A sociedade Brasileira é Extremamente Violenta e Elitista
Luiz Carlos Prestes líder antifascista do Brasil no Tribunal de Segurança Nacional, Rio de Janeiro, 1937

Marly Vianna é historiadora
Exclusivo Catetear Notícias
O jornal Catetear Notícias está realizou uma série de entrevistas sobre o tema: FASCISMO. Os entrevistados foram Miguel Manso, engenhiro e membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB); Ivan Alves Filho, historiador e membro do partido Cidadania; Marly Vianna, historiadora; e Paulo Bracarense, secretário de relações internacionais do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Nas entrevistas fica claro que o fascismo expressa as contradições do imperialismo monopolista, as disputas interimperialistas e a necessidade de reorganização violenta da hegemonia do capital em períodos de crise sistêmica.
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Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?
Marly Vianna: Creio que não. Vejo a extrema direita como um grande garda-chuva que abarca o nazi-fasciso e outros regimes e governos de extrema direita. Nossa sociedade é extremamente violenta e elitista, desigual e racista e na minha opinião essa é uma herança devida aos quatro séculos de escravidão, quatro séculos considerando uma parte da população como coisa, semoventes, junto ao gado, nos inventários. Quatrocentos anos que moldaram a mentalidade social. Nossa sociedade é ainda bastante a da casa grande e senzala.

Prestes Filho: O Brasil foi o país com o maior partido fascista fora da Europa: a Ação Integralista Brasileira contava com centenas de milhares de membros nos anos 1930. Como você analisa este fato?
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"Os partidos fascistas, compostos principalmente de descendentes de alemães que imigraram para o Sul do Brasil tiveram pouca influência na política brasileira, até porque não quiseram se misturar com a direita do país. Não aceitaram, por exemplo, participar da AIB.” |

Desfile da Ação Integralista Brasileira no Rio de Janeiro. Em primeiro plano seu líder, Plínio Salgado
Marly Vianna: Houve, em especial na década de 1920, vários pequenos partidos de extrema direita, que em 1932 se juntaram à Ação Integralista Brasileira (AIB). Mas os partidos fascistas, compostos principalmente de descendentes de alemães que imigraram para o Sul do Brasil tiveram pouca influência na política brasileira, até porque não quiseram se misturar com a direita do país. Não aceitaram, por exemplo, participar da AIB. Alguns viviam a esperança da criação de um governo alemão no sul do Brasil e nessa perspectiva mantinham contatos com a Alemanha, mas nenhuma ação relevante aqui, a não ser alguma influência no campo da propaganda ideológica.

Sede da Aliança Nacional Libertadora no Rio de Janeiro
Prestes Filho: O Levante Revolucionário Antifascista de 1935, que a historiografia oficial insiste em chamar de Intentona Comunista, foi a primeira ação armada contra o fascismo no mundo. Antes mesmo da Guerra Civil Espanhola. Em perspectiva histórica este levante teria a importância simbólica no combate ao fascismo no mundo como o envio do Corpo Expedicionário que o Brasil enviou para combater o fascismo na Europa?
Marly Vianna: O levante armado de novembro de 1935, no Rio de Janeiro, levado adiante pela seção militar do Partido Comunista do Brasil - PCB (a direção do partido mostrou-se contra e praticamente não mobilizou ninguém), sob as ordens de Luiz Carlos Prestes, juntamente com militares da Aliança Nacional Libertadora, tinha por objetivo derrubar o governo e instalar um Governo Nacional Popular Revolucionário com Prestes à frente, por pão, terra e liberdade. Dentro dessas suas propostas estava implícita a luta contra o nazi-fascismo e, internamente, a Ação Integralista Brasileira (AIB). Os levantes democráticos desse período não tiveram como consigna exclusiva a luta contra o nazi-fascismo e a guerra, foram mais amplos, como em novembro de 1935 no Brasil, mas todos elas incluíam tal palavra de ordem com destaque. Nesse sentido houve movimentos semelhantes anteriores a 1935, como o levante nas Astúrias, em outubro de 1934. Dado ao crescimento da direita depois de novembro de 1935, com expressivo aumento das fileiras da AIB e da orquestrada campanha virulentamente anticomunista, não creio que novembro de 1935 tenha sido, para a população, um marco da luta antifascista. O Brasil entrou na guerra, depois de muitas idas e vindas do governo, em agosto de 1942, muito em resposta aos torpedeamento de navios brasileiros por submarinos alemães, navios de passageiros, como o Baependi, em julho daquele ano. Por uma lado isso provocou forte mobilização popular, exigindo a entrada do Brasil na guerra contra o Eixo. E também por pressão dos aliados e da barganha de Vargas com os Estados Unidos.

Tribunal de Segurança Nacional. Luiz Carlos Prestes no centro da fotografia, 1937.
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"Os levantes democráticos desse período não tiveram como consigna exclusiva a luta contra o nazi-fascismo e a guerra, foram mais amplos, como em novembro de 1935 no Brasil, mas todos elas incluíam tal palavra de ordem com destaque. Nesse sentido houve movimentos semelhantes anteriores a 1935, como o levante nas Astúrias, em outubro de 1934. Dado ao crescimento da direita depois de novembro de 1935, com expressivo aumento das fileiras da AIB e da orquestrada campanha virulentamente anticomunista, não creio que novembro de 1935 tenha sido, para a população, um marco da luta antifascista.” |
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Marly Vianna é historiadora, foi membro do conitê central do Partido Comunista Brasileiro (PCB)



