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Por Marcus Gerhard

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Eu exijo o atestado dos meus sentidos. Um papel manchado de vida, assinado pelo desejo, dizendo que hoje minha alegria inunda o corpo e que nada se cobre de quem ama com tanta fome. Porque há dias que transbordam, dias de cheia, onde a felicidade não cabe na margem. Amar em paz é o meu rito, minha gira, ser tudo no teu todo é a única cura.

"Quando a tarde caiu, meu olho não verteu água. Foi a Kalunga, o mar imenso, que quis me invadir. Mas eu não queria o mar, eu queria o teu suor. Queria o sal da tua pele. Queria a dança do teu corpo, valsa, salas ou samba, não importa, desde que fosse roça-roça, esquecendo os colibris e as orquídeas que nos espiavam, sedentas da nossa seiva.”

Eu nego a tristeza. Nego o jejum. Não deixo o amanhã roubar o gosto do meu agora. Quero o atestado da minha plenitude, blindar meu corpo contra qualquer desamor. Ah, seus olhos... E aquele sexo que não tinha fim. Atravessamos os tornos como quem atravessa um oceano, bebendo um do outro, matando a sede na fonte. Alimentamo-nos tanto que a fome virou a própria comida. Era corpo, era fogo, era o cheiro fundo de orgasmo. Lembra, amor, aquela dança que fiz só pra você, rijo, cheirando cada centímetro do teu corpo. Aquele desejo gritado nos vãos da alma onde a palavra não chega mas a unha alcança.

"Fomos tanto que o mundo ficou raso. Ipanema? Ficou pálida, sem graça, "demodê", perto da cor e do sabor dos nossos beijos. O futuro, acanhado, não ousou prometer nada, assustado de ver a gente gemendo junto, naquela língua antiga que o desejo inventou.

Vi o Pão de Açúcar chorar de inveja da nossa solidez. Vi as palmeiras se abrirem em flor só para nos tocar. Tudo é permitido quando a pele pede. Quando a gente só quer sugar o tutano do dia.

Por isso eu moro no presente. Nessa certeza úmida e viva: a que tivemos, a que temos. A que o sol lambeu e a areia guardou. A vida com você é presente. Em qualquer tempo. Em todo arrepio. Em cada instante que ousa queimar.

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Marcus Gerhard é cantor lírico e poeta