Rogério Marques filma João Roberto Kelly

Rogério Marques filma João Roberto Kelly

Rogério Marques filma o Rei das Marchinhas de Carnaval

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Entrevista com o jornalista Rogério Marques

Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

Entre o tilintar das velhas máquinas de escrever e o silêncio digital dos computadores modernos, a trajetória de Rogério Marques Gomes se confunde com a própria história da imprensa carioca. Filho da piauiense Maria José e do mineiro Diamantino — jornalista e lendário revisor de "O Globo" -, Rogério herdou dos pais a paixão pela música, o humanismo e o olhar atento para as palavras. Foi pelas mãos do pai que pisou pela primeira vez em uma redação, iniciando como estagiário de revisão no Correio da Manhã, no turbulento ano de 1968, com apenas 17 anos. Membro de uma geração forjada na prática diária das redações — e defensor fervoroso da exigência do diploma universitário para a categoria —, Rogério testemunhou as transformações de um ofício que trocou o papel pelo pixels. Viu desaparecerem os cinco grandes veículos impressos onde construiu sua carreira (Correio da Manhã, Última Hora, O Fluminense, Jornal dos Sports e Bloch Editores) antes de migrar para o telejornalismo da TV Bandeirantes e da TV Globo, atuando em programas como Fantástico e Globo Repórter. Se a tecnologia hoje agiliza a apuração, por outro lado precarizou as relações de trabalho, extinguiu os departamentos de revisão e multiplicou o acúmulo de funções. Hoje dedicado à preparação de originais, revisão de livros e crônicas sobre a memória do Rio, Rogério prepara o resgate de um patrimônio cultural: o documentário sobre João Roberto Kelly. A ideia do filme nasceu há quase uma década, durante um papo no apartamento de Kelly em Copacabana, intermediado pelo amigo e jornalista Cláudio Renato. Impressionado ao ver Rogério cantar de cor as vinhetas de Times Square — o maior musical humorístico da TV brasileira —, Kelly aceitou na hora o convite. Dividindo a direção com Guilherme Azevedo e contando com a parceria das produtoras Selma Regina e Tania Leite, o projeto independente busca evitar o apagamento do criador que, antes das consagradas marchinhas carnavalescas, compôs para Elis Regina, Elizete Cardoso e Elza Soares.

O diretor Guilherme Azevedo, o roteirista Rogério Marques, o cinegrafista Rodrigo Gorosito e o Rei das Marchinhas, João Roberto Kelly

"O roteiro resgata ainda a coragem de Kelly ao compor o musical Les Girls em 1964, marco do teatro de travestis que revelou talentos como Rogéria e Jane Di Castro em pleno regime militar, desarmando patrulhamentos morais do passado e do presente. Atualmente na fase final de captação financeira para a pós-produção e liberação de direitos, a equipe projeta a circulação do documentário no circuito de festivais. Mais do que uma homenagem ao "Rei das Marchinhas", a obra reflete o compromisso de Rogério Marques com a ética profissional e a preservação da memória nacional — valores cultivados desde a infância na vila de casas no bairro do Rocha, ouvindo os acordes do rádio e observando o olhar atento do pai sobre as páginas do jornal.”

Luiz Carlos Prestes Filho: Mudou muito o trabalho de jornalista hoje se comparado àquele que você desenvolveu ao longo dos anos nos grandes meios de comunicação? Quais são as principais diferenças no modo de apurar e produzir conteúdo?

Rogério Marques: Sim, mudou, mudou. A tecnologia, a informatização das redações e até mesmo a possibilidade de gravar uma entrevista no celular trouxe mudanças positivas no trabalho. Mas é importante registrar que a mesma tecnologia que ajuda é usada pelas empresas jornalísticas para tornar maior a carga de trabalho dos profissionais, que em muitos casos passam a acumular funções. Quanto à apuração, em si, o trabalho do repórter, dos produtores e editores continua sendo fundamental, na checagem das informações com as respectivas fontes. Aproveitando sua pergunta, gostaria de falar um pouco nas mudanças nos meios de comunicação que acompanhei ao longo da vida profissional. Nos últimos 20, 30 anos muita coisa mudou nos jornais e nas emissoras de rádio e TV. A informatização e as novas tecnologias, quando as máquinas de escrever deram lugar aos computadores, tiveram coisas boas e outras ruins. Pesquisas mostram que o número de jornalistas nas empresas diminuiu muito, houve sem dúvida uma precarização. Talvez o começo disso, no começo dos anos 90, tenha sido a extinção dos departamentos de revisão nos jornais, depois da informatização. Atualmente, apenas para citar um exemplo de erros que vemos diariamente, o emprego correto da crase é totalmente ignorado nos meios impressos. Isso não é pouco ou algo que deva ser banalizado.

Rogério Marques no tempo da máquina de escrever, redação TV Bandeirantes

"A propósito dos meios impressos, devo dizer os cinco jornais e revistas em que trabalhei acabaram todos, e eram grandes empresas: "Correio da Manhã", "Última Hora", "O Fluminense", "Jornal dos Sports" e "Bloch Editores". Depois dos impressos migrei para a televisão. Primeiro a TV Bandeirantes, nos telejornais diários, e depois a TV Globo, nos programas "Fantástico" e "Globo Repórter". Atualmente faço revisões de livros e preparação de originais. Colaboro também com alguns blogs, escrevendo crônicas ou fazendo reportagens principalmente sobre a história do Rio.”

Prestes Filho: Como e quando você conheceu João Roberto Kelly, o lendário "Rei das Marchinhas"? Qual foi a sua primeira impressão sobre ele e sua obra?

Rogério Marques: Conheci o Kelly, pessoalmente, há uns 10 anos, por intermédio de um amigo dele, também meu amigo, o jornalista Cláudio Renato. Mas eu já conhecia muito o Kelly desde o início da adolescência, através de suas músicas e seus programas de televisão. Nos anos 60, 70 e 80, principalmente, as músicas e os programas de TV do Kelly tinham enorme audiência. João Roberto Kelly é, sem qualquer exagero, um dos grandes artistas brasileiros, embora sua memória não seja reconhecida como deveria, mas isso não acontece apenas com ele.

João Roberto Kelly, o Rei das Marchinhas de Carnaval

"Um dos objetivos do documentário que estamos produzindo é evitar o apagamento de sua memória e revelar ao público mais jovem quem é este grande artista, que aos 88 anos continua produzindo. Antes das famosas marchinhas de Carnaval, Kelly teve composições de sucesso gravadas por artistas como Elizete Cardoso, Alcione, Miltinho, Ciro Monteiro e por Elis Regina, ainda bem jovem, no início da carreira. Um dos primeiros sucessos da gigantesca cantora Elza Soares, a música "Boato", é de autoria de João Roberto Kelly.”

Prestes Filho: Quando e em qual contexto surgiu a ideia de transformar a vida e o repertório de João Roberto Kelly em um filme documentário?

Rogério Marques: Essa ideia surgiu no dia em que meu colega e amigo Cláudio Renato, que já citei, organizou um encontro no apartamento do Kelly, em Copacabana. Naquele dia, há quase 10 anos, nós conversamos muito sobre a trajetória profissional do Kelly, e eu lembro que ele ficou impressionado porque eu sabia cantar quase todas as vinhetas do programa Times Square, exibido pela extinta TV Excelsior, do qual Kelly era um dos produtores musicais. Para mim, Times Square é, até hoje, o maior musical humorístico da TV brasileira. Depois daquele encontro saí da casa do Kelly com a ideia de fazer um documentário sobre sua carreira vitoriosa. No dia seguinte, telefonei para ele, falei da ideia e ele topou na hora.

Prestes Filho: Como tem sido o processo de codireção e parceria com Guilherme Azevedo na concepção e condução deste projeto?

Rogério Marques: Tem sido muito boa. Guilherme é um grande profissional, com muita estrada, experiente não apenas em direção, mas também como repórter cinematográfico. Temos um bom material gravado sobre o Kelly. Até agora trabalhamos com nossos próprios recursos. Importante lembrar também a parceria com as produtoras Selma Regina e Tania Leite, ambas muito experientes e ótimas profissionais.

Prestes Filho: Quais são as principais dificuldades que você e a equipe enfrentam atualmente para finalizar o documentário (seja no financiamento, na liberação de direitos autorais/fonográficos ou na pós-produção)?

Rogério Marques: As principais dificuldades são de ordem financeira. Para a finalização de um filme é preciso recursos. Além disso, precisamos pagar profissionais que trabalharam conosco e fazer mais algumas gravações envolvendo a vida do Kelly. Mas o filme está praticamente pronto.

Prestes Filho: Durante as pesquisas para o roteiro, qual foi a descoberta ou depoimento mais surpreendente que você encontrou sobre a trajetória do Kelly e a história do Carnaval brasileiro?

Rogério Marques: Para mim, o mais surpreendente foi a participação do Kelly no primeiro grande show de travestis do Brasil, chamado Les Girls, que lançou artistas como Rogéria, Jane Di Castro e muitas outras. Isso foi em 1964, ano do golpe militar, quando os preconceito eram muito maiores do que hoje. Kelly fez todas as músicas do espetáculo, que tinha direção de Luís Haroldo e roteiro de Mario Meira Guimarães. Na época, Rogéria era maquiadora na TV Rio, emissora em que o Kelly também trabalhava.

João Roberto Kelly e a atriz Jane Di Castro, que faleceu em outubro de 2020, dois anos depois de gravar entrevista para o documentário. Jane começou a carreira ao participar do musical humorístico "Les Girls", primeiro grande show de travestis que estreou na Galeria Alaska, em Copacabana, em 1964, com direção musical do Rei das Marchinhas

"Uma curiosidade dos bastidores: Kelly conta que na época sofreu pressão por parte de um diretor da emissora, que o chamou para uma conversa e disse: "Você ganha um bom salário aqui, tem uma carreira e vai se meter em fazer show de veados?" Kelly respondeu: "Vou sim, os rapazes têm talento e isso já está decidido".”

Prestes Filho: Como o roteiro aborda o papel transformador e brincalhão das marchinhas (como Cabeleira do Zezé, Mulata Bossa Nova e Bota a Camisinha) no contexto sociocultural do Brasil passado e presente? Já aconteceu de meios de comunicação afirmarem que as marchinhas do Kelly são homofóbicas, machistas, misoginias ou de valorizarem exageradamente os segmentos LGBT. Muita contradição!

Rogério Marques: De alguma forma, o filme desmonta os exageros atuais, com relação a esse tipo de patrulhamento. Como, por exemplo, na participação da atriz Jane Di Castro, que morreu em outubro de 2020, aproximadamente um ano depois de ter nos dado entrevista. Jane, Rogéria (1943-2017) e outras atrizes como elas sempre foram amigas e, mais que amigas, admiradoras de Kelly.

Prestes Filho: Você acompanha com frequência os festivais nacionais de cinema? Qual o papel desses eventos para a sobrevivência e visibilidade das produções independentes?

Rogério Marques: Acompanho, sim. Esses festivais são tão importantes para o lançamento de novos talentos como foram no passado os festivais de música popular, que lançaram tantos artistas, alguns deles entre nós até hoje. Pena que aqueles festivais acabaram, não sei explicar por que, realmente não entendo.

Prestes Filho: Qual é a expectativa da equipe quanto ao circuito de festivais e às plataformas de exibição assim que o filme estiver concluído?

Rogério Marques: Nossa expectativa é a melhor possível. Temos certeza de que a aceitação do filme vai ser muito boa, até porque o principal na história que estamos contando é a trajetória artística de João Roberto Kelly, um dos grandes nomes da nossa música. Além disso, uma grande pessoa, um ser humano com um coração gigantesco.

    Prestes Filho: Para registrarmos sua trajetória desde as raízes, qual é o nome completo do seu pai e da sua mãe? De que forma a sua convivência familiar influenciou seu interesse pelo jornalismo e pela cultura?

    Rogério Marques: Meu nome completo é Rogério Marques Gomes. Sou filho da piauiense Maria José Marques Gomes, filha de imigrantes libaneses, e do mineiro Diamantino Marques Gomes Filho, conhecido como Marques, filho de um imigrante português que se casou com uma brasileira de Minas Gerais. Meus pais já são falecidos, mas estão diariamente em meus pensamentos. Devo a eles o meu interesse pelo jornalismo, pela cultura e uma visão humanista da vida. Considero importante lutarmos por um mundo mais justo, menos desigual do que este em que vivemos.

    O menino Rogério Marques aos dois anos com o pai, Diamantino Marques Gomes Filho, na casa onde moravam no Rocha

    "Comecei no jornalismo pelas mãos de meu pai, que também era jornalista, revisor do jornal "O Globo". Um grande revisor. Foi ele que conseguiu para mim um estágio na revisão do "Correio da Manhã", um importante jornal da época, isso no turbulento ano de 1968, quando eu tinha 17 anos. Tanto minha mãe como meu pai eram muito musicais, adoravam música e cantavam bem. Graças a eles conheci a obra de nossos grandes cantores e compositores, como Noel Rosa, Dorival Caymmi, Dolores Duran, Ary Barroso, Dalva de Oliveira, Pixinguinha, Cartola, Wilson Batista, Elza Soares e muitos outros. Eu gosto tanto de música e de cantar que no início da adolescência sonhei em ser cantor, em me apresentar em algum programa de calouros, como o de Ary Barroso, um programa muito popular na época. Creio que minha timidez me impediu de seguir esta carreira ou, quem sabe, de levar um gongo no programa do Ary Barroso. Os mais velhos saberão do que estou falando.”

    Prestes Filho: Em quais escolas e colégios você estudou durante a infância e a juventude, e quais memórias marcantes guarda dessa época?

    Rogério Marques: Fiz o jardim de infância na Escola Municipal Pareto, o antigo curso primário na Escola Municipal José Veríssimo Essas duas escolas ficam no bairro do Rocha, no qual eu morava com meus pais e meu irmão mais velho. Completei o curso secundário na Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, no Maracanã. As melhores memórias daquela época estão na minha infância e começo de adolescência, na vila de casas em que eu morava no bairro do Rocha, aos pés da Serra do Engenho Novo, que para nós era, então, apenas "o morro", não sabíamos  o nome.

    Rogério Marques com a saudosa mãe, Maria José Marques Gomes

    "A Serra do Engenho Novo é a divisa natural dos bairros do Rocha, Riachuelo, Sampaio e Engenho Novo com o bairro de Vila Isabel. Adorava as excursões que fazíamos lá em cima, eu e meus amiguinhos. Lá do alto víamos grande parte do subúrbio, do Centro do Rio e um braço da Baía de Guanabara, lá para os lados de Ramos. Naquela época, antes da existência dos túneis Santa Bárbara e Rebouças, os subúrbios ainda tinham ares rurais. O "nosso morro", por exemplo tinha muitos cabritos, e lá em cima ficava o pequeno sítio do "seu" Amadeo, com pequena plantação de cana-de-açúcar. Quando chegávamos lá, nas excursões pelo morro, cansados, ele nos servia caldo de cana, que preparava em uma velha moenda. Eu era muito feliz por morar naquele lugar, para o qual meus pais, que moravam em Laranjeiras com meus avós, se mudaram poucos anos depois do casamento. Eles retornaram à Zona Sul quando eu tinha 18 anos. Para mim, todos naquela vila faziam parte da minha família.”

    Prestes Filho: Em qual universidade você realizou sua formação acadêmica em Jornalismo? Ou foi a vivência nos jornais e TVs que moldou sua visão crítica de mundo e sua postura profissional?

    Rogério Marques: Não tenho formação universitária. Como vários outros profissionais da minha geração, sou do tempo em que a formação jornalística não exigia diploma de curso superior, acontecia na prática, no dia a dia das redações, no convívio com grandes profissionais. Foi assim que se deu a minha formação e obtive meu registro de jornalista profissional. O hábito da leitura, incentivado por meus pais na infância e adolescência, também me ajudou muito ao longo da vida, na minha formação não apenas profissional.

    Rogério Marques foi do PCB nas décadas de 1970 e 1980

    "Devo dizer que sou a favor do diploma para o exercício da profissão e creio que o Supremo Tribunal Federal (STF) errou feio ao decidir pela fim da obrigatoriedade do diploma em 2009. A formação universitária enriquece a formação do jornalista, sem a menor dúvida.”

    Prestes Filho: Qual mensagem você deixaria para a nova geração de jornalistas considerando as trajetórias sua e de seu pai?

    Rogério Marques: O jornalismo é uma profissão importante sob vários aspectos. Levar informação correta ao público, da área científica à política e ao entretenimento, é sem dúvida algo fundamental. Um exemplo recente está no material produzido nas redações, quando da pandemia da Covid-19, combatendo a desinformação criminosa de um certo ex-presidente, hoje presidiário, que procurava menosprezar a importância das vacinas e do uso de máscaras. Outras vezes, os profissionais de empresas jornalísticas se veem pressionados quando os donos dessas empresas, por interesses próprios, defendem golpes, como aconteceu em 1964, contra o presidente João Goulart, e em 2016, contra a presidente Dilma Rousseff, que sofreu impeachment sem ter cometido qualquer crime. Nesses momentos, a consciência dos jornalistas, a defesa da ética e a organização da categoria profissional junto a seus órgãos de classe pode fazer a diferença.

    Jornalistas: Luiz Carlos Prestes Filho e Rogério Marques