A vida é um sopro, um minuto assim
"A vida é um sopro, um minuto assim", Oscar Niemeyer

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Entrevista com o arquiteto Oscar Niemeyer
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Luiz Carlos Prestes Filho e o arquiteto Oscar Niemeyer
Em 1998 entrevistei para uma revista russa o arquiteto Oscar Niemeyer. Enviei o texto para a redação mas ele não foi publicado. Inesperadamente, ao revisar meus arquivos, encontro o texto ainda inédito que havia esquecido. Abaixo segue a versão do original. Parece mais um bate-papo com aquele que foi um dos grandes amigos e parceiros de meu pai. Enquanto ele falava realizei alguns desenhos.
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Luiz Carlos Prestes Filho: Você gosta de dizer que é um homem dividido entre a tristeza e alegria.
Oscar Niemeyer: Exilado em Paris, na maior tranquilidade, qualquer coisa, uma palavra, uma música que lembrasse ○ Brasil me comovia. Eu estava ali me divertindo e, de repente, voltava para a angústia, lembrava dos amigos, dos familiares metidos naquela desgraça que foi o golpe militar de 1964. Eu sou assim, tenho uma história comum, nada de importante, sou produto da natureza. Vivi como pude. Quanto mais tempo passa a gente vê que a vida fragil, não tem perspectiva, verificamos que o ser humano não deve nada a ninguếm, que nasceu assim como é. Por isso, a gente fica mais solidário. Todo mundo tem um lado bom, outro ruim. Um lado feliz e outro triste. A vida é uma loteria. A gente nasce inteligente ou burro, para depois receber porradas em cima o tempo todo. Vai rindo, chorando e um dia parte, sem nenhuma esperança. Por isso, gosto do meio termo.

Luiz Carlos Prestes Filho e o arquiteto Oscar Niemeyer
Prestes Filho: Você tem esperança no país?
Niemeyer: Eu estou cada vez mais radical, depois de esperar tanto e assistir os governos somente oferecerem pequenos favores ao povo, verifico que eles não vieram para abrir caminhos, viabilizar para um futuro melhor. Todos os presidentes, todos os homens de governo em geral, representam o regime capitalista com suas injustiças. De fato, só a revolução socialista pode mudar alguma coisa. É lógico que eu não quero a revolução para amanhã. Eu sempre digo para os estudante que é preciso ter dentro de si esta idéia de mudar. Eu converso com eles e repito que não basta ser um bom arquiteto. É preciso ter os pés na terra, conhecer seu país, conhecer o mundo, para atuar de uma maneira solidária. Ficar do lado dos que sofrem e são oprimidos. As mudanças não virão sozinhas. Temos que viver os sonhos, as esperanças, as fantasias e os fracassos, de braços dados com o povo.

Prestes Filho: E os amigos?
Niemeyer: São tantos, para bate-papo no escritório, para sair por ai. Isso foi sempre assim, porque a arquitetura não é tão importante como a família e os amigos Agora, a idade traz o despedir sem fim, Com a morte do Lúcio Costa como a de tantos outros senti que um pedaço meu ficava pelo caminho. Até porque, cada um me complementava à sua maneira. Por exemplo, quando fui para Brasília eu não me limitei em levar arquitetos. Levei um jornalista, um médico, que não sabia nada de medicina, mas era um sujeito muito bom, foi também um goleiro do Flamengo, que era amigo de um amigo meu. Foram aqueles que estavam na merda e eu tinha que ajudar. Também, não queria chegar em Brasilia, naquela solidão e sair conversando sobre arquitetura o tempo todo, queria variar o assunto.
Prestes Filho: Tantos anos de vida, qual é a receita?
Niemeyer: Nunca pensei nisso. A gente vive o que o fisico representa. Hoje ainda posso andar, rir e até bater um penalti... Me sinto sempre um pouco mais moço, esses meus noventa anos é uma sacanagem. O sujeito tem que reagir, evitar de ficar sozinho, Gosto de pensar nas coisas junto com os outros.

Museu de Arte Conteporânea da cidade de Niterói, Rio de Janeiro
Prestes Filho: Você fuma e bebe?
Niemeyer: Fumo charutinho e nunca fui de beber. Tive vários amigos que bebiam bastante, eu nunca fui disso. Não tenho prato preferido, gosto mesmo é do feijão com o arroz. Cuidados especiais para mim não vale. Um amigo, certa vez, veio se vangloriar que depois de ter passado a fazer cooper tinha perdido abarriga e sua saúde melhorou. Passou uma semana, morreu sei lá de que... Prefiro a massagem que trabalha todos os músculos sem sobrecarregar o coração. Ultimamente tenho me dedicado à fisioterapia. O médico que me movimenta como quer, obedeço suas instruções durante as seções que acontecem aqui mesmo no escritório.
Prestes Filho: E as mulheres, o casamento?
Niemeyer: Anita, minha mulher, sempre foi boa companheira e compreensiva.
Prestes Filho: Ciumenta?
Niemeyer: Toda mulher é ciumenta, homem também, O negócio é que quando hà amizade tudo se supera. Tanto que são 70 anos de casamento. Como eu sempre viajei muito, isso facilitou minhas movimentações. Ela ficava com muitas dúvidas, perguntava. Ainda hoje Anita toma conta de mim. Sempre que chego em casa tenho que dar uma explicação, até porque eu trabalho sem parar. Continuo como no primeiro dia, tenho que trabalhar e trabalhar para sobreviver. Tenho encargos familiares. Hoje, me arrependo um pouco de não ter pensado em guardar qualquer coisa para o futuro.
Prestes Filho: São muitos projetos em andamento?
Niemeyer: Em Niteroi, o Prefeito Jorge Roberto Silveira está preparando a construção do Caminho Niemeyer e na cidade do Rio de Janeiro estamos projetando o Centro de Convenções para o Rio Centro, com apoio do Prefeito Luis Paulo Conde. Tenho projetos na Inglaterra, em Portugal. Estou ocupado. Entro as nove da manhã e saio depois das nove da noite. Almoço aqui no escritório.

Prestes Filho: Quais são as caracteristicas das obras em andamento?
Niemeyer: Em Itabira estamos concluindo o Memorial Carlos Drummond de Andrade. É um projeto que me agrada, porque é mais didático que os outros. Fiz o monumento, que é uma placa de concreto que sai de um espelho d'água como uma leve folha de papel, onde vem escrito um poema. Nos fundos tem uma parede grande, atrás da qual ficam as salas de reuniões, biblioteca, salas de aula e bar. Funcionará como o Memorial Coluna Prestes, que estamos executando no Tocantins, com o Governador Siqueira Campos. Vamos ter uma sala para exposição, auditório e a reprodução do gabinete de trabalho do Prestes. Fazer monumentos sem nada dentro não tem sentido. É bom continuar trabalhando para os amigos. Conheci bem o Drummond, desde os tempos do Capanema, quando ele fez um poema falando de mim. Também, fui amigo do Prestes, seu pai.

Memorial Clouna Prestes Tocantins, inaugurado em 2001
Prestes Filho: A cidade de Brasilia de hoje, como você a vê?
Niemeyer: Brasília está muito ruim, fizeram muitas besteiras. Por exemplo, a escola Júlia Kubistchek era um espaço que o Juscelino tinha dedicação especial, Veio o golpe militar de 1964 e eles derrubaram a escola, passaram com uma rua por cima. Estão descaracterizando o projeto original da cidade e de sua arquitetura.
Prestes Filho: Na sua opinião, qual é a caracteristica da arquitetura atual?
Niemeyer: Nela se reflete o progresso espetacular das nossas técnicas de engenharia.
Prestes Filho: Foi este progresso que aproximou a arquitetura de sua vida?
Niemeyer: Não, foi o desenho que me levou à arquitetura. Por isso, entendo que a arte a e arquitetura devem seguir juntas.
Prestes Filho: Você construiu palácios e obras maiores, mas gostaria de projetar um conjunto de habitação popular?
Niemeyer: Não acredito em arquitetura popular em regime capitalista.

Oscar Niemeyer, desenho de Luiz Carlos Prestes Filho
Prestes Filho: Os arquitetos mais jovens estão utilizando os recursos da informática, como você trabalha?
Niemeyer: Computador somente para o desenvolvimento, isso para economia de tempo no detalhamento.
Prestes Filho: Você não está cansado da vida?
Niemeyer: Quando a gente absorve a idéia de que o homem não é responsável por tudo que está em nossa volta, aí aceitamos todas as coisas com mais tranquilidade, ficamos menos preocupados. Eu sou otimista, mas sou realista. Acho que vida é um sopro, um minuto assim. Não acredito em nada. Morreu acabou. Venho de uma familia católica, com missa em casa. Mas quando saí para a rua vi que a vida é injusta demais, que a gente tem que se manifestar. O importante é modificar o ser humano. No dia em que todos olharem para o céu, se fixarem no firmamento, sentirem o quanto somos insignificantes, que ninguém é importante, aí ficaremos mais dóceis, mais aptos a viver num regime de fraternidade. Não hà razão para ser otimista cego, até porque otimismo foi combatido pelas pessoas mais inteligentes. Porém, temos que aproveitar os momentos de felicidade para se distrair. A vida é rir e chorar o tempo todo.
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Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura, Mestre das Artes Cinematográficas pelo Instituto Estatal de Cinema da União Soviética



