestria, entre a rigorosa organização partidária e os desafios práticos do Poder Executivo.

Nádia Campeão e o líder histórico do PCdoB Renato Rabelo - Foto: Flávio Moraes/G1
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"Experiente e lucidamente crítica, Nádia alia a busca constante pela eficácia das políticas públicas a uma profunda generosidade e compromisso ético, destacando-se como uma liderança de escuta atenta, visão estratégica e incansável dedicação às causas democráticas e sociais do país.” |
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Luiz Carlos Prestes Filho: Presidenta, sua militância política começou ainda na juventude, atravessando períodos marcantes da história recente do Brasil. Olhando para trás, qual foi o momento mais desafiador da sua trajetória e o que a mantém firme na liderança partidária hoje? A revolução socialista é o objetivo central?
Nádia Campeão: Iniciei minha militância política nos tempos da universidade, na Escola Superior de Agronomia da USP, em Piracicaba, entre 1976 e 1979. Um período em que o regime militar já estava enfraquecido, mas a luta por liberdades democráticas e Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, permanecia central. Este ambiente de intenso debate e ação política me proporcionou não só uma outra visão de mundo, mas também o contato direto com os movimentos de esquerda e com os militantes do Partido Comunista do Brasil. Eu me filiei ao PCdoB, que atuava ainda na clandestinidade, e assim que me formei como engenheira agrônoma, fui trabalhar no interior do Maranhão, junto às comunidades dos camponeses que lutavam pela terra. Esta sim foi uma experiência fundamental na minha opção de vida revolucionária, porque ver a labuta , a opressão, as perseguições e mesmo os assassinatos que vitimavam os trabalhadores, tão isolados da realidade urbana do sul e do sudeste, me mostrou claramente que só uma mudança radical de sociedade poderia alterar este quadro. Creio que foram os 15 primeiros anos de minha militância que forjaram o ideal socialista de modo perene.

Nádia Campeão entre filhos, Maurício e Bernardo, e os netos Otto e Eva
Prestes Filho: A vida pública e a militância intensa exigem muito do tempo pessoal. Como foi e como é o apoio da sua família ao longo dessa caminhada? De que forma o ambiente familiar serviu de base para a sua atuação política?
Nádia Campeão: Sim, é um fato. Entendo que existe uma motivação social profunda no trabalho político que realizamos e isso impactou todas as atividades profissionais que tive, em especial as de gestão pública e de construção partidária. E envolver-se com as pessoas exige disponibilidade, presença nos locais e horários em que estão disponíveis, em geral à noite e nos finais de semana. A compreensão do companheiro, dos filhos, da família é essencial, mas precisa haver entendimento das motivações e respeito pelas escolhas de vida que se faz. E sempre estar atentos para preservar tempos e espaços para a vida pessoal e familiar.
Prestes Filho: Você é graduada em Engenharia Agronômica pela USP. Como a mentalidade técnica, o raciocínio lógico e a formação em engenharia ajudam na sua articulação política e na gestão pública no dia a dia?
Nádia Campeão: Eu diria que é o conjunto da formação acadêmica de nível superior que me deu muitos elementos preciosos para uma atuação diversificada e estruturada. O interesse pela ciência, pela pesquisa, pela comprovação dos fatos, pela interpretação dos fenômenos sociais ou naturais, tudo isso me motiva até hoje para o estudo e a aplicação prática dos conceitos e da teoria.

Nádia Campeão e a deputada Luciana Santos - Foto: Gabriela Brito
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"No âmbito da gestão pública, houve um enorme avanço das políticas a partir da Constituinte de 1988, e aí se constituiu um vasto campo de elaboração para todas as áreas, uma somatória de conhecimentos que se articularam através do envolvimento de profissionais engajados.” |
Prestes Filho: Sua experiência como vice-prefeita de São Paulo e secretária em gestões na capital paulista trouxe um grande aprendizado sobre o Executivo. Quais as principais lições dessa época que você aplica hoje na presidência nacional do PCdoB?
Nádia Campeão: Antes de exercer funções de gestão pública, o que ocorreu a partir de 2001 no mandato da Prefeita Marta Suplicy, já acumulava tarefas de direção no partido - a presidência estadual do PCdoB no Maranhão e depois a presidência do Comitê Municipal de São Paulo. Embora coisas diferentes, guardam algumas semelhanças no sentido de coordenar atividades e pessoas com um propósito de cumprir um programa político ou de governo. Na gestão pública, acresce que há um contingente de servidores que carregam sua experiência, tem expectativas em relação à administração, e é preciso fazer uma justa adequação com os objetivos e políticas daqueles que foram eleitos. Além disso, e neste caso não há paralelo com as atividades partidárias, em que a liberdade de atuação é muito mais ampla, a atividade pública executiva é submetida a regramentos legais rígidos, criando uma “distância” entre o que se pretende realizar e o que realmente se consegue realizar num determinado prazo, com os recursos disponíveis. Este foi um aprendizado totalmente novo nos primeiros anos em que atuei na gestão municipal.

Nádia Campeão e os trabalhadores rurais da cidade de Santa Inês, Estado do Maranhão
Prestes Filho: A bancada do PCdoB no Congresso Nacional tem uma atuação histórica. Como você avalia o impacto dos projetos de lei aprovados e o direcionamento das emendas parlamentares dos deputados federais do partido para as bases e municípios?
Nádia Campeão: As emendas parlamentares são um instrumento importante para a ação de vereadores, deputados e senadores, que podem orientar parcela do orçamento público para atender uma demanda da população com a qual eles têm contato e que não chegaria de outra forma , ou com a mesma força ao poder executivo. Aliás, é absolutamente necessário e legítimo que a população se organize para reivindicar e pressionar por esta ou aquela prioridade importante para seu bairro, sua cidade ou ação social. Mas há evidente distorção no que ocorre atualmente no âmbito federal, em que parte significativa do orçamento deixou de ser definida pelo Executivo, em que o destino de parte das emendas não tem transparência, e têm sido constatados muitos casos de desvios de recursos.

Fernando Haddad, então prefeito de São Paulo, e Nádia Campeão, vice-prefeita e secretária de educação da cidade de São Paulo
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"Os deputados do PCdoB cumprem corretamente com sua responsabilidade no direcionamento, transparência e relevância de suas emendas, mas não se furtam de uma visão crítica do processo com objetivo de promover mudanças que corrijam estas deformações.” |
Prestes Filho: O PCdoB compõe a base de sustentação do governo do presidente Lula. Como tem sido a atuação do partido para garantir que as pautas da legenda caminhem em perfeita sincronia com as prioridades do governo federal?
Nádia Campeão: Ao longo dos quatro anos de mandato do Presidente Lula, tem havido muita convergência nas questões relativas à reconstrução nacional, na retomada e ampliação das políticas públicas, na defesa da democracia e, mais recentemente, no enfrentamento dos ataques à soberania nacional por parte do governo Trump. Reconhecemos os méritos e realizações do governo, e a liderança de Lula , num contexto de grande pressão de forças conservadoras e de extrema-direita, na sociedade e no Congresso Nacional. Por isso, há uma grande união de forças progressistas e de esquerda em torno da sua reeleição.

Nádia Campeão em plenária do Partido Cumunista do Brasil (PCdoB) - Foto: site Vermelho
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"Mas o PCdoB tem manifestado também uma visão crítica acerca da política econômica que vem sendo praticada, em que a combinação de juros altos, arcabouço fiscal e sangria de recursos para pagamento da dívida pública, acaba por anular os esforços do próprio governo de realizar investimentos públicos necessários, inclusive para a reindustrialização do país, impedindo que o Brasil se desenvolva.” |
Prestes Filho: Em tempos de forte presença digital, o olho no olho continua sendo insubstituível. Como você concilia a agenda institucional da presidência do partido com o contato direto com o eleitor e as comunidades na ponta?
Nádia Campeão: Na ação política e partidária da atualidade, é indispensável manter presença nas redes sociais. É um meio muito eficiente para falar com milhares de pessoas em qualquer lugar do país, a qualquer momento denunciar um ataque da extrema-direita ou esclarecer sobre as posições do Partido. E não há qualquer impedimento de que os dirigentes do Partido estejam em contato direto com a militância e com as bases comunitárias, de juventude, dos sindicatos. Continuamos com uma atividade muito intensa neste sentido.
Prestes Filho: Diante do cenário político atual, quais são os temas e as pautas mais prioritários e urgentes neste momento para garantir a real defesa da democracia e a soberania nacional do Brasil?
Nádia Campeão: A reeleição do Presidente Lula concentra e materializa o que há de mais importante para prosseguir a luta pela defesa da democracia no país e , a partir desta conquista, como aponta o programa de governo, ampliar a democracia participativa, realizar reforma política. É sabido que eventual vitória do candidato da extrema-direita significaria anistia para os condenados pela tentativa de golpe em 2023 e um enorme retrocesso político no país. Referente à causa da soberania, em nenhuma disputa presidencial anterior a ingerência do imperialismo estadunidense esteve tão descarada e ameaçadora.
Luiz Inácio Lula da Silva e Nádia Campeão
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"Terá enorme significado para o desenvolvimento soberano do Brasil a eleição de Lula, mas também para o destino da América Latina não ficar atrelado aos interesses dos EUA.” |
Prestes Filho: O Brasil e o mundo têm enfrentado uma onda de radicalismo político que muitas vezes inviabiliza o debate saudável. Como você enxerga esse radicalismo interno e qual é o papel do PCdoB para contrapor a intolerância e restabelecer o diálogo institucional?
Nádia Campeão: A negação da política como meio de enfrentar e buscar solução para os conflitos na sociedade foi um dos pilares do discurso da extrema-direita para, ao invés disso, estimular a intolerância, o ódio e todo tipo de preconceito. Fizeram o uso agressivo e robotizado das redes sociais disseminando fake news e negacionismo. Tudo isso tem comprometido enormemente o debate democrático na sociedade, resultando em uma prolongada situação da chamada “polarização”. A nós cabe enfrentar permanentemente estas idéias e práticas neofascistas por todos os meios, nas redes, nas organizações populares, junto a sociedade civil, no parlamento, nos meios de comunicação, nos processos eleitorais. Ao mesmo tempo, o PCdoB advoga por uma ampla frente democrática no país capaz de conter e desarticular essa onda reacionária que se articula internacionalmente.

Nádia Campeão em plenária do PCdoB
Prestes Filho: O crescimento de movimentos de extrema-direita tem acendido alertas globais. Qual é a sua leitura sobre o avanço do fascismo no cenário internacional contemporâneo e quais são as suas maiores ameaças? Você participou do Fórum Antifascista em Moscou, organizado pelo Partido Comunista da Federação Russa (PCFR). Quais foram os principais consensos e discussões travadas nesse encontro global sobre o combate à extrema-direita?
Nádia Campeão: O ascenso do neofacismo e da extrema-direita no mundo tem por epicentro os Estados Unidos e deriva da agudização da crise sistêmica do capitalismo, além do desgaste e esvaziamento da democracia liberal. É a resposta da oligarquia financeira para tentar bloquear os projetos nacionais alternativos, conter as forças revolucionárias nos países capitalistas e objetiva jogar o peso da crise sobre os ombros dos povos e dos trabalhadores. O governo Trump busca reverter o declínio dos Estados Unidos e conter o ascenso da República Popular da China e o poder nacional da Rússia, mediante políticas protecionistas, guerra comercial e chauvinismo. Põe no comando a política de força, de agressões, guerras, intervenções militares. Desencadeou uma nova corrida armamentista , implodiu o sistema de governança internacional e é uma ameaça permanente à paz mundial.
Nádia Campeão faz pronunciamento no Fórum Antifascista em Moscou, Rússia, para onde viajou juntamente com a membro do Comitê Central do PCdoB, Ana Prestes
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"O PCdoB entende que a jornada contra o neofacismo é uma luta anti-imperialista, democrática e civilizatória, pela paz, pela solidariedade ativa aos povos agredidos. Exige eficiente e ampla batalha de idéias, mobilização e luta popular. Nossa participação em fóruns e encontros internacionais, como o Fórum Antifacista em Moscou e o Seminário dos 100 Anos de Fidel, em Havana, tem esse sentido.” |
Prestes Filho: Com a consolidação do sistema de federações partidárias no Brasil, como o PCdoB tem se posicionado estrategicamente para manter sua identidade histórica e, ao mesmo tempo, expandir sua força eleitoral?
Nádia Campeão: A Federação Brasil da Esperança, que uniu PT, PCdoB e PV em uma aliança política e eleitoral , completou quatro anos desde sua constituição — tendo sido a primeira a ser formada —, e foi renovada para os próximos quatro anos. Tem sido uma experiência exitosa porque estabelece um núcleo estável no seio das forças progressistas e da esquerda capaz de apresentar bases programáticas comuns para o enfrentamento político necessário, além de permitir a participação nas disputas eleitorais em condições favoráveis para a eleição de parlamentares em todos os níveis. Naturalmente, há também um permanente debate interno sobre os posicionamentos da Federação, sobretudo nos períodos eleitorais, mas as discrepâncias de opinião buscam o caminho do consenso e das construções políticas.

Nádia Campeão em visita oficial a República Popular da China
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"Em nenhum momento esteve em questão a identidade do PCdoB, que é um partido comunista, patriótico e revolucionário, que tem uma estratégia e um pensamento tático definidos no Programa Socialista para o Brasil, cuja essência é a jornada pela conquista do poder político para efetivar a transição do capitalismo ao socialismo. A direção nacional e a bancada parlamentar do PCdoB exercem plenamente sua autonomia, como de resto todo o partido , através da Fundação Maurício Grabois, da Escola João Amazonas, dos movimentos onde atuamos.” |
Prestes Filho: A renovação dos quadros políticos é um desafio para qualquer legenda. Como o PCdoB tem trabalhado para atrair a juventude e os novos movimentos sociais para a militância ativa?
Nádia Campeão: Consideramos os trabalhadores e a juventude forças estratégicas para o fortalecimento do Partido e, também, transversalmente, o trabalho entre as mulheres. Em relação à juventude, desde o início dos anos 1980, os comunistas assumiram a hegemonia no movimento estudantil brasileiro , universitário e secundarista. Em 1984, o Partido impulsionou a fundação da União da Juventude Socialista (UJS), uma entidade de massas que agrega jovens filiados e não filiados ao Partido. A UJS, hoje, atua em forte aliança com a Juventude Pátria Livre (JPL), que tem caráter patriótico e revolucionário. A prioridade de atuação tem sido junto ao movimento estudantil pela importância histórica que possui na vida política, social e educacional do país. Mas o desafio , na atual etapa, é diversificar e ampliar essa atuação junto aos jovens trabalhadores e avançar para as pautas com grande apelo entre a juventude como a jornada contra o racismo, pelo direito das mulheres, em defesa da cultura brasileira e da pauta ambiental.
Prestes Filho: Para encerrar, qual é a principal mensagem que você, como presidente do PCdoB, deixa para a militância e para os brasileiros que buscam um projeto nacional de desenvolvimento de esquerda para o país?
Nádia Campeão: A atual geração de lutadores – patriotas, progressistas, socialistas e comunistas– , têm um desafio de grande magnitude: defender o Brasil da forte ameaça do imperialismo estadunidense sobre toda a América Latina, mas especialmente contra nosso país, e mais imediatamente sobre o processo eleitoral de 2026. Estão evidentes as provocações, as tentativas de ingerência, de questionamentos das urnas eletrônicas, da criação de crises diplomáticas, da confrontação com as instituições brasileiras, da manipulação de governantes de outros países para atacar o Presidente Lula. A dupla Trump-Marco Rubio pretende impor ao povo brasileiro um títere para presidir o país. Daí a importância crucial da reeleição de Lula, para afastar a alternativa da extrema-direita entreguista e traidora da pátria e manter aberto o caminho da construção democrática, do avanço do desenvolvimento nacional soberano e sustentável e de novas conquistas sociais para nosso povo. Nádia Campeão 11 de julho de 2026.

Nádia Campeão, vice-prefeita e secretária de educação da cidade de São Paulo - Foto: Cesar Ogata/SECOM
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Luiz Carlos Prestes Filho é jornalista e diretor de cinema



