Marcas do Tempo em Mortugaba e Jacaraci, Bahia
Nesta casa morava Gasparino David de Souza, em 1926, quando a Coluna Prestes passou por Jacaraci

A Coluna Prestes na Memória Oral de Mortugaba e Jacaraci, Estado da Bahia
Texto elaborado para fins de registro histórico, preservação da memória oral e difusão do patrimônio cultural dos municípios de Jacaraci, Mortugaba e região.
Por Laércio Santana Miranda
Exclusivo Catetear Notícias
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A história muitas vezes nos chega não apenas pelos livros, mas pelas marcas do tempo e pelo verbo embalado pela voz dos nossos antepassados. Nascido em Caculé/BA a 27 de março de 1989 e residente por toda a vida no município de Jacaraci, cresci ouvindo as memórias relatadas por meu avô paterno, o Sr. Clemente dos Santos Miranda, nascido aqui neste município de Jacaraci/BA em 11 de fevereiro de 1930.
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"Meu avô contava que, quando tinha por volta de 9 anos de idade, foi com seu pai (Jovelino Antônio de Miranda) até a antiga povoação de Boa Vista de Jacaraci — território que hoje corresponde ao município de Mortugaba — para a feira, e aproveitar e viagem para também visitar seu tio, João Miranda. Tio João, casado por três vezes, residia na Praça da Feira, nas proximidades da casa do Sr. Júlio de Carvalho (sogro do Sr. "Zé Guerra", José Patrício Santos Guerra, figura bastante conhecida na região por atuar na prática médica e manter uma farmácia local).” |

Vista da cidade de Jacaraci em 1924
Enquanto meu bisavô dirigia-se à farmácia de Zé Guerra, meu avô Clemente ficou encarregado de amarrar o cavalo na praça. O local da feira era naquele tempo um largo pouco íngreme que abrigava no lado mais baixo quase que de fronte a casa do Sr. João Miranda, abrigava o Mercado Velho, uma estrutura tradicional com telhado de quatro águas em telhas de barro, sustentado por quatro grandes esteios. Na lateral, havia uma trave baixa composta por dois mourões e uma tora de madeira deitada, destinada à amarra das montarias. Um pouco mais adiante, a cerca de um metro, erguia-se um esteio de aproximadamente dois a três metros de altura, ladeado por outro de porte semelhante. Foi ao se aproximar para amarrar o animal nesse esteio que meu avô foi interpelado por um idoso morador da localidade, um beato conhecido como Moisés, que já contava com mais de 80 anos. Ele observava a cena da porta de uma venda e chamou o menino.

Barração da feira livre de Boa Vista (atual Mortugaba)
— Ô, menino, você está vendo aquele esteio ali, aquelas marcas de bala na ponta? Aquilo ali foi bala dos revoltosos quando passaram por aqui. E tinha gente nossa esperando passarem para dar o que estavam querendo. Essa lembrança ficou gravada na memória de meu avô, que me a repassou quando eu tinha entre 14 e 15 anos. Naquela altura, eu ainda não compreendia a dimensão de quem eram aqueles "revoltosos". Mais tarde, nos bancos escolares, compreendi que se tratava da Coluna Prestes, expedição militar-política que percorreu o interior do Brasil no decênio de 1920 e cujos rastros e episódios marcaram a região sudoeste da Bahia — passando por localidades como Paiol, Irundiara, Condeúba e a própria Boa Vista, que nesse tempo era distrito de Jacaraci.
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"Décadas depois, no dia 14 de setembro de 2026, tive a grata oportunidade de estar pessoalmente com o senhor Luiz Carlos Prestes Filho, filho do líder da Coluna, capitão Luiz Carlos Prestes. Ao partilhar com ele este relato preservado por tradição familiar, fui por ele incentivado a registrar formalmente em texto esta memória sobre os caminhos percorridos por seu pai e pelos integrantes do movimento.” |

João José Miranda, Jovelino Antônio de Miranda e Clemente dos S. Miranda
A busca pela preservação do patrimônio imaterial e da história regional sempre pautou a minha trajetória. Como professor e pesquisador, dediquei cerca de dez anos à escuta de antigos moradores e ao levantamento de acervos fotográficos em Jacaraci. Esse trabalho culminou em minha dissertação de mestrado na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), intitulada Memória e Ensino através da Fotografia Histórica do Município de Jacaraci.
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"Entre as entrevistas decisivas para a reconstrução desse panorama esteve o depoimento concedido pela Sra. Maria Antonieta. Hoje com mais de 90 anos e acometida pela doença de Alzheimer — o que já não lhe permite o acesso à realidade presente nem a articulação da fala —, Dona Maria Antonieta guardava registros orais preciosíssimos do período. Em 24 de janeiro de 2021, estive em visita à casa de Dona Maria Antonieta de Jesus Rocha (Lia de Terêncio) e na ocasião, no trecho do áudio fornecido, a idosa relata com detalhes a passagem dos revoltosos e o impacto na loja do Sr. Antônio Ladeia de Brito, além do susto que a população passou.” |

Casa e Loja do Sr. Antônio Ladeia de Brito
Invasão e Saque da Loja: Ela conta que os revoltosos entraram na cidade e saquearam a loja de Antônio Ladeia de Brito (referido como "seu Antônio"). Eles puxaram e desenrolaram todas as peças e cortes de fazenda que estavam nas prateleiras, arrastando tudo para o meio da rua e espalhando pelas praças.
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"Entrada na Casa de Dona Bela (Dona Belarmina Ribeiro Ladeia de Brito) mãe do Sr. Antônio Ladeia de Brito e de Dona Ana Ladeia de Brito): Ela relata que os revoltosos também invadiram a residência de Dona Bela. Como a família havia fugido, os homens entraram na casa, levaram o que quiseram e destruíram e saquearam os móveis e pertences de Sá Bela e de minha Madrinha Nana.” |

Casa de Dona Belarmina Ladeia de Brito (à direita)
Fuga da População para o Mato: Em pânico com a chegada e o barulho das armas do grupo, os moradores abandonaram suas casas e fugiram para o mato para se esconder. Construção de Abrigos Improvisados: Durante o período em que ficaram escondidos na mata, as famílias construíram "ranchos de pindoba" (palha de palmeira) para se abrigar até que a situação se acalmasse e pudessem retornar à cidade. Dona Maria Antonieta viveu desde os 7 anos de idade na casa de sua madrinha, a Sra. (Dona Ana Ladeia de Brito (conhecida como Madrinha Nana), filha de Bela Ladeia de Brito. Dona Nana, senhora solteira, acolheu e educou Maria Antonieta. Foi nessa mesma residência que ocorreram episódios marcantes durante a passagem dos revoltosos por Jacaraci. Dona Maria Antonieta relatava com riqueza de detalhes os momentos de apreensão vividos na época: a fuga temida das famílias para a mata, a montagem dos ranchos de pindoba como abrigos temporários, e a invasão das casas e comércios da cidade — como o saque à loja de cortes de tecidos do Sr. Antônio, cujas peças foram desenroladas e espalhadas pela praça pública.
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"Embora o relato de Dona Maria Antonieta reflita memórias transmitidas principalmente por sua madrinha Nana — tendo os fatos ocorrido pouco antes ou no período de sua chegada àquela casa —, seu testemunho constitui um elo fundamental para compreender o impacto social, o cotidiano e a oralidade construída em torno da passagem da Coluna Prestes no interior baiano.” |

Dona Belarmina Ladeia de Brito, Antônio Ladeia de Brito e Dona Maria Antonieta de Jesus Rocha
Outras vozes da comunidade de Jacaraci reforçam a atmosfera de pânico e preparação que antecedeu a chegada do contingente rebelde. Em depoimento colhido ainda no ano de 2015, a senhora Ester Neves Silva, conhecida na comunidade como Dona Lilita, narrou os momentos em que a notícia da aproximação dos revoltosos varreu a pequena cidade. À época, o intendente (cargo equivalente ao de prefeito) era o Sr. Mozar David. Tendo tido notícia sobre o avanço dos grupos armados pelas cidades vizinhas do sertão, o intendente tratou de alertar a população local. A notícia de que os revoltosos já haviam alcançado a vizinha Boa Vista de Jacaraci (atual Mortugaba) provocou uma corrida imediata para as margens do município, as fazendas, já que a sede do município é cravada no coração/centro da extensão territorial que compõe o município de Jacaraci, e seus distritos se encontram nas extremidades.
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"Na narrativa a Sra. Lilita conta que seu pai e sua mãe juntaram os pertences da família, colocaram os filhos em um carro de boi e foram para a Fazenda Banho, de onde veio sua mãe, buscando abrigo na casa de parentes maternos. Quando a notícia do afastamento dos revoltosos finalmente chegou e a família pôde retornar à sede do município, encontraram sua casa intacta: não havia sido invadida nem despojada. Dona Lilita recordava, contudo, muitas das histórias que circularam em seguida do retorno de muitos ao núcleo urbano de Jacaraci sobre os tumultos na Praça da Feira livre: a desordem na loja do Sr. Antônio Ladeia e o uso forçado da residência de sua mãe, Dona Belarmina (Sá Bela), onde os rebeldes prepararam refeições e espojaram nas camas da casa.” |
Dona Ester Neves Silva
O clima de terror psicológico gerado pelos rumores da época é ilustrado de forma dramática pelo testemunho de uma vizinha, a Sra. Joana Rosa Fialho. Dona Joana relatava que os boatos que antecediam os revoltosos alardeavam que eles cometeriam atos violentos contra as mulheres, saqueariam as residências e matariam os homens da localidade. Tomadas pelo desespero, as mães que fugiam para a mata adotavam medidas extremas de proteção: escondiam seus bebês e crianças pequenas dentro de buracos de tatu no solo e colocavam pedaços de meias em suas bocas para sufocar o choro e evitar sua detecção e ficavam à espreita entre as folhagens, vigiando os buracos enquanto aguardavam a passagem do comboio armado, para só então resgatar os filhos e empreender o retorno para casa.

Irundiara (antiga Vila de Passagem Larga da Volta)
As narrativas coletadas com meu padrinho, com Dona Lilita e com Dona Maria lançam luz sobre o itinerário dos revoltosos em outras localidades do entorno, demonstrando que o deslocamento da força rebelde cobriu uma extensa malha de povoados e distritos. Relata-se a passagem do grupo pela Passagem Larga da Volta (hoje Irundiara) e pelo povoado de Paiol, que à época chamava-se Palmeiras. Em Palmeiras, a população, tomada de idêntico pavor diante das notícias de saques e violência, debandou para os matos, deixando o povoado praticamente deserto e à mercê dos marchantes. Naquela localidade, os revoltosos invadiram a residência do Sr. Manoel, um casarão situado defronte à Igreja de São Sebastião, no ponto mais elevado do povoado.
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"Os homens da Coluna utilizaram as instalações da propriedade como alojamento e ponto de apoio e, antes de partirem, deixaram inscrições demarcadas em uma das paredes internas da casa. Embora eu não tenha adentrado essa residência histórica, ela permanece de pé e preservada até os dias atuais, guardando de forma intocada as marcas materiais deixadas pelos rebeldes. Trata-se de um testemunho físico raro de um momento em que a grande história nacional gravou sua presença na intimidade de um lar sertanejo.” |

Residência do Sr. Manoel – Paiol (antiga Palmeira)
Uma breve análise, mas não pouco importe, cabe observar que: A justaposição entre a narrativa histórica oficial da Coluna Prestes e a memória oral preservada pelas populações do sertão baiano por onde a respectiva perpassou, em especial no município de Jacaraci, que que encontra no alto sertão da Bahia, oferece um rico campo de análise sociológica e axiológica relativa aos valores morais e éticos em jogo.
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"A Coluna Prestes não se articulou apenas como uma expedição militar, mas como a corporificação de um ideário tenentista, reformista e profundamente nacionalista. Sob a perspectiva de suas lideranças e quadros intelectuais, a longa marcha pelo interior do país desenhava-se como uma cruzada ética e pedagógica destinada a romper as amarras da República Velha — marcada pelo coronelismo, pelo vício do voto de cabresto e pelo enraizamento de oligarquias locais.” |
Ao reivindicar o sufrágio secreto, a moralização da gestão pública e a democratização do acesso à instrução, o movimento imbuía-se de uma verdadeira missão regeneradora. Dentro dessa matriz axiológica, os marchantes viam a si próprios não como meros insurgentes, mas como libertadores conscientes e sacrificais, dispostos a empenhar a própria existência no esforço de redimir moralmente uma nação que julgavam adormecida ou cativa do arcaísmo político.

Registro fotográfico com o Sr. Mozart David trajado de terno branco a seu lado direito o Capitão (personagem não identificado) do destacamento; em segundo plano está o destacamento policial que guarneceu o município de Jacaraci-BA, possívelmente chegados ainda na década de 1920.
No entanto, no plano axiológico local, o sertão da Bahia na década de 1920, a chegada do movimento foi vivenciada através de uma grade de valores completamente diversa: O Terror do Desconhecido contra A Ética da Tradição: Para as comunidades rurais, organizadas sob o patriarcalismo, o catolicismo tradicional e a autoridade dos chefes locais, a quebra da ordem social pela chegada de centenas de homens armados representava o caos moral. Necessidade Material contra a Violação da Propriedade: A Coluna precisava de suprimentos, cavalos e abrigo para sobreviver à perseguição do exército federal e das forças policiais estaduais ("pobres de farda" e "estaduais"). A requisição forçada de bens — como o saque aos tecidos da loja de Antônio Ladeia ou a ocupação da casa de Dona Bela — era vista pela liderança militar como necessidade tática de guerra, mas vivida pela comunidade como expropriação indevida e abuso. A Moral e o Pavor do Abuso: A ameaça de violência sexual ou física contra as mulheres e a integridade da família rural — revelada no gesto desesperado de esconder bebês em buracos de tatu — evidencia o profundo sobressalto ético e psíquico provocado pela guerra sertão adentro. A preservação da honra familiar era o valor supremo daquela sociedade, colocado sob ameaça iminente no imaginário popular.
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"Sociologicamente, a passagem da Coluna Prestes pelos municípios de Jacaraci e em Boa Vista de Jacaraci (atual Mortugaba) evidencia fenômenos marcantes da dinâmica social do interior brasileiro no início do século XX: A Comunicação por Rumor e o "Pânico Social": Em uma sociedade com infraestrutura precária de comunicação, o rumor agia como principal vetor informativo. A notícia de violência ou banditismo que precedia a marcha gerava um estado de pânico coletivo. Esse pânico desestruturava temporariamente a vida comunitária, provocando o êxodo urbano imediato para as fazendas e para a mata (os "ranchos de pindoba"). ” |

Essas casas "viram" a Coluna Prestes passar
A Indiferença Ideológica do Sertão ao Tenentismo: Do ponto de vista da sociologia política, existia um abismo cultural entre os oficiais tenentistas (jovens de classe média urbana e de formação militar formal) e a população sertaneja. O discurso de reforma política da Coluna não encontrava eco imediato em populações analfabetas ou subjugadas ao coronelismo, para as quais a presença de qualquer força armada estrangeira à região equivalia à ameaça de um bando guerrilheiro ou de cangaço; A Dupla Face do Encontro: O relato de Dona Lilita demonstra a complexidade sociológica do evento. Enquanto certas propriedades foram invadidas e saqueadas para provisão do contingente, outras residências permaneceram intocadas. Isso mostra que o comportamento do contingente rebelde variava entre a necessidade imediata de subsistência militar e a tentativa de manter relativa disciplina entre as tropas, coexistindo atritos severos e momentos de contenção. A Construção do Mito e da Memória Oral: O testemunho do beato Moisés sobre as "marcas de bala no esteio" em Boa Vista de Jacaraci (atual Mortugaba) demonstra como o espaço físico se converte em monumento histórico imaterial. As marcas de projetil deixaram de ser mero registro de confronto bélico para se tornarem símbolos da passagem de um acontecimento de escala nacional sobre o cotidiano pacato da feira livre sertaneja. O Abismo Cultural: Havia uma marcante distância sociológica entre os quadros militares tenentistas (urbanos e instruídos) e a população sertaneja. Incapaz de decodificar as intenções políticas da Coluna, a população enxergava o comboio como mais um bando armado ameaçador, comparável ao cangaço ou às facções do coronelismo local. A Materialidade do Patrimônio Histórico: Elementos como as marcas de bala no esteio em Mortugaba e a inscrição na parede da casa do Sr. Manoel em Palmeiras (Paiol) representam a conversão do espaço privado e cotidiano em patrimônio histórico imaterial e físico. São cicatrizes que perpetuam a memória do choque entre o cotidiano do sertão e os ventos da política nacional.
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"A memória preservada pelo testemunho de meu avô e padrinho, o Sr. Clemente dos Santos Miranda, e pelas vozes de Dona Maria Antonieta, Dona Ester e Dona Joana não contraria a historiografia oficial da Coluna Prestes; ao contrário, humaniza-a, tenciona-a e a completa. Ao deslocar o foco dos mapas táticos para a experiência vivida no cotidiano sertanejo, a tradição oral expõe o severo custo humano e psíquico imposto às populações do interior baiano, revelando a trágica assimetria de um processo em que a utopia reformista dos centros urbanos foi experimentada, no coração do sertão, sob a forma de sobressalto, pânico e resistência.” |

Essas casas "viram" a Coluna Prestes passar
Essa fratura entre o idealismo de vanguarda e a realidade comunitária reflete um dilema estrutural que projeta suas sombras no Brasil contemporâneo. A passagem da Coluna evidencia a persistência do abismo entre o país oficial — que projeta reformas de cima para baixo — e o país real, cujas demandas por segurança e dignidade são seguidamente atropeladas pelos conflitos de poder. A imagem dramática das mães de Jacaraci escondendo seus bebês em buracos no solo condensa a permanente vulnerabilidade a que as populações do interior são submetidas quando forças de ruptura e o Estado disputam projetos de hegemonia sem promover a efetiva integração cidadã. Em última análise, salvaguardar esses relatos orais é um ato de justiça histórica e patrimonial. As marcas de bala nos esteios de Mortugaba e as inscrições em Paiol mostram que nenhuma transformação social autêntica se consolida alheia à escuta e ao respeito às especificidades culturais do interior. Ao registrar a memória dos que vivenciaram a marcha na intimidade de seus lares, este trabalho reafirma que o sertão não foi mero espectador passivo da história, mas o solo onde o Brasil profundo gravou, com dor e altivez, a sua própria versão da epopeia nacional.
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REFERÊNCIAS:
Este texto foi elaborado para fins de registro histórico, preservação da memória oral e difusão do patrimônio cultural dos municípios de Jacaraci, Mortugaba e região.
*Esteio (s. m.): 1. Peça de madeira, ferro, alvenaria, etc., que serve para amparar ou sustentar uma construção, uma estrutura ou um objeto; pontal, esteira, espia. 2. (Figurado) Aquilo que dá apoio, suporte ou sustentação moral, econômica ou emocional a alguém ou a algo; arrimo, pilar, suporte, base. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. p. 842.
*Fazenda (s. f.): 1. Propriedade rural onde se praticam a agricultura e a pecuária; posse, sítio, granja. 2. Tecido de algodão, lã, seda, etc., próprio para vestuário ou para outros usos. 3. Conjunto dos bens, riquezas ou patrimônio de alguém. 4. Bens ou finanças públicas; tesouro público. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. p. 863.
*Sá (pess. pron.): Redução e forma popular, afetiva ou arcaica de Dona ou Senhora, utilizada antes do nome próprio feminino de pessoa idosa, parteira ou de respeito no meio rural (ex.: Sá Maria, Sá Isabel). In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. p. 1805.
*Brasil (s. m.) [Plural: Brasís]: 1. (Histórico/Sociológico) Cada uma das diferentes realidades sociais, culturais, econômicas e geográficas que coexistem no território nacional; as diversas facetas da sociedade brasileira (ex.: o Brasil urbano versus os sertões). 2. País da América do Sul. 3. (História) Pessoas naturais da terra; indígenas (uso arcaico). In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. p. 326.
*Rancho (s. m.): 1. Habitação tosca, acampamento ou abrigo provisório feito de palha, madeira ou outros materiais simples, usado para alojar viajantes, tropas ou pessoas em deslocamento. 2. Grupo de pessoas que caminham ou viajam juntas. 3. Refeição servida coletivamente a soldados, trabalhadores ou grupo de pessoas em acampamento. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. p. 1708.
*Pindoba (s. f.): 1. Nome genérico dado a várias palmeiras da família das arecáceas, de folhas grandes e resistentes, muito utilizadas na cobertura de cabanas, ranchos e habitações rurais no interior do Brasil. 2. A folha ou palha proveniente dessas palmeiras. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. p. 1562.
*Beato (s. m.): 1. Homem extremamente devoto, carola ou muito dado a práticas religiosas populares. 2. Pessoas no interior do Brasil que professavam uma vida de oração, perambulando pelos sertões e consertando igrejas ou fazendo pregações informais. 3. (Catolicismo) Aquele que foi beatificado pela Igreja Católica. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. p. 289.
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Laércio Santana Miranda é professor de Língua Portuguesa e Mestre em Ensino pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e Advogado



