CULTURA DO BRA$IL e a Economia
Cultura e Economia

CULTURA DO BRA$IL e a Economia
Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
![]()
Embora as obras de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e muitos outros, como Margareth Menezes, sejam símbolos da identidade brasileira, os direitos de exploração comercial dessas gravações (os chamados "masters") pertencem, em grande parte, a conglomerados internacionais, como Universal Music Group (França/EUA), Sony Music (Japão/EUA) e Warner Music (EUA).
| “ |
"Essas empresas detém o capital necessário para financiar estúdios, pagar direitos autorais antecipados e, principalmente, a logística de distribuição global. O capital dessas empresas está alocado nos mercados centrais, onde está 70% de recursos financeiros internacionais disponiveis para investimentos. Funcionam como "bancos de ativos intelectuais". O lucro gerado pelo consumo da música brasileira no streaming, por exemplo, flui para essas sedes fora do Brasil antes de retornar (em uma fração menor) para o país de origem.” |

A concentração de 70% do capital disponível para investimentos estar nos EUA faz com que o mercado americano atue como o validador universal. Se uma obra brasileira quer acessar o mercado global, ela muitas vezes precisa ser moldada (em termos de produção, idioma ou duração) para agradar aos algoritmos e curadores que respondem a esse capital centralizado. Os Fundos de Investimento americanos compram catálogos inteiros de artistas (como aconteceu recentemente com Bob Dylan, Bruce Springsteen e até brasileiros) porque enxergam a música como um "ativo financeiro estável". Isso transforma a arte em uma commodity financeira, onde o valor cultural é secundário ao retorno de dividendos.
| “ |
"Atualmente, uma obra musical não está apenas em empresas americanas por causa dos contratos antigos, mas também nas plataformas de distribuição. O acesso à obra de Caetano, Gil, Chico Buarque e outros, como Margareth Meneses, hoje passa por servidores do Google (YouTube), Apple ou Spotify. Quando 70% do capital mundial disponível para investimentos está em um único lugar (EUA), esse lugar detém a infraestrutura. O Brasil produz a cultura, mas os EUA e a Europa detêm as "estradas digitais" e os "pedágios" por onde essa cultura viaja. Isso retira do país produtor a capacidade de investir esse lucro em sua própria base social e em novos talentos locais.” |

Essa situação impede mudanças sociais porque o excedente econômico da cultura brasileira não fica no Brasil para retroalimentar escolas de música, museus ou políticas públicas de base. O talento brasileiro acaba ajudando a valorizar fundos de pensão em Nova York ou Londres, enquanto os países emergentes (entre eles Brasil) lutam com os parcos 6% de capital para tentar manter sua infraestrutura cultural viva. Em suma, a obra é brasileira, mas a gestão financeira da memória é internacional, seguindo o fluxo natural de onde o dinheiro está concentrado. Vem desta situação o interesse de ganhar o Grammy Latino...
| “ |
"A análise acima confirma a tese de Vladimir Lenin apresentada no livro "O Estado e a Revolução". Para ele, a forma de governo — seja ela uma monarquia, uma ditadura militar ou uma democracia liberal — seria apenas a "casca" de uma realidade mais profunda: a natureza de classe do Estado. ” |
O aparato estatal (leis, polícia, forças armadas e burocracia) funcionaria primordialmente para garantir a manutenção da propriedade privada e as condições de acumulação de capital. Capital que termina determinando o destino da cultura de todo um povo.
![]()

Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura e coordenador do estudo pioneiro Cadeia Produtiva da Economia do Carnacal (2006-2010)



