Sinos de Rostov Velikiy e Ouro Preto

Sinos de Rostov Velikiy e Ouro Preto

Sinos de Rostov Velikiy e Ouro Preto

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Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

Entre a imponência de Rostov Velikiy, na Rússia, e a opulência barroca de Ouro Preto, no Brasil, os sinos desenham no ar geografias sonoras distintas, com funções, toques e histórias que cruzam séculos — e que agora encontram um ponto de união cultural e afetivo. Em especial, após assinarem o Acordo de Cidades Irmãs, em 2026. Embora partilhem a matriz cristã, as torres sineiras de Rostov Velikiy e de Ouro Preto expressam a fé e a vida comunitária de maneiras diversas. 

"Os sinos de Rostov Velikiy nos remetem à Igreja Ortodoxa Russa. Na tradição ortodoxa, o sino é considerado um instrumento litúrgico sagrado, uma extensão da voz divina. Seus toques não seguem uma estrutura harmônica ou melódica ocidental; são essencialmente rítmicos, composições complexas que envolvem sinos de diferentes tamanhos tocados por um único sineiro (ou uma equipe por ele comandada) usando as mãos e os pés para acionar os badalos.

Mestres sineiros de Rostov Velikiy

Os sinos de Ouro Preto pertencem à tradição da Igreja Católica Apostólica Romana, trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses. Em Minas Gerais, o repique e o dobre dos sinos desenvolveram uma linguagem própria, musical e informativa. Eles funcionavam — e ainda funcionam — como o principal veículo de comunicação da cidade, anunciando festas, missas, procissões, falecimentos e até incêndios.

"A história recente dos sinos de Rostov Velikiy confunde-se com a própria história política do século XX. Durante o período da União Soviética, a tradição milenar dos sinos foi proibida pelo regime, silenciando o coração espiritual da nação. Em 1981 tive o privilégio de conhecer a rica variedade desses sinos. Naquela ocasião, meu amigo Valery Naumov realizava um filme sobre a tradicional arte da pintura sobre metal e esmalte — a Finift de Rostov Velikiy. Tive a oportunidade de subir na torre sineira e, excepcionalmente para o registro cinematográfico, os sinos foram tocados. Fazia muitos anos que aquele som monumental não ecoava com tanta força. Era um vislumbre escondido de uma tradição sufocada.

Agora, em 2026, ao subir novamente na mesma torre sineira em Rostov, a experiência foi completamente diferente. Pude vivenciar a alegria indescritível do mestre sineiro responsável, que hoje pode executar sua arte milenar com absoluta liberdade. Lá de cima, enquanto o metal vibrava livremente, contemplei a paisagem circundante. Cenário onde nasceu o próprio espírito de nação da Rússia, há mais de mil anos.

Mestre sineiro de Ouro Preto

"Do outro lado do oceano, a experiência em Ouro Preto evoca outra dimensão da história. Nas Minas Gerais, vivenciei os sinos que anunciam as grandes festas litúrgicas, o pulsar barroco que dita o ritmo da vida comunitária. Ao subir em uma das imponentes torres da Igreja de São Francisco de Assis, em 1985, obra-prima de Aleijadinho, o horizonte se abriu de forma avassaladora. Dali, o olhar alcança a paisagem esculpida por montanhas e mineração, o solo exato onde nasceu a busca pelo Brasil independente. É o território onde, há mais de 200 anos, germinou a alma rebelde e libertária do Brasil, embalada pelos mesmos dobros que outrora choraram os mártires da Inconfidência e que hoje celebram a cultura viva.

Russos e brasileiros, os sinos de Rostov e de Ouro Preto quando ativados, tocam melodias e ritmos diferentes, moldados pelas particularidades de suas respectivas fés e trajetórias históricas. No entanto, para além das diferenças técnicas e litúrgicas, os seus sons quebram barreiras geográficas e temporais, unindo duas cidades históricas sob o mesmo manto de preservação da memória, da arte e da identidade de seus povos.

Luiz Carlos Prestes Filho é escritor