O Moçambique de Belém nos 150 anos do Congado de Uberlândia

O Moçambique de Belém nos 150 anos do Congado de Uberlândia

A Rainha e o Rei de Moçambique de Belém

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Uma experiência de convivência e pesquisa junto às tradições afrodiaspóricas do Triângulo Mineiro

Por André Fabiano Voigt

Exclusivo Catetear Notícias

O artigo do historiador André Fabiano Voigt relata sua experiência de vivência e pesquisa junto ao Terno Moçambique de Belém durante as comemorações dos 150 anos do Congado de Uberlândia. A narrativa destaca que a riqueza dessa tradição afrodiaspórica se consolida no trabalho coletivo, na devoção cotidiana e no acolhimento que antecedem e sustentam as apresentações públicas. Voigt enfatiza que a manifestação cultural do Triângulo Mineiro é marcada pela resistência negra no enfrentamento do racismo estrutural, sendo fundamental valorizar as pessoas e os trabalhadores que mantêm a festa viva. O autor defende que os saberes e a autoria dessa memória pertencem às comunidades congadeiras, cabendo à universidade e à sociedade aprender com as lições e a sabedoria das Mestras e Mestres dessa tradição.

Nos dias 11 e 12 de outubro de 2026, a celebração dos 150 anos do Congado de Uberlândia reuniu nas ruas da cidade uma história que antecede sua emancipação municipal, ocorrida em 1888.

General Ramon Rodrigues ostentando a imagem de Nossa Senhora Aparecida

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"Ao acompanhar mais de perto o Terno Moçambique de Belém, sob a liderança do General Ramon Rodrigues, tive a oportunidade de participar de atividades que me permitiram compreender algumas das relações pelas quais essa tradição permanece viva. Uma experiência de convivência que também interroga o lugar de quem pesquisa e escreve sobre ela.”

Essa aproximação se construiu nas preces, nas orações e nos leilões, assim como no acompanhamento dos deslocamentos do grupo. A apresentação diante do público está vinculada a um trabalho coletivo que a antecede e que continua depois dela. Participar de alguns desses momentos permitiu perceber como a devoção se realiza também no encontro e nas formas de acolhimento que sustentam a vida do terno. No dia 11, acompanhei desde o início da manhã a ida à Igreja do Rosário, onde se reuniram os ternos de Uberlândia, com a honrosa participação do Terno do Jerônimo, da Irmandade do Menino Jesus, grupo convidado da cidade de Passos (MG). A presença do Moçambique de Belém, com suas vestimentas verdes e brancas, fazia parte de um encontro marcado pela diversidade de grupos e pelas maneiras próprias de cada um se apresentar.

Apresentação do Moçambique de Belém no encerramento das festividades do Congado

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"O percurso até a igreja dava uma dimensão concreta à presença congadeira na cidade: os corpos e os instrumentos percorriam ruas que, durante a festa, se tornavam espaços de devoção e de reconhecimento público.”

Os registros visuais ajudam a perceber essa relação entre movimento, organização coletiva e ocupação do espaço urbano. Nas ruas, as pessoas integrantes avançam carregando e tocando suas caixas, patangomes e gungas, assim como as bandeiras e rosários; nas performances do Moçambique de Belém, a articulação entre os toques e os movimentos dos participantes é parte da própria realização da fé e da tradição ancestral. A análise musical, por sua vez, pode contribuir para compreender seus padrões rítmicos e suas nuances, desde que permaneça atenta aos conhecimentos de quem os executa e aos sentidos que assumem em cada situação. Também participei, no dia 12, da visita ao Rei e à Rainha deste Moçambique no ano de 2026. A possibilidade de acompanhar esse momento ampliou minha compreensão das relações de respeito e dos vínculos que atravessam a festa. Em seu encadeamento com os demais acontecimentos, a visita permitiu perceber que a experiência congadeira continua para além dos momentos de maior visibilidade diante do público.

O retorno do Moçambique ao quartel

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"Na noite do dia 12, retornei às atividades de encerramento, que voltaram a reunir os ternos de Congado. A proximidade com o Moçambique de Belém permitiu acompanhar sua desenvoltura nas apresentações e a atenção das pessoas que se reuniam para vê-lo. Essa acolhida pública merece ser registrada sem ser confundida com a superação das desigualdades que atravessam a vida de seus protagonistas. É importante salientar que a resistência negra, diante da permanência do racismo, pertence à própria história social desta manifestação cultural autêntica do Triângulo Mineiro.”

Falar de resistência, nesse contexto, exige reconhecer sujeitos concretos, com experiências e conhecimentos próprios. As tradições afrodiaspóricas do Triângulo Mineiro são sustentadas por pessoas que vivem os efeitos do racismo estrutural e que produzem modos de enfrentá-lo. A fé, a criação musical e a continuidade dos vínculos comunitários fazem parte dessa história. O reconhecimento durante a festa precisa se prolongar no respeito cotidiano às pessoas que a tornam possível. Voltei com o grupo ao quartel na noite do dia 12 e permaneci até o último tambor ser tocado. Depois vieram as orações e o jantar, quando pude me sentar com o General Ramon e agradecer a possibilidade de ter participado. A refeição compartilhada também pertence à experiência que procuro compreender: depois dos percursos e das apresentações, o encontro continuava entre aqueles que haviam sustentado a festa.

O último tambor para de tocar ao final das festas

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"É dessa convivência que parte a pesquisa que venho desenvolvendo junto ao Moçambique de Belém, no âmbito de um projeto que realizo junto ao Programa de Pós-Graduação em Música (PPGMU) e ao Instituto de História (INHIS) da Universidade Federal de Uberlândia. Espero que esta pesquisa possa contribuir para a memória do grupo, mediante um diálogo sobre os registros e as interpretações produzidas. Os conhecimentos que tornam essa pesquisa possível já existem entre seus integrantes. Cabe à universidade reconhecer mais detalhadamente sua autoria e aprender com os Mestres e Mestras da tradição congadeira.”

Por último, gostaria de agradecer ao General Ramon Rodrigues e sua esposa Mônica, à Rainha Maria Aparecida e a todo o terno que me acolheu, aos quais se vinculam esse reconhecimento: o protagonismo da festa e dos saberes que orientam a pesquisa pertence às comunidades congadeiras.

André Fabiano Voigt é professor associado do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), MG