Economia da Cultura na cidade do Rio de Janeiro

Economia da Cultura na cidade do Rio de Janeiro

Economia da Cultura na cidade do Rio de Janeiro

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Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

O Rio de Janeiro é uma cidade de contrastes profundos, onde a infraestrutura reflete a divisão socioespacial. Enquanto o capital circula com fluidez no Centro-Zona Sul, a periferia estrutura suas formas de consumo e produção diante de uma oferta pública e privada mais escassa.

"As políticas culturais, tanto públicas (investimento direto do orçamento, emendas parlamentares, editais ou via leis de incentivo) quanto empresariais (investimento direto e de marketing), mantêm um foco desproporcional nas Áreas de Planejamento 1 (Centro) e 2 (Zona Sul). É nestas regiões que se encontram os teatros de maior prestígio e recursos técnicos, como: Theatro Municipal (ícone da Belle Époque e do investimento estatal) e o Teatro João Caetano. Espaços privados como o Teatro Oi Casa Grande e o Teatro Clara Nunes entre outros, que recebem o grosso das produções comerciais de grande porte.”

Embora a Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, e a Biblioteca Parque Estadual, no Centro, representem marcos de infraestrutura moderna, elas ainda orbitam regiões de maior poder aquisitivo ou fácil acesso para as elites, servindo como polos de um Rio de Janeiro que "se vê" como global. Nas zonas Norte e Oeste, a presença do poder público municipal e estadual é sentida através de equipamentos de menor escala, como as Arenas Cariocas, as Lonas Culturais, bibliotecas comunitárias e pequenos centros culturais. Embora essenciais, esses espaços carecem do orçamento e do status conferidos aos "palácios" da cultura do Centro. Importante citar as Naves do Conhecimento (centros comunitários de alta tecnologia localizados em regiões vulneráveis do Rio de Janeiro, geridas pela Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia). Nesse cenário, a Economia da Cultura na periferia opera sob uma lógica de consumo privado e domiciliar. A TV aberta e rádio continuam sendo pilares, somados ao crescimento massivo do consumo de música e vídeo por plataformas digitais; Bancas de jornal, papelarias e, fundamentalmente, restaurantes e bares com música ao vivo, que funcionam como os verdadeiros centros culturais do bairro.

" As quadras das Escolas de Samba são as maiores potências econômicas e sociais das comunidades, atuando como hubs de formação, lazer e geração de renda que extrapolam o período do Carnaval.”

O IBGE tem indicadores sobre essas infraestruturas e desigualdades no Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC) e na pesquisa MUNICIPAL. O cenário do Rio de Janeiro apresenta as seguintes características. A cidade possui a maior proporção de unidades locais do setor cultural do país (8%), mas a maioria está sediada no Centro da Centro e na Zona Sul. A média estadual de deslocamento para teatros ou museus é de 16 minutos, mas esse dado mascara a realidade das favelas e subúrbios, onde o tempo de transporte público para o Centro pode superar 90 minutos. O uso do celular é quase universal para o consumo de conteúdo (98,9% dos usuários de internet), reforçando a cultura digital na ausência de teatros físicos próximos. O setor cultural formal exige alta escolaridade (32% com nível superior), o que muitas vezes cria uma barreira de entrada para trabalhadores da periferia em cargos de gestão nessas políticas empresariais e públicas. Essas disparidades na distribuição de recursos não apenas limita o acesso à fruição artística, mas também restringe o potencial de crescimento da Economia da Cultura local, que hoje encontra nas quadras das escolas de samba e nos comércios de bairro sua principal rede de sustentação. 

"A disparidade na Economia da Cultura do Rio de Janeiro, com sua profunda concentração de infraestrutura de alta qualidade no Centro-Zona Sul e o acesso limitado da periferia, que acaba dependente de canais privados e digitais, reflete uma dinâmica maior de dependência econômica e imperialismo cultural. Em sua obra clássica “O Imperialismo como fase superior do capitalismo”, Vladimir Lenin escreveu: "O capitalismo chegou a um ponto em que a exportação de capitais passou a ocupar o primeiro plano, e a partilha do mundo entre os trustes internacionais começou. [...] O capital financeiro estende as suas redes, no sentido literal da palavra, a todos os países do mundo."”

Essa opressão se manifesta não apenas na esfera econômica, mas também na cultural. Como apontado na análise acima, enquanto os Estados Unidos controlam cerca de 70% dos recursos mundiais disponíveis para todos tipos de investimentos, o que lhes permite saturar o mercado global com seu conteúdo e "escravizar" a população através do consumo cultural, o Rio de Janeiro opera com uma fração ínfima desses recursos. A cultura privada e pública da cidade, que inclui seus grandes teatros, museus e os equipamentos de proximidade na periferia, está inserida dentro dos escassos 6% de recursos econômicos disponíveis para investimento em nível nacional e regional. Essa assimetria de recursos perpetua a centralização e a desigualdade, limitando a capacidade local de produzir e distribuir cultura de forma soberana e equitativa. 

"As "redes" mencionadas por Lenin manifesta-se hoje na Economia da Cultura carioca. A divisão existente entre o Theatro Municipal (o brilho da elite) e a Lona Cultural (a resistência periférica) não é um erro de gestão, mas uma característica da fase superior do capitalismo. O sistema organiza o espaço urbano para que o "corredor cultural" sirva aos interesses do capital financeiro, enquanto a massa da população na periferia é mantida como consumidora passiva de produtos culturais importados, consolidando o que Lenin descreveu como a dominação completa de "um punhado de Estados usurpadores" sobre o restante do mundo."”

A Economia da Cultura local — especialmente nas quadras das escolas de samba — surge como o principal ponto de ruptura e resistência contra essa lógica de escravização pelo conteúdo hegemônico.

Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura