O longo fio

O longo fio

(Tradução de um poema de Rumi a partir da versão em inglês de Coleman Barks)

 

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O LONGO FIO

 

O rato pergunta ao amado sapo:

“Sabe o que você é para mim?

De dia, a energia para eu trabalhar.

À noite, meu sono mais profundo.

Mas será que podemos estar juntos

fora do tempo, assim como dentro?

 

Fisicamente, nos encontramos só no café da manhã.

Sua ausência ao longo do resto do dia

penetra todos os meus desejos!

Eu bebo quinhentas vezes mais do que deveria.

Eu como que nem um bulímico tentando morrer.

Me ajude!

 

Sei que não mereço,

mas sua generosidade é tão grande!

 

Permita que sua luz do sol brilhe

neste monte de esterco, e o seque,

para que eu possa ser usado como combustível

para esquentar e iluminar a casa de banhos.

 

Veja as coisas terríveis e estúpidas que eu fiz,

e faça com que ervas e flores nasçam delas.”

 

O sol faz isso com a terra.

Pense nas glórias que Deus pode fazer

com o fertilizante do pecado!

 

O rato continua implorando:

“Meu amigo,

eu sei que sou feio para você.

Eu sou feio para mim mesmo!

Sou perfeitamente feio!

Mas, olha, você vai ficar triste

quando eu morrer, não vai?

Você vai se sentar perto da minha lápide

e chorar um pouco?

 

Tudo o que estou pedindo é:

fique um pouquinho comigo

enquanto ainda estou vivo!

Agora. Eu quero você AGORA!”

 

Certo homem rico estava acostumado a honrar um sufi

dando a ele moedas de prata.

 

“Você prefere uma moeda agora,

senhor da minha alma, ou três no café da manhã

amanhã cedo?”

 

O sufi respondeu:

“Eu amo a meia moeda de ontem,

que já tenho em mãos,

mais do que a promessa de uma inteira hoje,

ou a promessa de cem amanhã.

Um sufi é filho deste momento.”

 

De volta ao rato, que dizia:

“A bofetada do Agora

tem dinheiro na mão.

Me dê uns tapas

no pescoço, em qualquer lugar!”

 

Alma da minha alma da alma de cem universos,

seja água neste rio do agora, para que jasmins

subam até a borda, e alguém distante

possa notar as cores das flores e saber

que há água aqui.

 

“O sinal está na cara.”

Você pode olhar um pomar

e dizer se choveu nele

noite passada.

Aquele frescor é o sinal.

 

Novamente, o rato:

“Amigo, eu sou feito do chão

e para o chão. Você é da água.

Estou sempre parado na margem te chamando.

Tenha piedade. Não posso te seguir dentro da água.

Não tem alguma forma de mantermos contato?

Um mensageiro? Algum lembrete?”

 

Os dois amigos decidem que a resposta

é um longo fio de anseio, com uma ponta amarrada

ao pé do rato, e outra ao do sapo,

de modo que, ao puxá-lo, sua conexão secreta

possa ser lembrada, e os dois possam se encontrar,

como a alma faz com o corpo.

 

A alma, como o sapo, frequentemente escapa do corpo

e voa alto na água feliz. Então, o corpo-rato puxa o fio,

e a alma pensa: “Putz! Tenho que voltar à margem do rio

e conversar com aquele rato desmiolado!”

 

Você vai ouvir mais sobre isso

quando realmente acordar, no Dia da Ressurreição!

 

Então, o rato e o sapo amarraram o fio,

ainda que o sapo tivesse um palpite de que

uma enrascada estivesse por vir.

 

Nunca ignore essas intuições.

Quando você sente uma leve repugnância em fazer alguma coisa,

ouça-a. Essas premonições vêm de Deus.

 

Lembre-se da história do elefante militar

que não se movia em direção à Caaba.

Paralizado para aquela direção,

mas rápido se apontado para o Iémen.

Ele tinha algum conhecimento interno do invisível.

 

Assim, o profeta Jacó, quando seus outros filhos

queriam levar José para o campo por dois dias,

ficou com o coração aflito com a partida deles,

e era verdade, ainda que o destino divino tenha prevalecido,

apesar do seu pressentimento, como acontece.

 

Nem sempre é um cego que cai no buraco.

Às vezes é alguém que pode ver.

 

Um santo às vezes cai,

mas por meio dessa tribulação ele se eleva,

escapa de muitas ilusões,

escapa da religião convencional,

escapa de estar tão preso aos fenômenos.

 

Pense em como os fenômenos vêm marchando

do deserto da não-existência

para esta materialidade.

 

Manhã e noite vêm em uma longa fila

e vão se revezando.

“É minha vez agora, sai fora!”

 

Um filho atinge a maioridade e o pai faz as malas.

Este lugar de fenômenos é uma grande encruzilhada

de caminhos, com tudo indo para todo tipo de direção.

 

Nós parecemos estar sentados sem nos mexer,

mas na verdade estamos nos movendo,

e as fantasias dos fenômenos estão passando por nós

como ideias por cortinas.

 

Elas vão até o poço do amor profundo

dentro de cada um de nós.

Lá, enchem seus jarros, e partem.

 

Há uma fonte de onde elas vêm,

e uma nascente aqui dentro.

 

Seja generoso. Seja grato.

Confesse quando não o for.

 

Não podemos saber

o que a inteligência divina

tem em mente!

 

Quem sou eu,

parado no meio 

deste tráfego de pensamentos?

  

  

(Traduzido do livro The Essential Rumi)