O Brilho de Quibdó e a Força da Festa de San Pacho
Festa de San Pacho: Brilho de Quibdó

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
Fotografias: Luiz Carlos Prestes Filho
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Na manhã da última quarta-feira, 21 de outubro de 2026, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sediou o Painel 4: "Constitucionalismo(s) y pluralidad en los tejidos coloridos de Abya Yala: tejer nuevos mundos". Integrante da programação do V Encontro da Rede de Mulheres Constitucionalistas da América Latina. Sob mediação da professora Eleonora Mesquita Ceia (UFRJ), a jurista e pesquisadora colombiana Lizneider Hinestroza Cuesta, da Universidad Tecnológica del Chocó, defendeu a urgência de uma sinceridade institucional para superar o racismo estrutural na justiça latino-americana.

Lizneider Hineztroza Cuesta, jurista e pesquisadora colombiana
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"Ao lado de juristas do Equador, Brasil e Bolívia, Hinestroza ressaltou que a construção genuína dos direitos humanos e bioculturais passa pelo reconhecimento de saberes ancestrais, pela preservação do patrimônio imaterial, como as tradicionais Festas de San Pacho em Quibdó, e pela liderança central das mulheres na manutenção dessas identidades territoriais.” |
A palestra contribuiu significativamente para ampliar meus conhecimentos sobre a Festa de San Pacho e a própria complexidade territorial do Departamento de Chocó. A relevância dessas reflexões dialoga diretamente com minha experiência no território: acompanhado do historiador Alessandro Ventura e da produtora cultural Luana Leal, estive em Quibdó, ocasião em que tive a oportunidade de coordenar o Seminário Científico: "A Festa de San Pacho e o Desenvolvimento Econômico de Chocó".
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Durante um painel dedicado a discutir a titularidade e a construção dos direitos na América Latina e no Caribe, a professora Lizneider Hinestroza trouxe para o centro do debate a realidade dos povos afrodescendentes e a necessidade urgente de uma sinceridade institucional na justiça e na academia. Partindo da experiência do departamento de Chocó, na Colômbia, região que descreveu como "o melhor lugar do mundo" por banhar-se tanto no Oceano Atlântico quanto no Pacífico, a acadêmica detalhou como as manifestações culturais profundas transcendem o folclore, revelando uma verdadeira cosmologia de resistência.

V Encontro da Rede de Mulheres Constitucionalistas da América Latina
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"Hinestroza iniciou sua reflexão apontando as assimetrias históricas na elaboração dos textos constitucionais latino-americanos. Segundo a professora, populações afrodescendentes e de povos originários frequentemente chegam "tarde" aos marcos de direitos não por vontade própria, mas devido a estruturas de racismo institucional e sistêmico que invisibilizam suas vozes.” |
Citando o exemplo colombiano, país formalmente declarado multiétnico e multicultural, a palestrante pontuou que o reconhecimento legal da existência da população negra e afrodescendente costuma ser relegado a artigos secundários e transitórios. Para ela, o sistema judicial ainda opera sob uma hierarquia rígida que concentra nos juízes o poder exclusivo de decidir quais direitos e quais meios probatórios são válidos. Como contraponto, destacou a histórica Sentença T-622 de 2016, sobre o Rio Atrato, que reconheceu direitos fundamentais à natureza e evidenciou a urgência de uma justiça intercultural que dialogue genuinamente com as comunidades locais.

Festa de San Pacho: Brilho de Quibdó
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"Ao aprofundar-se nas riquezas culturais de sua terra natal, Inestroza destacou a importância internacional das festividades de Quibdó, com ênfase especial na tradicional Festa de San Pacho, consagrada a São Francisco de Assis. Longe de ser apenas uma celebração festiva ou um mero espetáculo folclórico, a festa é apresentada como a expressão máxima da bioculturalidade e do sincretismo.” |
A professora explicou que a festividade sintetiza o encontro entre os imaginários ancestrais trazidos da África e a figura de um santo europeu. Essa fusão traduz-se em uma filosofia de vida pautada no amor profundo pela natureza, na solidariedade, na ajuda mútua e no cuidado coletivo. Para Hinestroza, reduzir manifestações como a de San Pacho a simples "danças e comidas" é um equívoco que trivializa uma complexa trama de ver e habitar o mundo. Durante o diálogo com o público, a centralidade das mulheres na manutenção e no sucesso dessas expressões culturais foi colocada em relevo. Respondendo aos questionamentos sobre a salvaguarda dos direitos da festa de San Pacho, a dinâmica cultural expôs o protagonismo feminino como a espinha dorsal da celebração.
Luiz Carlos Prestes Filho, Luana Leal e Alessandro Ventura, pesquisadores brasileiros da Festa de San Pacho
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"Nas comunidades chocoanas, as mulheres assumem papéis fundamentais de liderança comunitária, organização social e transmissão de saberes ancestrais, respondendo por grande parte da vitalidade e da perpetuação da festa. Essa liderança feminina não se restringe à logística de um evento festivo; ela atua como guardiã da memória coletiva, da identidade étnica e da resistência cultural frente às adversidades estruturais do Estado.” |
A intervenção da professora Lizneider Hinestroza consolida, portanto, uma tese basilar: a de que a emancipação dos povos e a verdadeira garantia de direitos na América Latina passam obrigatoriamente pelo reconhecimento institucional de suas culturas, pela valorização do pluralismo jurídico e pelo protagonismo intransigível das comunidades e das mulheres que mantêm viva a alma de seus territórios.
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Luiz Carlos Prestes Filho com artista-desfilante da Festa de San Pacho
Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"



