Wanderson Pimenta: Terra, Trabalho e Soberania

Wanderson Pimenta: Terra, Trabalho e Soberania

Wanderson Pimenta na Feira de Maniaçu

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Entrevista Wanderson Pimenta

Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

Foi em recente viagem à Bahia que nossos caminhos se cruzaram, quando conheci Wanderson Pimenta — um homem de fala firme e olhar atento, cuja essência se confunde com a própria força do Alto Sertão. Especialista em unir a sensibilidade humana à firmeza da lei, Wanderson traz na bagagem a sabedoria simples dos seus pais: um pedreiro que até hoje quebra pedras sob o sol e uma artesã dedicada ao lar. Advogado, doutorando e pai de três filhos, ele vive na zona rural de Caetité, de onde observa com indignação as disparidades de um território tão rico, porém historicamente negligenciado. Em uma conversa franca o candidato a Deputado Federal pelo PSOL detalha suas lutas prioritárias. Seu programa de mandato estrutura-se em três eixos fundamentais: terra, trabalho e soberania. Entre suas grandes bandeiras para a região, destaca-se o sonho coletivo de criar a Universidade do Alto Sertão. Wanderson entende o Direito não como um instrumento de privilégios, mas como uma ferramenta de justiça popular. Nesta entrevista concedida a ao Catetear Notícias, ele nos conduz por uma reflexão sobre a resistência democrática e a urgência da agroecologia.

Wanderson na Feira de Caetité

"A trajetória de Wanderson Pimenta reflete a história de um povo que aprendeu a transformar a perseverança em antídoto contra o desânimo. Suas palavras - um compromisso ético com a classe trabalhadora sertaneja.”

Luiz Carlos Prestes Filho: Quais serão os projetos de lei ou lutas prioritárias do seu mandato como deputado federal caso seja eleito para representar a Bahia na Câmara dos Deputados?

Wanderson Pimenta: Nós temos um programa com três eixos: terra, trabalho e soberania. Em relação à terra e o trabalho: democratização do acesso à terra, regularização fundiária para pequenos e médios produtores, alteração do Título I, do Livro III, do Código Civil, para que a posse seja um direito assegurado. Propor ao executivo programas e políticas que levem em consideração o modo de vida do homem e da mulher do semiárido, em especial do Alto Sertão baiano. Em relação à soberania, falo de soberania territorial: terra, água, políticas de convivência com o sertão são fundamentais para a soberania do povo. Como síntese desse processo nós vamos batalhar pela criação da Universidade do Alto Sertão.

Caminhada pelo Centro de Caetité

Prestes Filho: Como a sua criação, seus pais e o ambiente familiar moldaram seus valores éticos e o seu compromisso social com a política?

Wanderson: Meus pais são pessoas simples que sempre acreditaram que o estudo poderia mudar as nossas vidas. Meu pai é um pedreiro que até hoje quebra pedra debaixo do sol sertanejo castigado pelo super “El niño”; minha mãe é uma dona de casa e artesã. Ambos se sacrificaram para que nós pudéssemos sair de casa e estudar. Esse sacrifício e essa simplicidade eu carrego comigo sempre.

Wanderson com seu pai Waldir

"Meu pai é um pedreiro que até hoje quebra pedra debaixo do sol sertanejo castigado pelo super “El niño”; minha mãe é uma dona de casa e artesã. Ambos se sacrificaram para que nós pudéssemos sair de casa e estudar. Esse sacrifício e essa simplicidade eu carrego comigo sempre.”

Prestes Filho: Como é para você equilibrar a rotina exigente da militância política e da advocacia com a atenção devida à sua família?

Wanderson: Eu tenho três filhos. Dois são bebês: Rosa Morena que tem 1,8 meses e Bem com 4 meses. Não tenho muita ideia de como consigo conciliar advocacia, doutorado, militância, família e estudos residindo na zona rural de Caetité. Certamente, contamos com o apoio de muitas mãos e braços, sobretudo de mulheres e principalmente de Mariana, minha companheira de vida. Mas eu não abro mão da convivência com os meus filhos. Sempre que possível, nós viajamos todos juntos para as atividades.

Wanderson ao piano e sua filha Rosa Morena

"Não sacrifico mais a família pela política: ou estamos todos juntos ou não haverá política; como a política, trabalho e estudo também são partes centrais da minha vida, todos esses aspectos estão juntos e misturados. Acredito que, para isso dar certo, é preciso acordar bem cedo e dormir tarde; certa dose de sacrifício também existe. Mas a fé no povo, na classe trabalhadora e na revolução não me deixam descansar.”

Prestes Filho: Que lição fundamental que você aprendeu com sua mãe e seu pai você pretende carregar para a Câmara dos Deputados em Brasília?

Wanderson: Aprendi que a perseverança e a fé são antídotos contra toda forma de desânimo.

Prestes Filho: Sendo natural de Caetité, quais são as principais demandas da população caetiteense e da região do Alto Sertão Baiano que você planeja priorizar no seu mandato?

Wanderson: O Alto Sertão baiano é um território de resistência negra, indígena e popular. Nos caminhos do sertão, pelas nossas serras, entre os séculos XVIII e XIX, transitaram indígenas em luta contra o colonizador, negros rebelados contra a escravidão e conspiradores pobres de todos os tipos. É bom lembrar que a Coluna Prestes, em 1926, que no meio do povo eram conhecidos como “revoltosos”, driblou a repressão oficial utilizando esse território como base de apoio e sustentação. Aqui tombou em combate o guerrilheiro João Leonardo da Silva Rocha em 1975. Aqui o poeta Camillo de Jesus Lima foi testemunha da passagem dos “revoltosos”, depois preso pela ditadura militar de 1964 e morto em circunstâncias misteriosas. Nessas terras morou o pastor Jaime Wright nos anos mais sombrios da ditadura militar. Então posso dizer que sou um aspirante a herdeiro dessa tradição insurgente e reivindico esse direito histórico de insubmissão permanente. A nossa candidatura está a serviço da libertação do povo do nosso território. Como caetiteense carrego comigo a simbologia de que esse município deu origem a 47 outras municipalidades. Só para se ter uma ideia, Vitória da Conquista, terceira maior cidade da Bahia, foi parte do território de Caetité. Caetité fazia divisa com o norte mineiro e a leste limitava com Ilhéus. Portanto, para mim, Caetité é o centro. Só que, esse centro, foi arrasado por séculos de uma política que privilegiou alguns poucos em detrimento das maiorias.

Wanderson em entrevista Rádio Educadora Santana

"Milhares de famílias foram obrigadas a ir embora para São Paulo em busca de oportunidades e nunca retornaram. Os trabalhadores que aqui permaneceram comeram o pão que o diabo amassou, muito embora a fé da Padroeira Senhora Santana permaneça firme. Caetité, contudo, é o território que possui um dos maiores Encontros de Comunidades Quilombolas da Bahia, só para se ter um exemplo. Tal riqueza segue representada na política institucional? Obviamente, não.”

 Prestes Filho: Como sua experiência política local em Caetité, onde você disputou a prefeitura em 2024, fundamenta suas propostas para o fortalecimento da economia e da saúde no interior da Bahia?

Wanderson: Fui candidato a prefeito de Caetité em 2020 e 2024 e a população sempre viu com simpatia as nossas ideias, muito embora tal simpatia não tenha se transformado em vitória eleitoral, pelo menos por enquanto. Caetité está abaixo da média em quase todos os indicadores sociais, como saúde, educação, custo de vida, etc. Mas o orçamento, por outro lado, é dos maiores da região. Alguns poucos, certamente, sequestram tal orçamento e a população acaba submetida a “favores” em troca de voto. Um simples procedimento cirúrgico, como uma cirurgia de catarata, pode demorar 7 meses para ser agendada, só para se ter um minúsculo exemplo. Caetité, segundo dizem, seria a terra das oportunidades. Pelo menos três imensos empreendimentos de importância nacional estão sediados aqui: a única mina de Urânio em atividade no Brasil e explorada pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), o complexo minerário de ferro que prometeu colocar a Bahia em terceiro lugar na produção desse minério em âmbito nacional e a Ferrovia da Integração Oeste-Leste. Mas esses portentosos investimentos não se traduziram em melhoria significativa na qualidade de vida da população, conforme prometido. Eu acredito que em relação à saúde nós precisamos eliminar o esquema que sequestra o orçamento, a farra das contratações sem concurso, acabar com a fila da regulação e estabelecer isonomia. Em relação à economia, nós precisamos dinamizar a agricultura familiar através de fomento aos pequenos e médios produtores, facilitar o acesso aos mercados maiores, simplificar procedimentos de obtenção de crédito e investimentos em infraestrutura que estejam desvinculados de sistemas eleitorais.

"Nós precisamos revolucionar a produção através da agroecologia, acabar com o veneno, fixar o jovem na terra, se essa for a sua vontade e 'plantar' água. Só o Estado pode fazer isso acontecer. Esse mesmo Estado omisso que obrigou milhares de famílias a emigrarem ao longo de décadas.”

Prestes Filho: Por que assistimos ao crescimento global e nacional de movimentos de extrema-direita e do fascismo nos últimos anos, e como a esquerda deve combater essa onda?

Wanderson: A esquerda precisa combater a extrema direita com ideias objetivas sobre como transformar o modo de vida das pessoas sem estimular o individualismo. Só há mudança de vida se ela se der de forma coletiva. Dentro de casa cada família tem autonomia mas o espaço público sempre será coletivo. Revolucionar o modo de vida não é encher o bolso de dinheiro: é ter acesso a saúde e educação públicas de qualidade, moradia digna, transporte, qualidade de vida que é um ambiente saudável, livre dos venenos que corroem a saúde do povo. As mulheres, as crianças e os idosos precisam ter a liberdade plena para exercerem as suas potencialidades.

Wanderson com a filha Rosa e sua mãe, Camila

Prestes Filho: Qual é a sua avaliação da resistência da população e das instituições brasileiras na salvaguarda do regime democrático frente às tentativas de golpe e ataques institucionais?

Wanderson: Vejo a população em geral, de certo modo, alheia a essas questões. É claro que, se uma pesquisa perguntar se as pessoas preferem a democracia ou a ditadura, elas vão preferir a democracia, na maioria das vezes. Mas a democracia burguesa, em que vivemos, é uma democracia de fachada. E isso, ainda que de forma confusa, deixa a população ressabiada. É por isso que as soluções simplistas propostas pela extrema direita acabam tendo alguma adesão nas classes populares, embora tais “soluções” não solucionem absolutamente nada.

"Nós precisamos fazer a nossa parte e denunciar que a direita golpista significa, na prática, o fim da previdência, dos direitos trabalhistas, dos direitos do povo negro, dos indígenas, das mulheres, só para ficar em alguns aspectos; basta lembrar como se comportava o terrorista que ocupou a presidência da República entre 2019 e 2022.”

Prestes Filho: Qual é o seu posicionamento em relação ao candidato do partido para a Presidência da República nestas eleições de 2026?

Wanderson: O nosso partido, o PSOL, decidiu apoiar o Presidente Lula. É com esse nome que nós estamos trabalhando. Nós não endossamos tudo que foi feito, mas consideramos que Lula ainda representa esperança para a maioria dos trabalhadores brasileiros, e porque não dizer, da América Latina.

Neuza Rebouças e Leo Fausto, candidatos a vereador de Caetité (2024) pelo PSOL e Wanderson Pimenta

"Daqui do Alto Sertão baiano podemos afirmar que Lula ainda é visto como o único presidente que conseguiu enxergar que o pobre também é gente.”

Prestes Filho: Como sua atuação e trajetória como advogado fortalecem sua capacidade de formular leis e atuar na defesa das garantias fundamentais da população?

Wanderson: Eu vivo o direito quase 24 horas por dia. Todo o meu raciocínio é em termos jurídicos. Acredito que a minha experiência no ramo pode contribuir com os debates nas comissões temáticas, lugar em que parte das legislações estruturais são debatidas. Mas a minha compreensão do direito segue um rumo distinto do hegemônico. Para mim o direito é um bem humano incondicional e complexo, que pode ser usado tanto pelo pobre quanto pelo rico. A história do direito é a história do rico submetendo o pobre aos seus caprichos. Afinal, os deputados e senadores que fazem as leis são os filhos dos ricos, os juízes que aplicam as leis são os filhos dos ricos e os que fiscalizam a aplicação da lei são os filhos dos ricos, que é o Ministério Público. É por isso que no Brasil as escolas de direito foram criadas para que os filhos dos ricos pudessem aprender e ocupar os postos chave do Estado. Mas o direito também pode ser insurgente, desde que manejado pelo pobre.

Caetité coração do Sertão da Bahia

"É o uso do direito pelo pobre que é o meu objeto de trabalho e será o centro da minha atuação no parlamento. É por isso que sou entusiasta das seguintes máximas jurídicas que norteiam a minha atuação em vida: 'Fiat iustitia et pereat mundus', ou seja, faça-se justiça ainda que o mundo acabe; e 'Honeste vivere, neminem laedere, suum cuique tribuere' que significa viver honestamente, não lesar a outrem e dar a cada um o que é seu".

Wanderson com a esposa Mariana e os filhos Rosa e Bem

Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"