A Volta de Heitor dos Prazeres
Heitor dos Prazeres

Por Ricardo Cravo Albin
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O acúmulo de memórias em vida já tão espichada quase sempre me enternece. Ao menos quando podem evocar eventos agradáveis. Que felizmente são inúmeros. O que não quer dizer que os eventos amargos nunca sejam lembrados. É claro que existiram. Mas, como já disse o poeta, “as amargas não”. Melhor, e muito mais sábio, confiná-las dentro de uma cumbuca de fel. E esquecer.

@Heitor dos Prazeres
Acode-me agora, ao ver Heitor dos Prazeres ser novamente celebrado na avenida, a certeza de que certos nomes não pertencem apenas ao passado — pertencem ao destino do Brasil. Heitor foi um pioneiro relevante. E não só como pintor primitivo de fina estirpe. Foi testemunha ocular do nascimento do samba na casa de Tia Ciata, onde viu nascer “Pelo Telefone” (1917, Donga – Mauro de Almeida).
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"Foi também autor de sambas que se seguiram aos de Donga, João da Baiana, Sinhô e Pixinguinha, seus parceiros de folguedos musicais e do candomblé nos casarões da antiga Praça XI. Pioneiro, ainda, como fundador da Portela, onde era conhecido como Mano Lino.” |

Querem mais de Heitor? Foi admirado por presidentes da República como Juscelino Kubitschek e por intelectuais do porte de Carlos Drummond de Andrade, seu amigo e confidente. Conheci Heitor na antiga Galeria Goeldi, fundada pelo crítico Clarival do Prado Valladares, que a ele me apresentou com frase definitiva: “— Este é o melhor pintor do Brasil, porque nunca estudou nada e sabe tudo.”
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"Eu já colecionava seus discos — não os quadros, que já valiam fortunas —, sambas gravados pelo conjunto “Heitor e sua gente”, indicados com fervor por Lúcio Rangel e Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que costumava chamá-lo de “Prazeres Duplos”: os da pintura e os do samba.” |

@Heitor dos Prazeres
Quando criei no MIS, em 1966, os depoimentos para a posteridade, um dos primeiros a gravar seria ele. Durante três horas, contou-me sua vida. Falou de sucessos como “Pierrô Apaixonado” (com Noel Rosa), “Lá em Mangueira” (com Herivelto Martins) e “Mulher de Malandro”, este último sem parceiro, imortalizado por Chico Alves.
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"Ao despedir-se na porta do Museu, impecável de terno escuro e óculos redondos, inclinou-se para mim e disse: |

@Heitor dos Prazeres
Hoje, ao vê-lo renascer na avenida, compreendo que certos artistas não morrem. Transformam-se em enredo, em bateria, em canto coletivo. Heitor não pertence apenas à história — pertence ao Carnaval. E enquanto houver tamborim, haverá Heitor dos Prazeres.
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Ricardo Cravo Albin é advogado, jornalista, historiador, crítico, radialista e musicólogo brasileiro, sendo considerado um dos maiores pesquisadores da Música Popular Brasileira.



