A Vitória do Exército de Janones: Aposta na Real Demanda Popular
A vitória do exército de Janones: aposta na real demanda popular

Por Manoel J de Souza Neto
Exclusivo Catetear Notícias
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O erro eleitoral que quase tirou Lula da Presidência já no primeiro turno demanda reflexão diante dos fatos, de forma isenta e ética. Sem sinceridade e diálogo aberto na esquerda, não resta humanidade para salvar. E, se tudo acaba em mero cancelamento, isso significa uma rasgadura no tecido social, em detrimento da Ágora (a praça pública), ou seja, contra a democracia. Enfim a autocrítica: Segue uma reflexão eleitoral vinda do materialismo histórico e dialético para com os atos recentes do partido de massas PT, que iniciou na esquerda e migrou ao centro liberal na economia, e aderiu ao estilo de militância americanizada marcada pelo identitarismo. A eleição de 2026 expôs uma contradição clássica da comunicação política.

Caetano, Djavan, Chico e Gil, ato Cultura com Lula, 342 artes e Mídia Ninja. Fonte Fundação Perseu Abramo
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"Confundir mobilização, engajamento e eventos artísticos com convencimento feito na base de imposição de agendas estranhas às massas, é um erro elementar de campanhas eleitorais. A presença de artistas consagrados, manifestações culturais, bloquinhos de carnaval e redes de militância produziu imagens, entusiasmo e repercussão, mas não necessariamente votos. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A campanha que pretendia transformar a cultura em vitrine de adesão terminou diante de uma disputa muito mais apertada do que esperava, o que gerou pânico e depressão dos apoiadores do presidente. Uma virada exigiria uma mudança completa no tom da campanha.” |
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Na teoria das relações públicas modernas, a visibilidade obtida em likes e seguidores nas redes não equivale à reputação, assim como engajamento não significa adesão ao voto do eleitor diante das urnas no dia das eleições. Uma campanha pode dominar as redes e perder a conversa na fila do posto de saúde ou do pão. O uso de classe de artistas para campanha ajuda a organizar valores e identidades, mas não têm procuração para transferir seus públicos como eleitores. A militância confundiu prestígio cultural com capital eleitoral, como se aplausos pudessem quitar a conta de água, reduzir o preço dos alimentos ou melhorar a segurança pública. O eleitor não paga contas com autógrafos, não frequenta necessariamente espetáculos (pesquisas mostram que o brasileiro não lê e não freqüenta atividades culturais, no máximo festas) e não é beneficiado diretamente pela Lei Rouanet. A pergunta que o eleitor faz é mais simples – "Onde estão os serviços públicos básicos que demando?"

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"A questão remete a Gramsci e à disputa pela hegemonia, na qual intelectuais e artistas desempenham papel importante na formação do senso comum. A influência cultural não é automática e não substitui a experiência material, subjetiva e relacional, pois agentes sociais têm seus próprios cálculos mentais do que vale a pena aderir ou não quando se trata de pequenos e grandes grupos, causas e processos eleitorais (Mancur Olson).” |
Entretanto, reconhecer a influência dos intelectuais não significa supor que o público seja uma plateia obediente. O contrário ocorre quando as referências não são intelectuais que carregam a representação da razão, mas, cada vez mais, influencers adotados como lideranças de alguma força efêmera, que mal consegue argumentar, restando discursos de ódio mútuo entre identitários e fanáticos de ambos os lados, culpados pelo clima de polarização social. O problema não é a cultura, mas sua conversão em vitrine eleitoral sem demonstrar como seus resultados chegam à vida da maioria, que por sua vez, tem, como aprendemos, suas próprias agendas econômicas, sociais, políticas e morais.

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"O erro da campanha ao se basear na cultura e na defesa de temas que trazem uma agenda negativa ao governo não passou despercebido após o primeiro turno. O resultado pode ser considerado catastrófico e impensável, pois o uso excessivo das redes sociais para promover a agenda política do Ministério da Cultura, em vez de abordar temas voltados aos serviços básicos, gerou repulsa, resultando na virada relâmpago do candidato da extrema-direita, que obteve nove pontos, ou seja, mais de 20% de crescimento acima do previsto nas pesquisas eleitorais na reta final do primeiro turno. Ainda que Lula tenha invertido no segundo turno, vencendo de virada, com crescimento de 11 milhões de votos, as diferenças de campanha de primeiro e segundo turno ajudam a explicar a quase derrota e a vitória.” |
A crítica de J. Schumpeter à concepção idealizada do eleitor oferece outra chave de interpretação. Na democracia competitiva, cidadãos decidem sob limitações de informação, atenção e interesse, recorrendo frequentemente a atalhos cognitivos e avaliações práticas. Isso não os torna incapazes, mas tampouco os transforma em analistas permanentes de políticas públicas. O eleitor não compra a pauta imposta pela propaganda, pois tem suas próprias demandas. O eleitor sabe o que quer, mas não sabe, porém sente. E diante de seus impulsos e sentimentos, as massas reagem de forma irracional, o que Schumpeter compara com estouro de boiada. Para quem enfrenta serviços precários, a discussões sobre financiamento cultural pode parecer distante, sobretudo quando apresentada como prioridade eleitoral. O problema não é a cultura, mas a incapacidade de explicar sua relação concreta com a vida cotidiana. Ainda que a temática da cultura nos seja cara, a realidade dura é que a agenda política setorial, aos olhos da população, gera repulsa, e artistas não trazem votos. Sem essa ponte entre povo e suas demandas, a mensagem de artistas e cultura fala apenas para a bolha. É nesse ponto que a crítica de um cientista político que tratou do MinC (este autor) revela que a narrativa da demonização versus santificação da Lei Rouanet ajuda a compreender o paradoxo. Ao transformar um mecanismo de incentivo cultural (de origem liberal econômica) em símbolo genérico de privilégio, o debate público simplifica uma política complexa e alimenta a percepção de que o Estado financia artistas enquanto negligencia necessidades básicas. Essa associação pode ser injusta em casos específicos, mas, politicamente, é poderosa e precisa ser entendida para o bem do realismo.
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"Quando a defesa da cultura se limita a celebridades, editais e verbas (com números de propaganda fantasiosos), sem demonstrar resultados sociais, a militância entrega de bandeja à oposição o argumento de que existe uma agenda corporativa e de uma elite protegida, enquanto o povo sente amargura, sem saber que a crise é mundial, marcada pela virada de Era e sujeita a gigantescas transformações e convulsões sociais. Diante de mazelas sociais, o povo culpa quem recebe privilégios, cena que se repete ao longo da história, algo perigoso para aqueles que acabaram levando à culpa por crises muitas vezes complexas. O espetáculo em Copacabana reuniu grandes estrelas, mas não demonstrou capacidade de dialogar com quem não estava convencido (CNN).” |
Ouvimos discursos dos chefes dessa campanha paralela, baseada na cultura (com fomento público irregular segundo a imprensa), que reclamam que a população não compreende a importância da arte. Que o povo é fascista e odeia cultura. Dentre outras acusações aos populares. Será? Convenientemente, esquecem-se de perguntar – quem falhou na comunicação e quem decidiu vender uma pauta que não correspondia às prioridades imediatas de parte do eleitorado? O movimento Cultura com Lula agravou essa contradição ao aproximar política cultural e mobilização eleitoral. Em setembro, reportagem do Estadão apontou que lideranças do Comitê de Cultura do Paraná e uma Ong notoriamente relacionada ao PT pertencem a uma organização que recebeu recursos federais, supostamente lideravam uma estrutura de mobilização eleitoral presencial e digital, com participação de agentes e servidores vinculados ao Ministério da Cultura. Nas ruas o Cultura com Lula, ou Circuito Cultura com Lula e o Dia D da Cultura, realizados no contexto das campanhas e atos políticos do setor cultural, pela estrutura próxima de comitê de cultura do MinC, Mídia Ninja, Fora do Eixo, 342 Artes e aliados, envolveu 112 cidades espalhadas por todos os 27 estados do Brasil, total de eventos 207 eventos ocorrendo ao mesmo tempo e mais de 530 atividades artísticas e culturais simultâneas. O que foi considerado campanha irregular pela mídia e juristas. Após o ato de Copacabana, em 17 de outubro o TSE proibiu eventos equivalentes a showmícios até o fim do segundo turno, confirmando a irregularidade e suspeitas de que atos teriam conexões com a campanha oficial, ainda que não registrados, e apresentados como atos voluntários. A reportagem citou também o secretário-executivo do MinC e a coordenadora dos Comitês de Cultura. Os organizadores afirmaram que a iniciativa era voluntária e não integrava a campanha oficial. O MinC declarou ter orientado seus agentes a cumprir a legislação. A discussão deixou de ser apenas sobre artistas apoiadores e passou aos limites entre política pública, manifestação individual de servidores e mobilização partidária, quando existem repasses de recursos públicos que deveriam ser para a cultura, e que reportagens apontam, teriam acabado dirigidos na campanha eleitoral.
Flávio: cassação da chapa de Lula após reportagem do site Claudio Dantas
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"Reportagens do colunista de direita Cláudio Dantas (fundador do Antagonista, que integrou redações de Correio Braziliense, Folha de S.Paulo e revista IstoÉ) descreveram grupos de WhatsApp associados ao ambiente do MinC usados para divulgar materiais de um grupo de articulação nacional chamado “Cultura com Lula”. Depois da publicação, um dos grupos foi fechado, renomeado como “Migrem de Grupo” e passou a conter uma regra explícita proibindo propaganda político-partidária, o que, segundo fontes, veio como ordem do próprio MinC. Esse detalhe não pode ser ignorado, ainda que não prove isoladamente alguma ilegalidade, mas porque demonstra que a denúncia provocou uma mudança concreta na operação dos canais, que tinham como administradores membros dos cargos comissionados do MinC, e de gestores e membros de comitês e pontos de cultura vinculados e fomentados pelo ministério.” |
Em 2 de outubro, às vésperas do primeiro turno, Cláudio Dantas publicou reportagem baseada no dossiê de 3.552 páginas elaborado pelo jornalista Rodrigo Juste Duarte e protocolado no TCU, na CGU e no Ministério Público Federal. O material reuniu documentos e relações envolvendo contratos, organizações, estruturas digitais, dirigentes e integrantes do Cultura com Lula. Ainda que tenha me manifestado publicamente em repúdio ao material organizado pelo jornalista, que não contou com apoio do Observatório da Cultura do Brasil, por risco de uso eleitoral, o fato é que da mesma forma que outros conselheiros e gestores, tenho conhecimento da veracidade documental. Entre os pontos apresentados está o repasse de R$ 8,5 milhões do MinC ao Laboratório de Cultura Digital da Universidade Federal do Paraná, além de vínculos apontados entre o laboratório, ONGs e agentes relacionados. A reportagem afirmou ainda que o domínio utilizado por sites de diversos Comitês de Cultura estava registrado em nome da liderança da organização. Um dos termos citados, de R$ 2.531.171,47, teria sido assinado por Márcio Tavares. No mesmo dossiê revelado, suspeitas de 170 milhões repassados via TEDs do MinC para Universidades e ONGs, que de alguma forma se relacionam com Mídia Ninja e braços associados do FDE, e outros, que notoriamente participaram ativamente da campanha eleitoral. Tudo acima, segundo a reportagem de Dantas e dados do Estadão, com provas anexas no dossiê do jornalista Rodrigo Juste Duarte. A consequência foi uma inversão completa da pauta. A campanha queria falar de artistas, alegria, festividades e valorização cultural. A imprensa passou a falar de contratos, organizações, servidores, grupos de WhatsApp, recursos públicos, vínculos partidários e Justiça Eleitoral. Em vez de a cultura funcionar como vitrine do governo, o setor passou a servir de porta de entrada para perguntas sobre transparência e eventual uso político da máquina pública. As informações exigem contraditório e apuração. Não equivalem a culpa comprovada. O mesmo cuidado vale para a ação apresentada por Flávio Bolsonaro no TSE, em 28 de setembro, pedindo a cassação da chapa Lula-Alckmin por alegado abuso de poder econômico e uso de estruturas públicas, citando reportagens sobre grupos do Ministério da Cultura e atividades do movimento. A ação utiliza elementos publicados pelo Portal Cláudio Dantas e do dossiê do jornalista Rodrigo Juste Duarte e acrescenta alegações da própria defesa. O processo não pode ser tratado como condenação. Mas o impacto comunicacional já existia, já que há muitos anos as redes sociais e opinião dos populares é manifestadamente de repulsa aos recursos de cultura que não chegam nem nos artistas em geral, nem regiões, ou como se diz no setor, “não chega lá na ponta”. Há, portanto, uma ironia eleitoral difícil de ignorar. Quanto mais a campanha transformou a cultura em centro de sua comunicação (no primeiro turno), maior se tornou a exposição dos problemas existentes dentro desse próprio setor. A cultura não produziu apenas palcos para Lula, também produziu uma agenda investigativa e repulsa a campanha. E essa agenda apareceu exatamente quando o eleitor estava menos interessado em celebridades e mais interessado em saber o que o governo entregou e como utilizou o dinheiro público, diante de uma crise nos serviços públicos, reclamações com relação aos impostos, e endividamento recorde das famílias.

Pedido de cassação de chapa Lula-Alckmin
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"A questão em debate não pretende chegar a alguma afirmativa de que artistas não tenham importância eleitoral ou que política cultural seja irrelevante. O problema está na desproporção entre a centralidade concedida ao setor na campanha e sua capacidade de responder às preocupações concretas do eleitorado. A própria imprensa havia identificado que o plano de governo de Lula era o mais detalhado entre os principais candidatos para a área cultural, mas também registrou que a desconcentração dos investimentos culturais, prometida pelo governo, ainda não havia sido de fato concretizada (Folha de S.Paulo)." |
Assim, a cultura acabou produzindo dois problemas simultâneos para a campanha. De um lado, não demonstrou capacidade evidente de conquistar o eleitor que já não estava alinhado ao lulismo. De outro, transformou-se em fonte de desgaste jornalístico justamente por causa da proximidade entre estruturas culturais, organizações conveniadas e mobilização eleitoral que passou a ser investigada. O dossiê de Rodrigo Juste Duarte, ao ser publicado por Cláudio Dantas, entrou nesse ambiente perigoso, como uma peça de grande impacto porque reuniu milhares de páginas e documentos em uma narrativa única, tornando inteligíveis relações que antes apareciam fragmentadas em denúncias, requerimentos e reportagens. O mérito jornalístico da publicação, nesse sentido, está em transformar um conjunto disperso de informações em uma pauta investigativa capaz de ser confrontada, contestada e eventualmente comprovada ou descartada pelos órgãos de controle, portanto, tirando do campo dos boatos e fakenews jornalísticos, para algo palpável e que merece investigações. No fim, a questão eleitoral que foi exposta, não pode ser limitada a pergunta, se a cultura deve ou não receber recursos públicos. Deve receber fomento, pois o agente meio (arte) tem função de levar a cultura ao agente final da política pública, que é o povo. A questão é outra – por que uma campanha presidencial decidiu fazer da cultura uma de suas principais bandeiras quando esse setor não parecia capaz de ampliar significativamente sua base eleitoral e, ao mesmo tempo, carregava controvérsias suficientes para produzir uma agenda negativa de última hora? A resposta está no próprio resultado da estratégia. O “Cultura com Lula” pretendia mostrar uma campanha cercada de artistas. Dos blocos, festas, campanha digital, até o espetáculo em Copacabana com grandes nomes da MPB. A cobertura jornalística terminou mostrando algo diferente, com uma campanha obrigada a explicar contratos, organizações, estruturas digitais e relações entre governo e mobilização eleitoral. Quando uma pauta concebida para gerar entusiasmo passa a exigir sucessivos esclarecimentos, ela deixa de ser apenas instrumento de campanha e passa a ser um problema de agenda negativa de campanha. Foi essa transformação que tornou a política cultural particularmente custosa para o discurso eleitoral de Lula na semana decisiva do primeiro turno.

TSE - 31.2026.0.00.0000 02 de outubro 2026 brasília DF Representação 11541 - Relator: Nunes Marques
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"Após o resultado do primeiro turno, a crítica interna também apareceu. Washington Quaquá, vice-presidente nacional do PT, questionou a capacidade de atos com artistas tradicionais da esquerda conquistarem novos votos. José Dirceu pediu diversas vezes que parassem de tratar do 08 de janeiro e da democracia como mote de campanha. A expressão “pregar para convertidos” sintetizou o problema. O vice presidente em reunião em Curitiba, uma semana antes do primeiro turno, citou o caso a presentes, inclusive citando nomes de funcionário regional do MinC e gestores de Comitê de Cultura, colocando o caso como um problema para a campanha. Como disse a nossa fonte, até o agente da PF que acompanhava o vice-presidente, sabia quem eram os envolvidos, e o que pesava de indícios sobre eles. A cúpula da campanha reduziu a centralidade da cultura depois dos sinais de saturação, fato revelado pela imprensa, naquilo que foi chamado de reunião da cúpula de crise da campanha, ocorrida no dia seguinte ao primeiro turno." |
A história sempre nos traz lições sobre os fatos do passado, no presente e na previsão de futuros. Marx, na obra clássica O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, faz comparações entre a política e o palco. Na análise, a forma e o funcionamento dos espetáculos são comparados aos atos políticos, com relatos das revoltas ocorridas entre 1848 e 1851 na França, que terminaram com a vitória do candidato Bonaparte (de onde vem o termo bonapartismo), Napoleão Bonaparte III, que ganhou as eleições com o apoio do lumpemproletariado e, após vencer o pleito, deu um golpe de Estado, ficando 17 anos no poder. Este comparativo entre arte e política, entre literatura e jornalismo, a partir de um fato do passado, cabe perfeitamente ao presente do Brasil. As massas são violentas, e os discursos intelectuais e as apresentações baseadas no pão e circo têm limitações e não resistem no médio e longo prazo sem ações efetivas em favor dos interesses populares. Outro episódio famoso sobre erros de comunicação política e o efeito limitado do pão e circo ocorreu também na França, quando Maria Antonieta, ao tomar conhecimento da crise popular por falta de pão, pediu ao povo que comesse brioches. Acabou na guilhotina. Juvenal, na Sátira X, cunhou o termo Panem et Circenses ao criticar as massas. Na Roma Antiga, onde festivais com gladiadores e sacrifícios públicos chegaram ao ápice com Otávio Augusto (27 a.C. a 14 d.C.), a estratégia deu certo inicialmente ao aplacar as massas. Mas ele deu pão além do circo.

Janones e Lula, discurso da vitória. Fonte reprodução Youtube
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"Ainda que Vespasiano e Tito tenham explorado a estratégia, ela foi levada ao extremo com a criação do Coliseu pelo imperador Cômodo, que, em vez de governar, entrou para a história pelos gastos gigantescos com jogos contínuos, que se tornaram espetáculos de carnificina. Historiadores apontam que seu governo foi um ponto de virada catastrófico do Império Romano. Cômodo levou a política de pão e circo a um extremo fanático e ridículo, que destruiu a dignidade da imagem do império e acelerou sua desestabilização. Cômodo confiscou bens para pagar dívidas, negligenciou completamente as contas públicas e o exército, culminando na queda violenta do imperador em 193 d.C. Na história, a estratégia de governo do "pão e circo" ficou ridicularizada e retorna como crítica aos governantes de tempos em tempos, em diferentes nações e regimes de governo." |
A campanha eleitoral baseada na cultura assemelha-se à mesma estratégia. Sem resultados econômicos nem melhora objetiva na vida do cidadão comum, adotou-se a estratégia da propaganda da alegria, da arte e da cultura. Valorizar a política cultural não encontra equivalência na narrativa da cultura como estratégia política. Porém, o uso da cultura, ou da parte do circo, sem o pão, pode não ter convencido a população. Do outro lado, o candidato da extrema-direita adota os mitos, trajes, nomes, discursos e tradições do passado, como Napoleão Bonaparte III, usando a inocência e o desespero das massas, canalizando pelo discurso de ódio. Estratégia que se valeu do erro da campanha de Lula no primeiro turno.
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"O governo Lula enfrenta uma crise global causada por questões ambientais, guerras, pós-pandemia, guerra fiscal provocada pelos EUA, avanço do fim do mundo do trabalho formal, liberalismo, economia de plataformas, big techs, avanço da robótica e inteligência artificial. Uma revolução maior do que qualquer outra ocorrida na humanidade em outros tempos. Esse enfrentamento do governo Lula aos desafios não foi realista, sendo omisso em planos de contenção real da crise. A revolta apresenta-se no voto, quando o candidato farsante da extrema-direita capitaliza a revolta popular." |
São tempos de revoltas. E presenciamos, após os últimos anos de crises, o início de ondas de protestos violentos na França, que se espalham pelo mundo em outubro de 2026. Como no Maio de 1968, essas revoltas tendem a crescer e se espalhar nos próximos anos, pois os governos não estão freando o capital, que cria condições para a eliminação da ampla maioria das profissões, substituindo-as pelas máquinas e pela IA. Os resultados em escala global são previsíveis. Quando as massas não encontram pão, mas somente o circo, a revolta é inevitável. E, em tempos de convulsão social, falsos messias e salvadores da pátria aparecem de forma oportunista. Como disse Marx em O 18 de Brumário: "Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. [...] Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". A derrota em escala nacional nas câmaras estaduais, na Câmara Federal e no Senado pelo governo do PT, e os acordos para tentar governar, caso vença a eleição majoritária, revelam a falha da estratégia do circo. A quase vitória da extrema-direita na Presidência mostra como o povo pode aderir a ideias de moral e tradição como solução em tempos de recessão, ressentimento e ódio social. Mal sabem as massas que estão diante da desgraça e da provável instalação de um regime autoritário internamente, submisso externamente aos EUA. São previsíveis as catástrofes causadas pelos grandes agentes da história (remetendo a Hegel). E, como disse o editorial da Boitempo, que usou o mito de Cassandra para a autocrítica da esquerda diante de seus erros eleitorais, sabemos que a maldição da personagem presente no mito consiste em dizer a verdade, que ninguém quer ouvir. E, independentemente do resultado das eleições, a democracia e a civilização estão perdendo espaço para regimes políticos que a história registra como erros históricos, com graves consequências para as nações em diferentes tempos e nações.
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"Os fatores entre rejeição que quase levou à derrota do presidente Lula, e sua reeleição para um histórico quarto mandato, precisam ser vistas em um contexto maior. O governo Lula enfrentou uma conjuntura global marcada por crises ambientais, guerras, efeitos da pandemia, guerras fiscais, transformação do trabalho formal, economia de plataformas, big techs, robótica e inteligência artificial. A campanha não traduziu esse cenário em respostas suficientemente concretas para quem teme perder renda, emprego ou poder de compra. Em períodos de insegurança, discursos de moral, tradição e ordem podem canalizar o ressentimento e o ódio das massas. O avanço da direita no primeiro turno mostrou que festividades e bloquinhos pregaram para a convertidos, e não neutralizariam a insatisfação das massas. As derrotas de candidaturas governistas nas disputas legislativas estaduais e federais e as dificuldades de articulação no Congresso também expuseram os limites da estratégia, já que a esquerda sofreu em escalas locais e nacional (deputados, governadores, senadores) uma derrota acachapante inversa à vitória da majoritária nacional." |
No segundo turno, após o tombo, a campanha passou a falar mais diretamente com a base social e com problemas cotidianos. Endividamento das famílias, dificuldades dos MEIs, segurança pública, serviços públicos, educação e saúde ganharam centralidade. Em vez de insistir na narrativa de festas, alegria, diversidade, leis de incentivo e Rouanet, Lula retomou uma linguagem próxima das demandas populares. O resultado oficial confirmou sua reeleição com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 votos e 48,21% de Flávio Bolsonaro. Foi uma virada histórica, pois o candidato que terminou atrás no primeiro turno venceu a segunda etapa. Não se pode atribuir o resultado a um único fator, mas a mudança de tom e de agenda foi uma das diferenças mais visíveis entre as duas fases. A vitória apertada, no entanto, virou por sorte ou destino, em uma grande vitória com a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA. Outro fator determinante também mudou a dinâmica digital, com a entrada do deputado André Janones para papel de general da campanha, criando o Exército do Lula, canal que chegou a mais de 10 milhões de seguidores no WhatsApp e coordenou a circulação de textos, áudios, vídeos e links, estimulando apoiadores a compartilhar conteúdos em outras redes e conversas pessoais. A estratégia de equivalência ao uso digital feito pelo bolsonarismo, transformou seguidores em participantes da distribuição orgânica e descentralizada na campanha petista. Isso ganhou relevância em meio às reclamações da campanha sobre restrições e falhas na entrega de postagens pela Meta. O TSE cobrou explicações e exigiu tratamento igualitário. A empresa atribuiu os episódios a problemas técnicos e negou manipulação política da distribuição. Não há base para afirmar como fato comprovado que a Meta manipulou o alcance para prejudicar Lula, ou de que a campanha sofreu influência externa de um lado pelos EUA, e de outro por UE, Rússia e China, mas por óbvio não pode-se ignorar os mecanismos e interferências eleitorais e da opinião pública nestes tempos de produção algoritimica de opinião pública. O episódio, contudo, reforçou a busca por canais próprios e circulação menos dependente dos algoritmos, e de maior proteção visando à soberania nacional diante da hegemonia empresarial das redes digitais.
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"A experiência recoloca categoricamente a lição do pão e circo. A cultura é indispensável à democracia e deve receber recursos públicos, mas ela é fundamentalmente incapaz de substituir políticas estruturais de renda, segurança, saúde, educação e serviços. O eleitor não se comporta como platéia cativa, engajamento digital não se converte automaticamente em voto e a verdadeira hegemonia política não se estabelece por discursos impositivos isolados das demandas materiais da sociedade." |
A vitória definitiva da campanha majoritária dependeu de um choque de realidade e do abandono imediato da agenda do espetáculo. O retorno pragmático ao diálogo com as massas trabalhadoras garantiu a sobrevivência eleitoral do governo, mas as urnas deixaram um aviso severo, a governabilidade segue sitiada por um Congresso majoritariamente conservador, forças opostas em maior número, e riscos externos. Diante de uma hegemonia oposta consolidada no legislativo, a única saída realista e intransigente para a esquerda é governar em total alinhamento com as necessidades de sobrevivência do povo, pois o pão nunca será substituído pelo circo. A manipulação das massas na atualidade, é mais perigoso, pois além dos algoritimos, bots e psychographics que abordei em artigos do passado, agora estamos vigiados e sendo o tempo todo guiados individualmente pela IA. Tema das massas e convulsões sociais que ocupam o mundo no momento desta escrita, que retornarei em outros artigos.
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Referências:
ALBUQUERQUE, Mariana. Após reportagem, Ministério da Cultura fecha grupo e cria regra contra propaganda eleitoral. Portal Cláudio Dantas, 18 set. 2026. Disponível em: https://claudiodantas.com.br/apos-reportagem-ministerio-da-cultura-fecha-grupo-e-cria-regra-contra-propaganda-eleitoral/. Acesso em: 3 nov. 2026.
ALIADOS criticam ato de Lula com artistas: “Pregou para convertidos”. CNN Brasil, CNN 360°, 14 out. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=j6r6NfNYjco&t=235s. Acesso em: 3 nov. 2026.
ALVES, Soraia. O que as marcas podem aprender com a mobilização digital de Janones e “Exército do Lula”. Exame, 2026. Disponível em: https://exame.com/marketing/o-que-as-marcas-podem-aprender-com-a-mobilizacao-digital-de-janones-e-exercito-do-lula/. Acesso em: 3 nov. 2026.
CANDIDATOS à Presidência são vagos na cultura, com plano de Lula maior que o de Flávio. Folha de S.Paulo, 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/candidatos-a-presidencia-sao-vagos-na-cultura-com-plano-de-lula-maior-que-o-de-flavio.shtml. Acesso em: 3 nov. 2026.
CAVALCANTE, Karoline; ALBUQUERQUE, Mariana. Flávio pede cassação da chapa de Lula após reportagem deste site. Portal Cláudio Dantas, 2026. Disponível em: https://claudiodantas.com.br/flavio-cassacao-chapa-lula-reportagem-site/. Acesso em: 3 nov. 2026.
DANTAS, Cláudio. Dossiê entregue ao MPF aponta uso de estruturas pagas pelo MinC na campanha de Lula. Portal Cláudio Dantas, 2 out. 2026. Disponível em: https://claudiodantas.com.br/dossie-estruturas-pagas-minc-campanha-lula/. Acesso em: 3 nov. 2026.
DONO de ONG bancada pelo governo mobiliza campanha paralela de Lula. Band, 2026. Disponível em: https://www.band.com.br/politica/eleicoes/dono-de-ong-bancada-pelo-governo-mobiliza-campanha-paralela-de-lula. Acesso em: 3 nov. 2026.
GOBBI, Nelson. Depois do apoio, a cobrança: classe artística pede mudanças e aprimoramento nas políticas do MinC. O Globo, Rio de Janeiro, 30 out. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/10/30/depois-do-apoio-a-cobranca-classe-artistica-pede-mudancas-e-aprimoramento-nas-politicas-do-minc.ghtml. Acesso em: 3 nov. 2026.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes, 2014.
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Observatório da Cultura do Brasil, 40 anos do MinC, 2025. https://tinyurl.com/4chxhm9z
Observatório da Cultura do Brasil, Os números contraditórios da Rouanet não mentem, Congresso em Foco, 2025.
OLSON, Mancur. A lógica da ação coletiva: bens públicos e teoria dos grupos. São Paulo: EDUSP, 1999.
SCHUMPETER, Joseph Alois. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
SOUZA NETO, Manoel J. Guerra hibrida e o Facebook. Comunicação política, propaganda, desinformação e cyber guerra por meios não convencionais. Medium, 2018.
SOUZA NETO, Manoel J. Arquivos sobre guerra hibrida, jornadas de Junho, 2013-2014. Disponível em: https://vermelho.org.br/colunista/manoel-j-de-souza/
VALFRÉ, V. Dono de ONG bancada pelo governo mobiliza campanha paralela de Lula com aval de Janja. Estadão, São Paulo, 19 set. 2026. Disponível em: https://www.estadao.com.br/politica/dono-de-ong-bancada-pelo-governo-mobiliza-campanha-paralela-de-lula-com-aval-de-janja/. . Acesso em: 3 nov. 2026.
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Manoel J de Souza Neto, é Cientista Político



