Acadêmico Elomar
Acadêmico Elomar Figueira Mello (desenho de Luiz Carlos Prestes Filho)

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
![]()
A concessão do título de Doutor Honoris Causa a Elomar Figueira Mello pela Academia Conquistense de Letras (ACL) encontra sustentação plena na densidade artística, linguística e antropológica de sua obra. As referências poéticas, musicais e vocabulares analisadas em composições como "O Violeiro" e em toda a sua produção literária e musical justificam a honraria.
| “ |
"Elomar não é apenas um compositor popular, mas um Mestre da Poética. Ele domina e preserva as estruturas métricas mais rigorosas do romanceiro ibérico e da literatura de cordel — como as sextilhas em decassílabos, as décimas e o martelo agalopado. A capacidade de construir versos com precisão e rímica refinada, confere à sua obra a relevância de um clássico erudito nascido no sertão.” |

O título acadêmico justifica-se pelo monumental trabalho filológico do artista. Elomar realizou um resgate arqueológico da linguagem do sertão do sudoeste baiano combinando transcrição fonética rigorosa do falar local, resgate de arcaísmos ibéricos e do português colonial e neologismos poéticos como arrumanças, sertanezou, incelenciado e desatandura. Essa fala vocabular atua como um inventário linguístico e antropológico que preserva a memória imaterial do Brasil profundo.
| “ |
"A obra elomariana realiza uma síntese estética inédita na cultura brasileira ao fundir os modos gregos antigos e a polifonia renascentista com os ritmos tradicionais da cantoria sertaneja. Ao estruturar sua produção em óperas, antífonas, galopes e autos, como o “Auto da Catingueira”, Elomar elevou a cultura popular à condição de alta literatura e música clássica contemporânea.” |

Como expresso no albúm "O Violeiro", sua poética carrega uma filosofia clara de resistência cultural, desapego material e preservação da identidade sertaneja frente à pasteurização da indústria cultural urbana. Conceder o título de Doutor Honoris Causa a Elomar é o reconhecimento formal de que suas invenções ultrapassam o entretenimento musical. Trata-se de um corpo de obra de valor linguístico, histórico e literário fundamental para a cultura brasileira.
| “ |
"Recentemente, ao ser recebido por Elomar em sua casa, fiquei profundamente impressionado com a precisão de suas palavras, com a lucidez da sua visão de mundo e com a viveza das lembranças que guarda de companheiros. Entre os quais reluz a de um amigo fraterno, o pianista Arthur Moreira Lima, com quem, ao lado de Paulo Moura e Heraldo do Monte, gravou o histórico álbum 'ConSertão'.” |
Elomar e Luiz Carlos Prestes Filho
Foi justamente através de Arthur, amigo de vida inteira, que tomei contato com a obra monumental de Elomar. Arthur era figura frequente na casa de meu pai, Luiz Carlos Prestes, tanto no Brasil quanto durante os anos de exílio em Moscou. Sobrinho-neto do secretário da Coluna Prestes, Lourenço Moreira Lima, o célebre pianista sempre honrou a cultura brasileira em todas as suas matrizes, gêneros e cores, promovendo diálogos eruditos e populares sem distinção nem preconceito.

| “ |
"Guardo o LP desse encontro magistral entre Elomar, Arthur Moreira Lima, Heraldo do Monte e Paulo Moura como uma joia da nossa música. Ouvir aquele disco foi para mim o momento mágico da descoberta de uma voz genuína, nascida diretamente das entranhas e do chão do sertão. Estar diante de Elomar em Vitória da Conquista e ouvi-lo rememorar essa amizade foi reviver a história da nossa cultura naquilo que ela tem de mais elevado.” |
Parabéns aos membros da Academia Conquistense de Letras por oferecer ao Elomar Figueira Mello o título de Doutor Honoris Causa em vida!

![]()

Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"



