Osvaldo Bertolino - Operação Medici
Osvaldo Bertolino

Entrevista Osvaldo Bertolino
Por Luiz Carlos Prestes Filho
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O jornalista, pesquisador e biógrafo Osvaldo Bortolino prepara o lançamento de “Operação Médici – caçada a um ditador implacável”, obra que combina investigação histórica e recursos da literatura para reconstruir um dos períodos mais violentos da ditadura militar brasileira. O projeto propõe uma imersão nos acontecimentos que marcaram a consolidação do regime sob o comando do general Emílio Garrastazu Médici, relacionando os bastidores da repressão política aos grandes movimentos geopolíticos da Guerra Fria. Construído no formato de romance-reportagem, o livro resulta de extensa pesquisa baseada em documentos oficiais, registros governamentais, reportagens da época, correspondências, relatórios internacionais e testemunhos de pessoas que viveram os acontecimentos retratados. A proposta é unir o rigor da apuração jornalística à força narrativa da literatura, oferecendo ao leitor uma visão detalhada dos mecanismos de poder que sustentaram a ditadura. Segundo Bortolino, a obra busca lançar luz sobre o funcionamento do aparato repressivo que atingiu seu auge durante o governo Médici. O autor analisa as conexões entre a política interna brasileira e a estratégia anticomunista internacional da Guerra Fria, além de abordar os processos que contribuíram para a articulação repressiva entre países do Cone Sul, posteriormente associada ao Plano Condor. O projeto também revisita um dos temas mais controversos do período: o chamado "milagre econômico". No livro, o crescimento econômico registrado durante aqueles anos é confrontado com a ampliação da desigualdade social, a concentração de renda e o fortalecimento dos mecanismos de repressão política. A narrativa procura questionar versões idealizadas do período e estimular uma reflexão crítica sobre seus efeitos históricos e sociais. A resistência à ditadura ocupa papel central na obra. Bortolino recupera trajetórias de militantes, dirigentes políticos e organizações que enfrentaram o regime, destacando personagens que se tornaram símbolos da luta democrática e que sofreram perseguição, prisão, tortura ou morte durante os anos de chumbo.

Emílio Garrastazu Médici
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"Mais do que uma reconstituição histórica, Operação Médici – caçada a um ditador implacável procura dialogar com os debates contemporâneos sobre memória, democracia, autoritarismo e desinformação. O autor defende que a compreensão crítica do passado é fundamental para enfrentar discursos revisionistas e fortalecer a cultura democrática no presente. Com uma trajetória marcada pelo jornalismo sindical, pela pesquisa historiográfica e pela produção de biografias de importantes lideranças políticas e sociais brasileiras, Osvaldo Bortolino reafirma, neste novo projeto, seu compromisso com a investigação histórica e a valorização da memória como instrumento de reflexão sobre os desafios do Brasil contemporâneo.” |
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Luiz Carlos Prestes Filho: No livro Operação Médici – caçada a um ditador implacável, você optou pelo romance-reportagem — um gênero híbrido que combina a investigação factual do jornalismo com recursos da literatura. Como foi o desafio de construir diálogos e ambientações em tom de suspense sem perder a precisão histórica que marca seu trabalho?
Osvaldo Bertolino: O livro mescla diálogos e narração autênticos e adaptativos de personagens reais e ficcionais em relação aos fatos. Mergulhei em entrevistas, documentos e relatos de pessoas que viveram durante a ditadura militar para combinar a investigação factual do jornalismo com recursos da literatura. Isso me permitiu captar a linguagem e as nuances da época. Ao invés de retratar figuras históricas apenas como personagens de um livro, busquei entender suas motivações e emoções, o que facilitou a construção de diálogos mais naturais e impactantes. A ambientação foi construída por descrições minuciosas, que ajudaram a transportar o leitor para o contexto histórico. Utilizei referências a lugares, objetos e a atmosfera da época para criar uma realidade vívida. Muitas vezes, inseri elementos fictícios para ilustrar situações verídicas, sempre mantendo a essência das ocorrências históricas. Isso permitiu que o suspense fluísse de acordo com a verdade dos eventos narrados.

Emílio Garrastazu Médici
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"Adotei técnicas de narrativa que mantêm o leitor em suspense. Isso se refletiu na escolha de como e quando revelar informações cruciais. A alternância entre momentos de tensão e de reflexão ajudou a manter um ritmo que prende a atenção, garantindo que o leitor sinta vontade de saber mais com base em eventos reais. Ao final, o equilíbrio entre a precisão histórica e a narrativa envolvente foi fundamental para não apenas informar, mas também emocionar e provocar reflexões sobre um dos períodos mais sombrios da história brasileira. Esse processo foi um exercício desafiador, mas extremamente gratificante.” |
Prestes Filho: O governo de Emílio Garrastazu Médici é considerado o período mais brutal da ditadura militar fascista brasileira. O que a sua pesquisa revelou sobre a figura de Médici e sobre o funcionamento engrenado do aparelho repressivo que ainda não havia sido suficientemente iluminado pela historiografia?
Osvaldo Bertolino: Revelou que foi um governo caracterizado como o auge da repressão durante a ditadura militar, marcada por um forte aparato de violência controle social. A historiografia sobre aquele período ainda enfrenta desafios devido à falta de documentação completa e acessível. Pesquisas recentes têm buscado iluminar a complexidade do aparelho repressivo nessa época, explorando não apenas os atos de violência, mas também as experiências cotidianas das vítimas. O governo de Médici é crucial para entender a dinâmica da repressão no Brasil e suas consequências duradouras. Ele era um militar de carreira, forjado no ninho dos conspiradores da Guerra Fria doutrinados na Escola Superior de Guerra surgida pelo expansionismo anticomunista do imperialismo sob o comando do governo dos Estados Unidos, o cerco à influência do socialismo à época liderado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). O contexto era de militarização da “cortina de ferro”, proclamada pelo então primeiro-ministro britânico Winston Churchill em visita aos Estados Unidos, precedida pelo lançamento das bombas atômicas no Japão e pelo bombardeio de Dresden – cidade alemã no Leste do país na área de influência da União Soviética – que se desdobrou nas guerras genocidas na Coreia e no Vietnã e em banhos de sangue anticomunistas na Indonésia e na Tailândia. Era a política do então presidente dos Estados, Unidos Harry Truman – a chamada “Doutrina Truman” –, que se implantou na América Latina e em outras regiões do planeta na forma de golpes e governos sob controle militar.

Emílio Garrastazu Médici e Richard Nixon
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"Médici foi a síntese de tudo isso, promovendo grupos anticomunistas em outros países, liderando na região a política do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, que adotou o termo “Doutrina Nixon”, baseada na famosa Missão Rockfeller, um relatório do então governador de Nova Iorque, Nelson Rockefeller, que fez um giro pela América Latina, representando o Pentágono e a estratégia golpista de Henry Kissinger, conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos.” |
Prestes Filho: A obra aborda as conexões geopolíticas da ditadura fascista brasileira e as origens da articulação repressiva na América do Sul. Como a "caçada" retratada no livro dialoga com a consolidação da cooperação internacional das ditaduras fascistas no Cone Sul?
Osvaldo Bertolino: O período narrado tem um limite de tempo específico, o ano de 1970, quando o grupo de Médici consolida o seu poder. Essas articulações surgiram no contexto do AI-5, a arma para a imposição da linha dura e da “Doutrina Nixon”. Eram as sementes do Plano Condor, a operação conjugada da repressão no Cone Sul, abrando Brasil, Chile, Argentina, Uruguai e Bolívia. Médici difundia a imagem de líder forte, a ideia de um presidente capaz de impulsionar a economia e conter a “subversão”. Ele representava a vitória da linha dura do golpe de 1964, que consolidou seu poder depois das brigas internas nos governos dos ditadores Humberto Castello Branco e Arthur da Costa e Silva. De sua política surgiu os DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), que se tornaram símbolos da escalada criminosa do que era tratado pelo Pentágono como “guerra suja”, a violação do Direito Internacional dos Conflitos Armados, um conjunto de regras das convenções de Genebra e de Haia. O objetivo era liquidar e desaparecer com lideranças das organizações revolucionárias.
Prestes Filho: O processo de pesquisa e acervos: Para compor aproximadamente 300 páginas de reconstrução histórica minuciosa, quais foram as principais fontes, documentos e testemunhos a que você teve acesso? Houve alguma descoberta documental que o surpreendeu durante a apuração?
Osvaldo Bertolino: Foi uma busca abrangente, que envolveu documentos oficiais, noticiários, correspondências e registros de atos governamentais, além de testemunhos pessoais de figuras-chave da época, como lideranças políticas e militantes da resistência democrática. Jornais e revistas que cobriam os acontecimentos também proporcionaram uma ampla visão dos fatos, obviamente que tudo filtrado e contextualizado. Outra fonte importante são relatórios de organizações internacionais. Há ainda relatos preciosos de pessoas que não eram tão conhecidas, mas que desempenharam papéis cruciais na resistência ou nas operações do governo. A descoberta documental que mais me surpreendeu são as conexões do governo Médici com a “Doutrina Nixon” e como o subterrâneo do Departamento de Estado atuou, organizando bandos de criminosos nos porões das delegacias, no Dops, nas unidades das Forças Armadas, além dos tentáculos do Serviço Nacional de Informações, o monstruoso SNI. Também não deixa de ser surpreendente o envolvimento dos tradicionais grupos da mídia brasileira com esse submundo. A pesquisa histórica é um campo dinâmico. Cada descoberta lança luz sobre aspectos antes desconhecidos. Essa complexidade torna o trabalho de reconstrução histórica uma tarefa desafiadora, mas também extremamente gratificante.

Prestes Filho: A mitologia do "milagre econômico" versus a barbárie: O período Médici costuma ser romantizado por setores saudosistas devido ao ufanismo do "milagre econômico". Como o seu livro desconstrói essa narrativa e expõe a relação direta entre o projeto econômico do regime e o apogeu da violência de Estado?
Osvaldo Bertolino: O “milagre econômico” foi uma farsa, inserida na “Doutrina Nixon” como solução da grave crise que levaria ao rompimento com os tratados de Bretton Woods, a ordem capitalista do pós-Segunda Guerra Mundial, pelo então presidente dos Estados Unidos, estabelecendo o fim do padrão ouro e o surgimento dos petrodólares. O Brasil pegou montanhas de dólares a juros baixíssimos e pagou com juros estratosféricos, mergulhando o país na crise da dívida externa e em seus desdobramentos, até hoje bem visíveis pelos efeitos das políticas neoliberais. Para o público, a mensagem de Médici, alinhada ao slogan Brasil Grande, era de que o país marchava inexoravelmente para a prosperidade, depois do crescimento econômico de 9% em 1969 e previsão de crescimento de 10% em 1970. O ditador prometeu que a “democracia” estaria associada à distribuição de renda de forma mais justa, mas ressalvou que não deixaria de combater a inflação com medidas drásticas, segundo ele motivo de insatisfação popular, anunciando que a plena liberdade política só viria com o fim dos conflitos sociais pela supressão de suas causas, na maior parte de natureza econômica. E encaixou a ressalva: “Pecaria, realmente, contra o senso comum, quem pretendesse distribuir, em proporções cada vez maiores, bens que na mesma razão não cresceram.” Era o modelo que prevaleceu em toda a ditadura, que concentrou renda, gerando uma brutal desigualdade, a ideia de que era preciso primeiro produzir para depois distribuir, ou fazer o bolo crescer para então reparti-lo, conforme explicou o ministro da Fazenda, Delfim Netto. A fórmula ficaria famosa também pelo diagnóstico de Médici de que “a economia vai bem, mas o povo vai mal”. O livro mostra como esse período é frequentemente idealizado por uma narrativa ufanista, desconstruída ao enfatizar que o crescimento econômico não foi acompanhado por um progresso social equitativo, mas, ao contrário, por uma intensificação da desigualdade social e da repressão política. Mostra que, enquanto alguns setores da economia prosperavam, a maioria da população vivia em condições precárias. Desmonta a visão simplista do “milagre econômico” e provoca uma reflexão sobre como as narrativas históricas podem ser manipuladas para legitimar regimes autoritários. Isso instiga o leitor a considerar as complexidades do desenvolvimento econômico em contextos de repressão e desigualdade e levanta uma questão importante: como podemos reavaliar versões históricas em busca de uma compreensão mais equilibrada e crítica dos fenômenos sociais.
Prestes Filho: Você tem uma vasta obra dedicada a biografar líderes da resistência - Maurício Grabois, Pedro Pomar e Carlos Danielli. Como os sujeitos que enfrentaram o regime de Médici aparecem retratados nesta nova obra?
Osvaldo Bertolino: A essência do livro é a denúncia de um período que representou a tentativa de desconstrução do Brasil como país independente, vocacionado para o progresso social com soberania e democracia. É a revelação do lado mais sombrio do projeto das oligarquias, que concentra renda à base de uma brutal exploração do povo, utilizando-se do entreguismo, do saque às riquezas nacionais, do autoritarismo e da violência como método político. Obviamente que na outra face aparece a resistência, legatária das lutas independentistas, abolicionistas e republicanas. Nelas, o Partido Comunista do Brasil, surgido em 1922, tem lugar de destaque. Na ditadura militar, sua atuação histórica marcou também as demais organizações de esquerda, em grande parte ligadas à sua trajetória. Consequentemente, todos que lideraram a resistência ao arbítrio sofreram os efeitos da violência do regime. Grabois e Danielli foram assassinados no período Médici. Assim como Carlos Marighella, Carlos Lamarca e Mário Alves, ícones da história do movimento comunista no Brasil. Pomar em 1976, na Chacina da Lapa, episódio que se liga à Guerrilha do Araguaia, deflagrada em 1972. Muitos outros assassinados, torturados e desaparecidos também vieram da resistência que precedeu o golpe de 1964. O livro procura mostrar, sobretudo, como o antagonismo social no Brasil chegou àquele período de tanta brutalidade e injustiça. Prestes Filho: Ao contrário de outros países da América Latina, o Brasil não puniu judicialmente os agentes do Estado que cometeram crimes de lesa-humanidade durante a ditadura. Na sua avaliação, de que maneira a falta de responsabilização dos algozes daquela época abriu espaço para o ressurgimento da extrema-direita décadas depois?
Osvaldo Bertolino: Aquele período teve impacto significativo na configuração política e social do país nas décadas seguintes. A não punição dos crimes permitiu que a cultura da impunidade se estabelecesse, normalizando comportamentos violentos e autoritários. A ausência de consequências legais para os torturadores e assassinos da ditadura incentivou uma mentalidade de que a violência estatal é aceitável, como se vê com a força do bolsonarismo. A falta de responsabilização possibilitou a relativização dos abusos cometidos, levando a uma revisão histórica que muitas vezes romantiza a ditadura. Essa reescrita pode desviar o foco das atrocidades cometidas, criando espaço para que grupos de extrema direita se apresentem como defensores de uma “ordem” que supostamente foi perdida. A impunidade e a falta de discussões profundas sobre a ditadura permitiram que ideologias extremistas se enraizassem, recrutando seguidores supostamente desiludidos com a democracia. Grupos de extrema-direita frequentemente utilizam o medo da violência e da insegurança para justificar suas propostas. Sem um debate aberto, as novas gerações podem se tornar indiferentes, facilitando a ascensão de discursos extremistas que falam de um “novo começo”. A conjugação desses fatores demonstra como a falta de responsabilização pode ter contribuído para o ressurgimento da extrema direita, criando um ambiente onde a violência e o autoritarismo podem ser legitimados novamente. Essa dinâmica ressalta a importância de um compromisso contínuo com a justiça e a memória histórica para fortalecer a democracia.
Prestes Filho: Por que revisitar os anos Médici hoje é um ato de disputa no presente? De que modo a falsificação histórica e o revisionismo do regime militar servem de combustível para grupos autoritários atuais?
Osvaldo Bertolino: O modo como esse período é lembrado influencia a construção da identidade nacional e da percepção sobre democracia, soberania nacional e direitos humanos. O debate sobre a ditadura e suas consequências reflete a polarização política atual. Grupos que defendem uma visão positiva do regime militar buscam legitimar suas ideias. Há um esforço por parte de alguns grupos para reescrever a história, minimizando ou justificando as atrocidades cometidas. Essa falsificação serve para legitimar práticas autoritárias no presente, criando uma versão de que a repressão era necessária. O revisionismo histórico fornece uma base ideológica para grupos autoritários contemporâneos, que se utilizam de uma visão distorcida do passado para justificar ações e políticas que visam restringir liberdades civis e direitos democráticos.
Prestes Filho: Continuidade e metamorfose do fascismo: Observando a geopolítica global — com o fortalecimento de forças neofascistas e de extrema-direita na Europa, nas Américas e em outras regiões —, quais semelhanças e diferenças você enxerga entre o fascismo clássico do século XX, o autoritarismo da ditadura militar brasileira e as novas manifestações do extremismo no século XXI?
Osvaldo Bertolino: A gente vê nitidamente um fio histórico que perpassa e une cada etapa da luta política da direita contra o avanço dos projetos da esquerda, democráticos, progressistas e de autodeterminação dos povos. São campos antagônicos, que se radicalizam de um lado ou de outro conforme fatores conjunturais. Em momentos de agudização da crise do capitalismo – e são vários desde o surgimento do imperialismo, a monopolização do capital iniciada no final do século XIX –, essa radicalização se manifesta. Surge, assim, essas organizações de extrema direita, nominadas de diferentes formas, mas com a mesma ideologia. A forma mais conhecida é o nazifascismo, com a derivação de fascismo, neofascismo ou protofascismo. A ditadura militar não se autodenominava fascista, mas a resistência democracia deu a ela esse perfil. O mesmo ocorre com os grupos ditos neofascistas contemporâneos. São fascistas mesmo, que tentam silenciar os oponentes com ameaças, ataques a jornalistas e políticas de deslegitimação. Apresentam-se como salvadora do povo contra a “corrupção” e a ineficiência do governo civil. Frequentemente se posicionam como “fora do sistema”, prometendo mudança radical contra “elites corruptas”, explorando intensivamente as redes sociais, utilizando algoritmos e outros recursos para alcançar e mobilizar apoiadores. A observação das dinâmicas atuais revela que, embora o fascismo clássico e o autoritarismo militar compartilhem características fundamentais com as novas manifestações do extremismo, as diferenças em contexto e tecnologia são significativas. O desafio contemporâneo envolve não apenas a identificação dessas semelhanças e diferenças, mas também a formulação de estratégias eficazes para enfrentá-las.
Prestes Filho: O seu trabalho analisa as raízes do terrorismo anticomunista na América Latina durante a Guerra Fria. Como o fantasma do "anticomunismo" continua sendo manipulado pela extrema-direita contemporânea para atacar direitos sociais e enfraquecer a democracia?
Osvaldo Bertolino: É o histórico fantasma político e ideológico da direita. O anticomunismo, em suas diferentes formas, vem do Manifesto do Partido Comunista de Kal Marx e Friedrich Engels, publicado em 1848. Eles abrem o texto, considerado o primeiro documento programático do comunismo, falando disso. O “comunismo” é descrito como uma ameaça permanente, propagado de forma abstrata e exagerada, para produzir medo e justificar ataques a direitos sociais e às instituições democráticas. Durante a Guerra Fria, essa lógica foi central na América Latina. A defesa da “ordem” e o combate ao “comunismo” serviram para legitimar golpes de Estado, perseguições políticas, censura, tortura e a destruição de organizações populares. O terrorismo de Estado foi apresentado como uma suposta necessidade para salvar a sociedade de uma ameaça interna. Hoje, o contexto é diferente, mas o mecanismo de mobilização do medo guarda semelhanças. A extrema direita frequentemente chama de “comunismo” políticas de redução da desigualdade, defesa dos direitos trabalhistas, fortalecimento dos serviços públicos, movimentos sociais, universidades, políticas de inclusão e até medidas elementares de proteção ambiental. O objetivo é deslocar o debate: em vez de discutir concretamente quem ganha e quem perde com determinada política, cria-se um inimigo ideológico que precisa ser combatido. Essa estratégia também funciona pela desinformação. Ao transformar adversários políticos em “comunistas”, “inimigos da família”, “inimigos da liberdade” ou ameaças à nação, procura-se deslegitimar o pluralismo democrático. A consequência é perigosa: direitos que deveriam ser considerados conquistas da cidadania passam a ser tratados como privilégios de um inimigo político. Há, portanto, uma continuidade importante: o anticomunismo deixa de ser apenas uma posição ideológica e passa a funcionar como instrumento de poder. Ele cria medo, simplifica conflitos sociais complexos e oferece uma justificativa para a intolerância. Quando esse discurso avança para a defesa da eliminação do adversário, do enfraquecimento das instituições, da censura ou da violência política, estamos diante de algo que ultrapassa a disputa normal entre correntes ideológicas.

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"A principal lição histórica é que a democracia não se enfraquece apenas quando alguém declara abertamente que pretende destruí-la. Ela também pode ser corroída quando o medo é utilizado para convencer a sociedade de que determinados cidadãos não têm direito à voz, à organização política ou aos direitos sociais. Por isso, compreender as raízes históricas do terrorismo anticomunista é também compreender como velhos mecanismos de fabricação do inimigo podem adquirir novas roupagens no presente” |
Prestes Filho: Diante de episódios recentes de tentativas de golpe e ataques violentos às instituições no Brasil e no exterior (como o 6 de janeiro nos EUA e o 8 de janeiro no Brasil), você considera que o fascismo atual atua por dentro da legalidade democrática para destruí-la?
Osvaldo Bertolino: Sim. Eu considero que uma das características mais perigosas do fascismo contemporâneo é justamente sua capacidade de atuar dentro das próprias estruturas da democracia para, progressivamente, esvaziá-las e destruí-las. Os episódios de 6 de janeiro nos Estados Unidos e de 8 de janeiro no Brasil são expressões diferentes de um mesmo fenômeno: a recusa dos resultados e das regras do jogo democrático quando eles deixam de favorecer determinados projetos políticos. Mas o problema não começa necessariamente com a invasão de um prédio público ou com a violência nas ruas. Antes disso, existe um processo de corrosão das instituições, de deslegitimação das eleições, de ataque à imprensa, à ciência, às universidades, aos movimentos sociais e aos direitos humanos. O fascismo contemporâneo também aprendeu a utilizar mecanismos perfeitamente legais — eleições, parlamentos, redes sociais, partidos e discursos públicos — para disseminar valores autoritários. A legalidade, nesse caso, pode ser instrumentalizada como uma ponte para a sua própria destruição. O objetivo não é necessariamente abolir a democracia de uma só vez, mas esvaziá-la por dentro: enfraquecer a separação de poderes, transformar adversários políticos em inimigos, estimular a intolerância e apresentar instituições democráticas como obstáculos a serem eliminados. Por isso, é importante distinguir democracia de simples formalidade eleitoral. Democracia não é apenas votar. É aceitar o resultado do voto, respeitar as instituições, garantir direitos e liberdades, reconhecer a legitimidade do adversário e preservar as condições para que a disputa política continue existindo. É justamente aí que reside o perigo: quando a democracia é utilizada para eleger forças que passam a trabalhar sistematicamente para limitar a própria democracia. Defender o regime democrático, portanto, não significa apenas defender eleições; significa defender as instituições, os direitos sociais, a liberdade de expressão, a pluralidade política e a capacidade da sociedade de organizar-se e disputar os rumos do Estado.

Emílio Garrastazu Médici, de capitão da Revolução de 1930 a ditator, em 1969
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"O fascismo não precisa necessariamente chegar ao poder anunciando que pretende acabar com a democracia. Uma de suas estratégias mais eficazes é convencer parcelas da sociedade de que, para “salvar” a democracia, seria necessário destruir justamente os mecanismos que a sustentam.” |
Prestes Filho: Se na época de Médici a repressão utilizava a censura prévia e os porões da tortura, hoje o fascismo se prolifere através de algoritmos, redes sociais e redes de desinformação. Como o jornalismo investigativo pode combater essa nova engrenagem de manipulação de massas?
Osvaldo Bertolino: Se na época de Médici a repressão utilizava a censura prévia, a propaganda oficial e os porões da tortura, hoje o autoritarismo dispõe de ferramentas mais sofisticadas: algoritmos, redes sociais, disparos em massa, manipulação de imagens e vídeos e redes de desinformação capazes de atingir milhões de pessoas em poucos minutos. Nesse cenário, o jornalismo investigativo tem uma função ainda mais estratégica. Não basta desmentir uma mentira depois que ela viralizou. É preciso investigar quem produz a desinformação, quem financia, quem distribui, quais interesses políticos e econômicos estão por trás dela e como os algoritmos ajudam a amplificá-la. O jornalista precisa recuperar uma função essencial: revelar aquilo que os poderosos querem esconder. Isso significa cruzar documentos, dados públicos, registros financeiros, decisões judiciais, redes de empresas e conexões políticas, além de verificar rigorosamente imagens, vídeos e informações que circulam nas plataformas digitais. Há também uma disputa pela narrativa. A extrema-direita contemporânea frequentemente transforma fatos isolados em histórias capazes de provocar medo, ressentimento e ódio. O jornalismo precisa responder com fatos, mas também com contexto e capacidade de explicar a realidade de maneira compreensível para a sociedade. Por isso, combater essa nova engrenagem de manipulação de massas exige investigação, transparência, educação midiática e independência editorial. Se a censura dos anos de chumbo tentava impedir que determinadas informações chegassem ao público, a desinformação contemporânea muitas vezes faz o contrário: despeja uma quantidade gigantesca de conteúdos falsos ou manipulados para impedir que as pessoas consigam distinguir o fato da mentira.

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"A batalha, portanto, mudou de forma, mas preserva uma questão fundamental: quem controla a informação controla parte importante da disputa pelo poder. O jornalismo investigativo precisa estar do lado oposto dessa lógica — não como instrumento de propaganda, mas como uma ferramenta de fiscalização democrática, capaz de iluminar os mecanismos ocultos do poder e devolver ao cidadão o direito de formar sua própria opinião com base em fatos.” |
Prestes Filho: O dever da memória e a pedagogia antifascista: Qual deve ser o papel dos historiadores, biógrafos e jornalistas em um momento histórico de fragilização dos valores democráticos? A literatura e a escrita de não ficção podem servir como ferramentas de prevenção contra a barbárie?
Osvaldo Bertolino: O dever da memória não é apenas preservar o passado; é impedir que a sociedade perca a capacidade de reconhecer, no presente, os sinais que podem conduzi-la novamente à barbárie. Em momentos de fragilização dos valores democráticos, historiadores, biógrafos e jornalistas têm uma responsabilidade ainda maior: investigar, documentar e contextualizar os acontecimentos, enfrentando o negacionismo, a falsificação histórica e as tentativas de transformar vítimas em culpados e algozes em heróis. O historiador deve recuperar os processos que explicam como a democracia pode ser corroída. O biógrafo, ao reconstruir trajetórias individuais, pode revelar as escolhas, interesses, contradições e responsabilidades de personagens que participaram desses processos. O jornalista tem o dever de investigar o poder no presente, confrontar versões oficiais com evidências e tornar públicos fatos que determinados grupos prefeririam manter ocultos. São atividades diferentes, mas complementares: todas dependem do compromisso com a verdade factual, com as fontes e com o direito da sociedade à informação. A literatura e a escrita de não ficção também podem desempenhar um papel decisivo nessa pedagogia antifascista. Um documento apresenta evidências; uma narrativa pode fazer o leitor compreender a dimensão humana dessas evidências. Ao reconstruir histórias de perseguição, censura, tortura, resistência e solidariedade, a literatura ajuda a transformar a memória histórica em experiência compartilhada. Ela permite que novas gerações compreendam que a barbárie não começa necessariamente com grandes acontecimentos: muitas vezes começa com a naturalização da mentira, do preconceito, da violência política e da desumanização do outro. Por isso, lembrar é também educar. Uma sociedade que conhece sua história está mais preparada para identificar discursos autoritários, manipulações e projetos de destruição das instituições democráticas. A pedagogia antifascista não significa apenas denunciar o fascismo depois que ele se manifesta plenamente; significa criar instrumentos culturais e intelectuais para reconhecê-lo antes que se torne uma força dominante. Nesse sentido, escrever sobre o passado é uma forma de intervir no presente. O livro, a reportagem, a biografia e a investigação histórica podem funcionar como trincheiras contra o esquecimento e contra a mentira. Não são suficientes, sozinhos, para garantir a democracia, mas ajudam a construir cidadãos capazes de perguntar, duvidar, verificar e resistir.

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"O dever da memória, portanto, é inseparável do dever de defender a democracia. Conhecer os crimes do autoritarismo não deve produzir apenas indignação diante do passado, mas vigilância diante do presente. Como ensinamento histórico, talvez essa seja uma das maiores contribuições da escrita: mostrar que a barbárie não é inevitável e que, diante dela, a memória, a verdade e a consciência crítica também podem ser formas de resistência.” |
Prestes Filho: Com uma carreira marcada pelo jornalismo sindical, pela pesquisa historiográfica e pela biografia de lutadores sociais, de que modo a sua trajetória pessoal e profissional moldou a sua visão sobre o avanço do fascismo no Brasil e no mundo?
Osvaldo Bertolino: Minha trajetória no jornalismo sindical, na pesquisa historiográfica e na escrita de biografias de lutadores sociais moldou profundamente a minha compreensão sobre o avanço do fascismo. O contato com trabalhadores, dirigentes sindicais, militantes e personagens que enfrentaram a ditadura ensinou-me que a democracia não é uma conquista definitiva: ela precisa ser defendida permanentemente. O jornalismo sindical me colocou em contato direto com a realidade concreta da classe trabalhadora — suas lutas, reivindicações, derrotas e conquistas. A pesquisa histórica, por sua vez, mostrou-me que os fenômenos políticos não surgem do nada. O autoritarismo, o anticomunismo, a intolerância e a violência política possuem raízes históricas e podem reaparecer sob novas formas quando encontram terreno social favorável. Ao estudar e biografar aqueles que enfrentaram a repressão, compreendi também a importância dos indivíduos que resistem mesmo quando as circunstâncias parecem adversas. Suas histórias revelam que a barbárie não começa necessariamente com a violência aberta. Ela pode começar com a desumanização do adversário, com a mentira transformada em verdade, com o desprezo pelas instituições e com a naturalização da intolerância. É por isso que vejo o fascismo contemporâneo como um fenômeno que precisa ser enfrentado também no campo da informação, da memória e da cultura. Hoje, diferentemente das décadas de ditadura, a propaganda autoritária pode circular em velocidade gigantesca pelas redes sociais, alimentada por algoritmos, desinformação e discursos de ódio. A tecnologia mudou, mas determinados mecanismos de manipulação permanecem. Minha trajetória profissional reforçou em mim uma convicção: conhecer o passado é uma forma de intervir no presente. A história não deve servir apenas para registrar o que aconteceu, mas para identificar os sinais de alerta que antecedem as tragédias. Jornalismo, historiografia e biografia podem cumprir esse papel ao recuperar vozes silenciadas, desmontar falsificações e mostrar que direitos democráticos foram conquistados com muita luta. Por isso, vejo a escrita como uma forma de resistência. Contar a história dos que lutaram contra a opressão é também afirmar que a democracia, a liberdade e a dignidade humana não podem ser tratadas como valores secundários. A memória, quando transformada em consciência crítica, torna-se uma espécie de vacina contra a repetição da barbárie.
Prestes Filho: Olhando para os exemplos de resistência que você pesquisou ao longo de décadas e para o panorama atual de disputa política, onde você enxerga as principais forças e caminhos para conter a onda fascista internacional?
Osvaldo Bertolino: Eu diria que a primeira força é a própria sociedade organizada. O fascismo cresce quando encontra medo, desinformação, desesperança e instituições fragilizadas. Mas ele encontra limites quando trabalhadores, movimentos sociais, sindicatos, partidos democráticos, universidades, jornalistas, artistas e cidadãos comuns se reconhecem como parte de uma mesma luta em defesa da democracia. A história demonstra também que a resistência não pode ser apenas uma reação aos golpes consumados. É preciso disputar valores, ideias e consciências antes que o autoritarismo se transforme em senso comum. O fascismo contemporâneo procura apresentar a violência como solução, o preconceito como liberdade de expressão e o inimigo imaginário como responsável por todas as frustrações sociais. Combater isso exige informação, educação política e memória histórica. Vejo, portanto, três frentes fundamentais. A primeira é a defesa intransigente das instituições democráticas e do Estado de Direito. A segunda é a reconstrução de uma cultura de solidariedade, capaz de enfrentar as desigualdades sociais que alimentam o ressentimento e a manipulação política. E a terceira é a disputa pelo espaço da informação: precisamos de um jornalismo independente, de pesquisa histórica rigorosa e de uma educação capaz de ensinar as pessoas a identificar a mentira, a manipulação e o discurso de ódio. Mas há algo ainda mais profundo: não podemos combater o fascismo apenas dizendo o que ele é. Precisamos mostrar que existe uma alternativa de sociedade. A democracia precisa ser associada à dignidade, ao trabalho, aos direitos sociais, à soberania nacional, à liberdade e à possibilidade concreta de uma vida melhor. As grandes experiências de resistência que pesquisei ao longo das décadas mostram que nenhum avanço autoritário é inevitável. Pessoas aparentemente frágeis, quando organizadas e conscientes de sua força coletiva, podem enfrentar estruturas poderosas. É essa memória que precisamos recuperar. Por isso, vejo a principal força antifascista na capacidade de unir memória e ação, história e presente, informação e organização. A onda fascista internacional pode ser contida se a democracia deixar de ser apenas uma palavra institucional e voltar a ser uma prática cotidiana de solidariedade, participação e defesa dos direitos humanos.
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"No fundo, a escolha continua sendo civilizatória: entre a política baseada no medo e no ódio e aquela baseada na esperança, na liberdade e na solidariedade. A história já mostrou onde cada uma dessas escolhas pode nos levar.” |
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Luiz Carlos Prestes Filho é jornalista



