Companheiro Antonio Venturi
Antonio Venturi e Luiz Carlos Prestes Filho, Rio de Janeiro, 1987

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
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Conheci o Toni Venturi em 1986, na época ainda era o Antonio Venturi. Ele formado em cinema no Canadá e eu formado da União Soviética. Duas visões diferentes da sétima arte. Por tanto, desde o início nos complementamos. Época quando morou no Rio de Janeiro, na Ladeira Santa Cristina, no bairro de Santa Teresa. Sempre que passo por esta rua lembro do amigo, do seu apartamento acolhedor e do seu resistente fusquinha.

Antonio Venturi e equipe do jornal Cine Imaginário entrevistam o Ministro da Cultura Celso Futado
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"Convidei o Antonio para escrever para o jornal Cine Imaginário. Aceitou e esteve presente quando realizamos entrevistas memoráveis com o então Ministro da Cultura, Celso Furtado, bem como com personalidades do nosso audiovisual. A exemplo de Grande Otelo, Wilson Grey, Nelson Pereira dos Santos, Murilo Salles, Walter Lima Junior, entre tantos outros.” |
Trabalhamos juntos em diversos momentos significativos. Ele foi um dos fotógrafos do filme documentário que dirigi com Valeri Naumov: "Rio Leningrado". Obra sobre as cidades irmãs que no próximo ano comemoram 40 anos de geminação: Rio de Janeiro e São Petersburgo (ná época a cidade se chamava Leningrado). Única coprodução cinematográfica Brasil-URSS!

Antonio Venturi em primeiro plano com a camera na mão. Entrevista com o Zico. Acima Valeri Naumov e Luiz Carlos Prestes Filho
Além disso, vivemos uma rica experiência nas Oficinas Culturais de Volta Redonda, quando ele assumiu a direção de produção. O projeto nos permitiu compartilhar saberes ao lado do ator Antônio Pedro, do jornalista Tarso de Castro, do diretor de teatro Amir Haddad e do poeta Geraldo Carneiro.
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"Ao longo de sua trajetória Antonio Venturi destacou-se não apenas como diretor e fotógrafo de cinema, mas também demonstrou em seus textos uma consistente competência como estudioso da História do cinema brasileiro. Suas análises crítico-históricas lançavam luz sobre as transformações estéticas, as dinâmicas de produção e os desafios estruturais do setor no país. Foi nas páginas do jornal "Cine Imaginário" que ele apresentou o diário de bordo e a crônica do curta-metragem "Encontro com Prestes" (1988), dirigido por Sérgio Santeiro, obra na qual atuou como assistente de direção e que se constituiu como o verdadeiro embrião do que viria a ser anos mais tarde seu longa-metragem "O Velho – A História de Luiz Carlos Prestes" (1997).” |

Capa do primeiro "Cine Imaginário" para o qual Antonio Venturi escreveu
Em suas reflexões publicadas, Venturi abordou uma vasta diversidade de temas vitais para o entendimento do audiovisual nacional. Debatendo a distribuição e a exibição comercial e alternativa, denunciou o encolhimento do circuito de salas no interior e o estrangulamento provocado pela ocupação predatória do mercado por filmes estrangeiros, propondo o fortalecimento de redes alternativas como cineclubes e a difusão em formatos acessíveis.
Antoni Venturi e toda equipe equipe do jornal "Cine Imaginário"
Suas análises sobre o Rio Cine Festival colocaram em pauta o vigor da produção independente e a necessidade de um debate interno racionalizado entre os realizadores. Ao investigar episódios históricos, resgatou a memória da produção independente dos anos 1950, destacando a carreira e os percalços do ator Roberto Battaglin e os desafios enfrentados por marcos do cinema nacional diante da censura e da falta de recursos.
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"Em suas críticas e entrevistas sobre a trajetória de cineastas como Roberto Santos e o produtor Rudá de Andrade, Antonio Venturi refletiu criticamente sobre a relação do Estado com a cultura, os dilemas entre o cinema de mercado e o autoral, e as especificidades da linguagem cinematográfica paulista e carioca.” |

Editorial do "Cine Imaginário" assinado por Antonio Venturi
Nascido em São Paulo em 1955 e falecido prematuramente em 2024, Antonio Venturi consolidou-se como uma das figuras mais relevantes do cinema brasileiro contemporâneo. Graduado em cinema em Toronto, RYERSON UNIVERSITY e na ECA USP. Iniciou sua carreira no documentário e na fotografia antes de estrear na direção de longas-metragens de ficção. Sua filmografia é marcada pelo compromisso social e por um olhar atento à história e à sociedade brasileira, destacando-se obras como "Latitude Zero" (2001), "Cabra-Cega" (2004), "Estamos Juntos" (2011) e "A Comédia Divina" (2017), além de diversos projetos e séries para a televisão. Seu legado permanece como exemplo de rigor intelectual, engajamento político e paixão irrestrita pela sétima arte.

Como disse no início, convivi com Antonio Venturi. Depois que ele passou a residir em São Paulo e foi aclamado como Toni, nos distanciamos. Tivemos pouco contato. Mas guardo na memória com carinho todos os momentos que bravamente juntos defendíamos o cinema brasileiro. Entendo que a homenagem ao amigo no Cine Teatro Denoy de Oliveira em São Paulo tem alto valor. Todos seus filmes compõem um olhar único sobre o tempo que vivemos. Seria fundamental levar esta mostra por todo Brasil.

Embrião do filme "O Velho" nas páginas do "Cine Imaginário"
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Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"



