Uma Palavra Tudo Muda
Anna Armátova: Uma palavra...

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
Em 1991 fui convidado pelo Wilson Coutinho, editor do Caderno Idéias do Jornal do Brasil, a escrever uma matéria sobre a sobre da poeta russa Anna Armátova, que no Brasil insistem de chamar de Anna Akhmátova (obedecendo a grafia inglesa). Tinha sido lançado o livro “Anna Akhmátova, poesia 1912-1964” pela L&PM Editores, ele desejava uma apresentação.
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Caderno Idéias de 31 de agosto de 1991

Primeira edição do livro de poemas de Anna Armátova
Na ocasião tive a oportunidade de relembrar muitos os poemas que estudei na escola (estudei em duas escolas de Moscou entre os anos de 1970-1978) e no Instituto Estatal de Cinema da União Soviética (1978-1983). Também, passeios pelos palácios de Leningrado, hoje cidade de São Petersburgo. Realizei um amplo texto que ilustrei com material inédito. Um dia ainda vou transcrever todo o texto da matéria. Neste momento escrevo sobre como uma palavra pode tudo mudar.
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"Acontece que o tradutor, Lauro Machado Coelho, que sem dúvida empreendeu um esforço gigantesco, confundiu a palavra “revoada” com “rebanho”. Fiz um comentário forte. O editor topou publicar. Interessante que nunca recebi nenhum contato do saudoso tradutor ou de seu editor.” |

Primeira edição do livro de poemas de Anna Armátova
Recentemente, por acaso, tomei nas mãos a edição de 2022 do livro “Anna Akhmátova, antologia poética” da L&PM POCKET. Com alegria pude constatar que o que era “rebanho”, finalmente, passou a ser “revoada”. Assim sendo, consegui que uma palavra da trágica e vitoriosa poeta russa que marcou a literatura do século XX, pudesse ser entendida pelo leitor brasileiro.

Capa da nova edição do livro de poemas de Anna Armátova
Segue, abaixo, o meu comentário que saiu no do Caderno Idéias do Jornal do Brasil, em 1991: Um Rebanhos de Equívocos
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"Para quem conhece Armátova no original, a leitura das traduções de Lauro Machado Coelho reserva algumas surpresas. A mais gritante de todas é a de intitular o livro Belaia staia de Rebanho Branco. No seu terceiro livro Armátova afirma "stirrov moir belaia staia”, o que significa "meus poemas, uma revoada branca"” |

Nova edição do livro de poemas de Anna Armátova com a correção
A professora de russo Maria Aparecida Soares sugere a imagem de "bando de pássaros brancos". Portanto, Belaia staia não pode ser um rebanho branco, mas um bando de pássaros brancos ou revoada branca.
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"Em sua tradução. Lauro Machado Coelho literalmente desce do céu para a terra. Há momentos em que o tradutor confunde amor com tristeza, matagal com arbustos, flores em árvores com violetas, lenço de bolso com vestido, afirmação com dúvidas, um milhar com uma centena, camisa com um saco, Puchkin com Oneguin etc."” |

Caderno Idéias do Jornal do Brasil onde publiquei o texto "Rebanho de Equivocos"
Em vários poemas o tradutor acrescenta uma pontuação própria, mudando o conteúdo e o ritmo do poema em russo. Chama a atenção o fato de que em alguns poemas ele não apresente o título original, não explica por que retira certos subtítulos, dedicatórias e muda a ordem dos livros estabelecida por Armátova. Mas existe brilho de fidelidade que consegue fazer transparecer a poesia russa. Entre os melhores exemplos está a tradução de Terra natal. Lamentavelmente a edição não é bilíngue.

Caderno Idéias do Jornal do Brasil de 31 de agosto de 1991
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Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura, estudou direção e roteiro no Instituto Estatal de Cinema da União Soviética



