Livro Hipertexto do Lobo de Uberlândia

V. L. Guimarães Lobo - fotografia: Gabriela Guimarães
Por Luiz Carlos Prestes Filho - Exclusivo Catetear
Escleromorfismo Oligotrópico indica a característica da vegetação do Cerrado no Brasil que têm árvores com cascas grossas, galhos e caules tortos. Isso acontece por conta do solo ser pobre em nutrientes e ácido. Trago estas informações para poder afirmar que o livro HIPERTEXTO do poeta V. L. Guimarães Lobo consegue reproduzir essa característica das terras do Brasil Central.
Capa do “Escleromorfismo Oligotrópico” - ilustração de Tiago Daquete
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"Seu livro, exatamente intitulado de “Escleromorfismo Oligotrópico”, não reproduz o jardim do Palácio de Versalhes, com gramados meticulosamente aparados, canteiros desenhados simetricamente e fontes artificiais espalhadas ordenadamente. Por outro lado, não é um jardim japonês que busca recriar a natureza artisticamente para a contemplação celestial.” |
A cada página surgem “tortas” palavras, expressões “ácidas” e imagens com “cascas grossas”. Tanto que a sua leitura nos leva a vagar entre a “nuvem de calças”, de um Vladimir Maiakovski, e o “Stalker”, de Andrei Tarkovski; entre “os caracóis de seus cabelos” de um Roberto Carlos e expressões simbólicas de Machado de Assis, Drummond, Cartola, Neruda, Borges e Tim Maia, entre muitos outros. Certos momentos o autor passa a ser um militante revolucionário esquerdista:
Ilustração de Tiago Daquete no livro “Escleromorfismo Oligotrópico”
“Quatro anos perdidos no ranço
Do fogo, mentira e quadrilha
Com quatro ordinários tão crus
Só resta extirpar este cancro
Prendendo, pois, toda matilha:
Ei, Bolsonaro – vátománocú!”
Tem página que é feita de leve brincadeira:
“Na vida
Nada é
Absolut
A não ser a vodka”
Na homenagem ao ator, compositor e poeta Grande Othelo, nascido em Uberlândia, Lobo une o menino que fugiu da cidade natal, com a mesma cidade que despreza a memória deste brasileiro macunaímico:
Nasceu Sebastião e morreu Otelo, Nego?
Com tantas tragédias a la Shakespeare, Nego?
O pai, e o filho a faca levou, Nego?
Com tanta cachaça na boca e na mão, Nego?
Como pode sorrir e com os olhos chorar, Nego?
Fugir da cidade que nunca gostou, Nego?
Na grande cidade o mundo adotou, Nego?
No palco e na lata de filme gravou, Nego?
Quem anda Oscarito até Orson Welles, Nego?
Como é que se rima Herzog e Macunaíma, Nego?
Como é que se morre sem pisar em Nantes, Nego?
Por que sua cidade não honra você, Nego?
Sem um Teatro pra lhe receber, Nego?
Por que é que se ri relembrando você, Nego?
Porque gargalhadas nos trazem você, Bastião?
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"Para cada linha do poema acima pode-se escrever verbetes. Para que o leitor desavisado consiga entender como um tal Sebastião conseguiu unir Nantes, Oscarito, Orson Welles, Herzog e Macunaíma.” |
Emocionante são as páginas dedicadas a Ismênia Mendes, advogada e vereadora assassinada durante a ditadura militar em Uberlândia:
“...A heroína não teve filhos;
De seu útero nasceu o meu grito.”
O livro conta com o prefácio do poeta Joaquim Pedro Ferreira Neto e posfácio do ator, poeta e dramaturgo Samuel Giacomelli. As ilustrações são de autoria de Tiago Dequete e o projeto gráfico de Thiago Carvalho reflete a proposta do autor. A editora SUBSOLO está de parabéns.
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LANÇAMENTO DO LIVRO “Escleromorfismo Oligotrópico”
Autor: V. L. Guimarães - Editora SUBSOLO
Dia 14 de agosto, 19 horas
Centro Municipal de Cultura
(Antigo Fórum)
Luiz Carlos Prestes Filho é diretor e roteirista de filmes documentários para televisão e cinema, escritor e poeta.