Memorial dos Palmares
Capa do Livro "Memorial dos Palmares"

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Entrevista exclusiva - historiador Ivan Alves Filho
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O historiador Ivan Alves Filho lançou recentemente a edição atualizada de seu livro "Memorial dos Palmares" pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos do Estado de Alagoas, Fundação Casa Jorge Amado, Centro de Excelência Nelson Mandela e Fundação Astrojilgo Pereira. Faz 50 anos que o autor desenvolve pesquisas sobre a luta contra escravidão no Brasil. Nesta entrevista ele fala sobre o "caráter multiétnico" do Quilombo que "afasta a possibilidade de caracteriza-lo como organização tribal" Pois, é em torno dos "laços de consaguinidade que evoluem as atividades de produção tribal". O autor destaca que: "A ausência de uma documentação mais relevante sobre a organização interna do Quilombo, o que frequentemente provoca no historiador uma sensação de impotência e desânimo: por mais que se esforce na busca de documentos de fonte escrita, ele sabe que a história do movimento jamais poderá ser reconstituída, senão parcialmente."
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Luiz Carlos Prestes Filho: Quais pontos você destacaria relacionados à reedição do seu livro MEMORIAL DOS PALMARES, no contexto das atuais políticas expansionistas do imperialismo?
Ivan Alves Filho: A expansão colonial difere da expansão imperialista atual, baseada na exportação de capitais. No colonialismo, há dominação política e econômica, mas, também, ocupação populacional, como nos casos das colônias de povoamento, verificados nos Estados Unidos, Canadá e Austrália, por exemplo. No tocante ao Brasil, houve por aqui uma ocupação de corte militar. No período colonial, houve colonialismo sem colonização; na fase do Brasil independente, colonização sem colonialismo. São períodos distintos e formas distintas também de exploração e opressão.
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"Palmares teve a felicidade de contar com muitos historiadores que buscaram renovar as fontes para o conhecimento dessa grande revolta.” |

Zumbi - xilogravura de Luis Matuto
(capa do livro "Palmares de Zumbi" de Leonardo Chalube)
Prestes Filho: Hoje existe um consenso sobre a invasão colonial no nosso continente. Destaque para a destruição de civilizações, assassinato de milhões de seres humanos e a aplicação da escravidão como ferramenta indispensável para o desenvolvimento econômico. Ao manusear os documentos originais sobre PALMARES em Portugal, você se surpreendeu?
Ivan Alves Filho: Não me surpreendi muito - e isso por uma razão simples: quase toda a documentação escrita, de origem portuguesa, possui um caráter militar. Mesmo assim, é interessante observar que as autoridades coloniais e os próprios colonos destacavam alguns aspectos da organização social presentes nos quilombos, como criação de gado e roças abundantes, o que já revelava um mercado interno em gestação.
Prestes Filho: Quais historiadores adentraram nos documentos originais sobre PALMARES como você? Quais livros servem como exemplo de análise dos documentos guardados em Portugal?
Ivan Alves Filho: Palmares teve a felicidade de contar com muitos historiadores que buscaram renovar as fontes para o conhecimento dessa grande revolta. Eu destacaria as obras de autores como Ernesto Ennes, Edison Carneiro, Mário Martins de Freitas, Duvitiliano Ramos e Décio Freitas. Afinal, foram eles os pioneiros. Eu busquei apenas dar continuidade ao trabalho dos que me antecederam, honrando o desempenho dessas pessoas.
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"O fundamental, a meu ver, na análise do Quilombo dos Palmares, reside no fato de que ele revelava o desmoronamento do mundo das tribos e a passagem consequente para a sociedade dividida em classes sociais. O homem livre saía de cena e, nela, entrava o homem escravizado. ” |

Zumbi dos Palmares, óleo sobre tela, autor Antônio Parreras
Prestes Filho: Qual método você aplicou nos estudos dos documentos originais? Como separar a visão do colonizador sobre PALMARES da voz dos palmarinos?
Ivan Alves Filho: O que você chama de “voz dos palmarinos” é algo que, a meu juízo, tem que ser lido nas entrelinhas. O espaço ocupado pelos revoltosos diz muito sobre as características de suas lutas. Assim, os palmarinos organizavam suas ruas à maneira africana (todas muito compridas), suas casas eram de pau-a-pique, exploravam suas roças a partir dos conhecimentos que iam adquirindo com os índios, falavam a língua portuguesa como elemento de unificação e praticavam o sincretismo religioso.
O fundamental, a meu ver, na análise do Quilombo dos Palmares, reside no fato de que ele revelava o desmoronamento do mundo das tribos e a passagem consequente para a sociedade dividida em classes sociais. O homem livre saía de cena e, nela, entrava o homem escravizado. Da mesma forma, as roças indígenas seriam substituídas pelos latifúndios. Palmares foi a nossa primeira luta de classes. Não por acaso, Astrojildo Pereira, principal fundador do Partido Comunista em 1922, foi o primeiro a chamar atenção para isso. Aliás, o PCB surgiu do Grupo Comunista Zumbi, do Rio de Janeiro, então capital da República, como que apontando um elo entre os escravos do período colonial e os escravos modernos, os operários fabris.
Prestes Filho: Ganga Zumba, Zumbi, Camoanga e Mouza Palmar foram líderes de PALMARES ao longo dos mais de 100 anos de existência do território. Por favor, indique as diferenças de cada momento vivido por PALMARES com lideranças diferentes.
Ivan Alves Filho: As lideranças iniciais se apoiavam em organizações voltadas para a mera sobrevivência. Depois da chegada dos holandeses, que embaralha as formas de dominação portuguesa, o movimento cresce significativamente, a ponto de os portugueses, no último quartel do século XVII, reconhecerem que os palmarinos davam dando trabalho quanto os holandeses, no tocante à repressão militar ao Quilombo. Palmares era “o inimigo de portas a dentro.”
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"Tanto a documentação portuguesa quanto a holandesa destacam esse caráter multiétnico de Palmares.” |

Zumbi dos Palmares, escultura fixada na Praça Onze, Rio de Janeiro, autor desconhecido
Prestes Filho: Em seu livro você, em diferentes momentos, apresenta o caráter multiétnico de PALMARES. Seria possível desenvolver mais detalhadamente este tema? As reduções guaranis no Rio Grande do Sul e a Inconfidência Mineira também foram eventos multiétnicos. Característica do Brasil?
Ivan Alves Filho: Exatamente isso, uma marca brasileira. No caso, de um Brasil ainda em formação, de um Brasil que eu chamo de não oficial até. Tanto a documentação portuguesa quanto a holandesa destacam esse caráter multiétnico, presente nas listas de prisioneiros. E é interessante observar que havia quilombos – Palmares era uma espécie de confederação – dirigidos por índios. João Tapuio foi um deles.
Prestes Filho: A violência do colonizador português sempre foi implacável. As páginas do seu livro dão destaque para este cenário de crueldade. Portugal deveria realizar políticas de reparação relacionadas para com a escravidão de africanos que praticou no Brasil?
Ivan Alves Filho: Acredito que sim. Eu só não saberia dizer como isso poderia ser feito. Talvez os Ministério das Relações Exteriores dos dois países pudessem encontrar caminhos condizentes com a realidade atual, abrindo conversações nesse sentido.
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"Palmares teve a felicidade de contar com muitos historiadores: Ernesto Ennes, Edison Carneiro, Mário Martins de Freitas, Duvitiliano Ramos e Décio Freitas.” |

Zumbi dos Palmares, escultura fixada na Praça da Sé, Salvador, Bahia, escultora Márcia Magno
Prestes Filho: O Brasil ganharia com a publicação de todos os documentos originais sobre PALMARES guardados em Portugal? Muito ainda não foi revelado?
Ivan Alves Filho: É muito difícil responder a essa pergunta. Eu estive em dezenas de arquivos e compulsei dezenas de milhares de documentos em Portugal, na França e no próprio Brasil, naturalmente. É sempre possível encontrar novos documentos. A própria Arqueologia pode nos ajudar muito no tocante à renovada das fontes.

Livro: Memorial dos Palmares
Autor: Ivan Alves Filho - 222 páginas
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LUIZ CARLOS PRESTES FILHO – Cineasta, formado em Direção e Roteiro de Filmes Documentários para Televisão e Cinema pelo Instituto Estatal de Cinema da União Soviética; Especialista em Economia da Cultura e Desenvolvimento Econômico Local; Coordenou estudos sobre a contribuição da Cultura para o PIB do Estado do Rio de Janeiro (2002) e sobre as cadeias produtivas da Economia da Música (2005) e do Carnaval (2009); é autor do livro “O Maior Espetáculo da Terra – 30 anos do Sambódromo” (2015).



