Radiografia dos Nossos Sertões

Radiografia dos Nossos Sertões

"A Coluna Prestes em Taiobeiras", artista Julia Marques

logo

Radiografia dos Nossos Sertões

Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

A obra "A Coluna Prestes nos Gerais de Minas", organizada por Levon Nascimento, consolida-se como um marco fundamental na historiografia brasileira. O livro é o resultado de uma busca incessante por fragmentos de uma história que muitos acreditavam estar totalmente mapeada, trazendo à luz a passagem do movimento pelo território mineiro através de uma estrutura robusta de 9 capítulos.

Luiz Carlos Prestes Filho e Levon Nascimento na Comissão de Cultura da ALMG

A robustez do livro é garantida pela colaboração de 15 autores, que trazem diferentes perspectivas acadêmicas e sociais para o debate. Além disso, a obra dialoga com grandes estudiosos da história nacional, como Abguar Bastos, cujo olhar sobre o "Cavaleiro da Esperança" ajuda a contextualizar a trajetória política de Luiz Carlos Prestes:

"Nada mais épico, para a burguesia, do que esse Cavaleiro da Esperança, que desafiava exércitos, rompia um áspero território de oito milhões de quilômetros quadrados, atravessava, sem saber nadar, centenas de rios, transpunha vales colossais... Como era impressionante esse homem do Rio do Inferno, do Capão da Onça, da estrada Cruel, ou do Brejo da Brasa..." (Abguar Bastos, 1946)

Embora se diga frequentemente que "tudo já foi dito" sobre a Coluna Prestes, o trabalho do historiador Levon Nascimento prova o contrário. O livro revela que a lenda alimentada nas cidades muitas vezes choca-se com a percepção rural. Enquanto nos centros urbanos se vê o herói, o folclore sertanejo, por vezes, enxerga o movimento como "o raio, a peste, a chama, o pecado", demonstrando que a história é composta por múltiplas e complexas verdades.

A historiadora Joandina Maria de Carvalho ofereceu a Luiz Carlos Prestes seu livro "A Coluna Prestes em Condeúba" (BA)

O diferencial humano da obra é oferecer voz a testemunhas locais e figuras históricas das pequenas comunidades. O texto de Joandina Maria de Carvalho resgata relatos preciosos, como o do padre João Gualberto, que explicou sua permanência na cidade durante a chegada dos revoltosos:

"Os boatos que correram deixaram o povo com medo e vou confessar a verdade, eu não fugi por causa da idade".

Outro testemunho marcante é o do Senhor Remígio da Silva, de Condeúba, que descreveu a cena deixada após a passagem dos revolucionários:

"Eles pegaram mercadorias das casas comerciais e puseram lá no Paço Municipal. [...] Então, eu vi com esses olhos... a latinha de esmalte com que os revolucionários escreveram aquela frase: No meio de uma aglomeração desorganizada, um bando decidido a tudo, penetra a fundo, como cunha de ferro em montão de ferragens".

O impacto real desta pesquisa foi comprovado durante os lançamentos em Belo Horizonte e em Taiobeiras. A receptividade demonstrou que o livro mobilizou a sociedade local como nenhuma outra obra anterior. Ao unir o rigor de autores como Fabiano Alves Pereira, Joandina Maria de Carvalho, Leleco Pimentel, Levon Nascimento, Lídio Barreto Filho, Luiz Eduardo de Souza Pinto, Márcia Sant'ana Lima Barreto, Maria de Fátima M. Mariani, Milton Pena Santiago, Mônica Rodrigues Teixeira, Padre João Carlos Siqueira, Pedro Abder Nunes Raim Ramos, Sidney Batista Azevedo, Silvânia Aparecida de Freitas e Vladimir Mendes Patrício, o livro toca na alma do povo mineiro, legitimando sua identidade e sua memória.

"No encerramento da obra, as palavras de Vladimir Mendes Patrício oferecem uma reflexão filosófica sobre o valor deste resgate. Para o autor, a história não é uma verdade absoluta, mas sim um conjunto de narrativas subjetivas que se formam a partir de diferentes perspectivas."

O escritor e comerciante Vladimir Mendes Patrício ofereceu a Luiz Carlos Prestes Filho seu livro "Retalhos de Prosas"

​Vladimir destaca que a Coluna Prestes pôs à mostra uma "maravilhosa radiografia dos nossos sertões", exibindo a exuberância da geografia mineira ao mesmo tempo que revelava as "agruras sociais" do semiárido norte-mineiro. Ele sublinha que a ausência total do Estado naquele tempo deixava a população à própria sorte, num cenário onde imperava a lei do mais forte. Assim, a obra cumpre o seu papel vital: registrar episódios que, embora marcados por nuances subjetivas, estão "indelevelmente marcados no conhecimento popular e na literatura", garantindo que a memória destas lutas e destas gentes jamais seja apagada.

"Não posso deixar de finalizar este texto sem destacar a obra sensível de Julia Marques que deu vida a capa do livro."

Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura e Desenvolvimento Econômico Local