O Brasil Precisa da Inteligência dos Territórios

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Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

O Brasil tem uma urgência histórica que não pode mais ser adiada: precisamos, com rigor técnico, repensar o modelo de desenvolvimento. Não aquele desenvolvimento abstrato, desenhado em gabinetes e dissociado da vida real, mas aquele que vem do chão das nossas cidades, nas vocações regionais. Foi exatamente com essa inquietação - fruto de décadas de dedicação aos estudos da Economia da Cultura e das cadeias produtivas territoriais - que recebi com grande interesse o lançamento do livro “Desenvolvimento Local, Redes Colaborativas e os Clusters”.


A leitura desta obra me causou um impacto intelectual. Trata-se de um livro divisor de águas, cuja leitura sei, por minha própria experiência de campo, que alcançará e inspirará os mais diversos segmentos da nossa sociedade: desde o gestor público e o líder empresarial até o pesquisador universitário, o pequeno produtor do cooperativismo e o agente cultural comunitário. A razão para tamanha abrangência é simples: os autores não oferecem elucubrações teóricas vazias, mas caminhos concretos e um pragmatismo transformador para o país. O tom singular da obra revela a originalidade e a autoridade de cada um de seus formuladores. Ao mergulhar nas páginas de Renato Dias Regazzi, por exemplo, percebe-se o olhar arguto de quem enxerga a inovação na interseção dos saberes. Ele desconstrói a visão ultrapassada de setores isolados e propõe uma convergência viva entre cultura, turismo, indústria, agronegócio e tecnologia.

"Os setores econômicos não devem ser tratados isoladamente, mas analisados a partir das interseções que existem entre eles... cultura, turismo, indústria, agronegócio, tecnologia, economia criativa, Economia Verde e Economia Azul deixam de ser agendas independentes e passam a compor um único ecossistema de desenvolvimento. (Renato Regazzi)"

Regazzi nos ensina que a nossa imensa biodiversidade e diversidade cultural são vantagens extraordinárias, mas que a riqueza natural por si só não gera prosperidade sem organização e adensamento produtivo. Ele é categórico ao tratar da sobrevivência dos arranjos locais: "Um cluster resiliente é aquele que preserva suas competências centrais enquanto permanece aberto à inovação e às novas oportunidades." Já Robson de Lima Carneiro nos entrega a alma inclusiva do desenvolvimento territorial. Sua contribuição? Destaca o valor para a formulação de políticas públicas e emresariais duradouras, enfatizando a força do movimento Bottom Up (de baixo para cima) e o papel do associativismo. Ao apresentar a Plataforma Conecta, Carneiro sintetiza a essência de sua visão.

"Associar pessoas para criar soluções... A verdadeira inclusão acontece quando as pessoas deixam de ser apenas beneficiárias de políticas públicas para se tornarem participantes efetivas das cadeias produtivas. (Robson de Lima Carneiro)"

Ele ressalta ainda que a maturidade de um projeto de desenvolvimento se mede pela capacidade de garantir a sustentabilidade das ações para além das trocas de governos: "A construção de uma visão compartilhada, legitimada por empresas, universidades, trabalhadores e instituições de apoio, é o que garante a continuidade das estratégias mesmo diante das mudanças políticas." A originalidade do debate ganha novos horizontes com Igor Baldez, que escreve sobre o papel decisivo das entidades de classe e do associativismo para interiorizar a prosperidade, conectando o interior do Estado do Rio de Janeiro aos grandes centros econômicos.

""As entidades empresariais possuem a capacidade de organizar demandas, mapear oportunidades e criar conexões entre empresas locais, instituições financeiras, investidores e governos.(Igor Baldez)”

No campo das novas e promissoras fronteiras econômicas, João Leal nos brinda com uma análise cirúrgica sobre a Economia do Mar, mostrando como vocações históricas podem se sofisticar tecnologicamente.

"O desafio consiste em transformar vocações costeiras em cadeias produtivas sofisticadas, capazes de gerar empregos qualificados e maior valor agregado para os territórios marítimos... O associativismo, a cooperação e o compartilhamento de conhecimento são os instrumentos que permitem alcançar escala. (João Leal)"

Ao mesmo tempo, Marcos Nogueira traz o rigor necessário sobre governança territorial e atração de investimentos, lembrando que o capital busca maturidade e planejamento.

"Investidores não buscam apenas oportunidades de negócio, mas também planejamento, infraestrutura adequada, mão de obra qualificada e uma visão clara de futuro para a região. (Marcos Nogueira)"

Complementando essa teia institucional com extrema maestria, Evanildo Barreto joga luz sobre o papel do Sistema S, do Sebrae e dos órgãos de fomento, demonstrando como o fortalecimento dos pequenos negócios nas compras governamentais transforma a economia local.

"Não basta incentivar os empreendedores a participarem de licitações; é necessário prepará-los para compreender os processos, organizar documentação, planejar entregas e garantir capacidade de atendimento. (Evanildo Barreto)"

Percorrer as reflexões deste livro reafirma em mim uma convicção cultivada ao longo de toda a minha trajetória profissional: o Brasil precisa desesperadamente de obras como esta. Não construiremos uma nação soberana, inclusiva e economicamente pujante enquanto continuarmos a ignorar a inteligência coletiva dos nossos territórios, a força dos nossos clusters e a riqueza imaterial da nossa cultura e da nossa biodiversidade. “Desenvolvimento Local, Redes Colaborativas e os Clusters” que apresenta uma proposta de metodológia para a gestão do futuro do nosso país.

Lançamento do livro "Desenvolvimento Local e Redes Colaborativas"

Grupo Zit Editorial - Tinta Negra

31.08.2026 - 19 horas

LIVRARIA DA TRAVESSA IPANEMA

Rua Visconde de Pirajá 572

Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"