Xeque-Mate: A Poesia em um Diário

Xeque-Mate: A Poesia em um Diário

Xeque-Mate: a poesia em um diário

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Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

Publicado pela Editora Mosaico, "Xeque-Mate", de Ivana Andrés, é uma obra que revela a sensibilidade de uma autora cuja atividade profissional está ligada às artes plásticas. Essa relação com as artes encontra na escrita outra forma de expressão, na qual a palavra se transforma em instrumento de observação, reflexão e registro das experiências humanas.

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"O livro pode ser compreendido como um diário poético, construído a partir de anotações que variam conforme o estado de espírito da autora e as informações, os acontecimentos e as circunstâncias que atravessam sua vida. São registros afetivos, familiares, políticos e ideológicos, nos quais a experiência individual se encontra com as inquietações coletivas. Ivana escreve sobre aquilo que a toca, a incomoda, a emociona ou a leva a questionar a realidade ao seu redor.”

Em determinados momentos, a autora volta seu olhar para o meio ambiente, revelando preocupação com a preservação da natureza. Merecem destaque os quatro poemas dedicados à Amazônia, território que representa não apenas uma riqueza natural incomparável, mas também um patrimônio humano e cultural cuja defesa exige consciência e responsabilidade. Nesses textos, a poesia ultrapassa os limites da intimidade e se aproxima de uma questão que diz respeito ao destino de todos nós.

Obra de Ivana Andrés

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"Outra temática fundamental que atravessa as três fases do livro (O Meu Dragão, Xeque-Mate e Retiro-me) é o papel da mulher na sociedade contemporânea. A condição feminina, suas contradições, seus enfrentamentos e sua busca por espaço e autonomia aparecem como uma linha de força que percorre a obra. São três momentos que, embora distintos, se articulam na construção de um olhar sensível sobre a mulher e sua presença no mundo.”

A lírica de Ivana Andrés não pretende se revestir de erudição nem estabelecer uma distância entre a autora e o leitor. Sua escrita procura a palavra compreensível, aquela que pode ser acolhida sem a necessidade de decifrar construções excessivamente rebuscadas. A simplicidade da linguagem não elimina a profundidade. Ao contrário, permite que os temas se aproximem da experiência cotidiana e encontrem ressonância na sensibilidade de quem lê. É na página 141 que o livro apresenta uma das interrogações mais instigantes de sua trajetória: “Tudo enfim é um milagre? / Ou milagres não existem”. A pergunta permanece depois que a página é virada. Afinal, o que é um milagre? Seria apenas uma intervenção extraordinária, uma ruptura das leis que conhecemos?

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"Penso que os milagres são necessários para transformar a alma humana, curar feridas, proporcionar discernimento e nos permitir testemunhar a verdade, mesmo quando ela se apresenta em sua face mais dura. Há situações em que um milagre significa ser libertado da morte e receber uma nova oportunidade: tempo para rever atitudes, aperfeiçoar o próprio caráter e estender a mão àqueles que necessitam de ajuda. A vida que nos é concedida novamente não deveria ser apenas uma continuidade da existência, mas uma possibilidade de nos tornarmos melhores.”

Entretanto, nem tudo aquilo que recebe o nome de milagre merece ser reconhecido como tal. É preciso observar os frutos que produz. Os verdadeiros milagres, quando compreendidos, conduzem à paz interior e à humildade. Não alimentam a vaidade nem transformam a experiência extraordinária em instrumento de superioridade sobre os outros. Os falsos milagres, por sua vez, podem produzir exaltação e uma sensação momentânea de poder, seguidas de ansiedade. Falta-lhes a transformação profunda que permanece quando o entusiasmo inicial desaparece. Por isso, acredito que a humildade seja um dos sinais mais importantes para discernir a autenticidade de um milagre. O milagre não engrandece o ego. Não nos coloca acima dos outros: torna-nos mais conscientes de nossas limitações e mais disponíveis para compreender a dor alheia. A humildade, nesse sentido, não é fraqueza, mas a capacidade de reconhecer a verdade sobre nós mesmos. É sob essa perspectiva que "Xeque-Mate" adquire um significado especial. A leitura não se encerra com a última página, pois algumas perguntas continuam trabalhando silenciosamente dentro do leitor. Ao reunir sentimentos, memórias, inquietações sociais e reflexões políticas, Ivana Andrés nos convida a olhar para o mundo e, sobretudo, para nós mesmos.

Obra de Ivana Andrés

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"O título Xeque-Mate sugere o instante em que somos confrontados com uma posição decisiva, na qual já não basta observar o tabuleiro: é preciso reconhecer as consequências de nossos movimentos. Talvez a verdadeira partida proposta pelo livro não seja aquela que travamos contra os outros, mas a que acontece em nosso interior, entre orgulho e consciência.”

Ao final, fica a impressão de que o maior milagre não consiste necessariamente em escapar de uma circunstância difícil, mas em permitir que ela nos transforme. E se a poesia tem o poder de despertar essa consciência, então sua contribuição já é significativa. "Xeque-Mate", de Ivana Andrés, deixa-nos diante de uma reflexão que ultrapassa a literatura: a de que a verdadeira grandeza humana não está em exibir poderes extraordinários, mas em aprender a ser humilde. Talvez seja esse o milagre que permanece depois da leitura: descobrir que, diante das complexidades da vida, a humildade não representa o fim de uma partida, mas o começo de uma transformação interior.

Livro "Xeque-Mate"

Editora Mosaico Produção Editorial

mosaicoeditorial@gmail.com

Belo Horizonte - Minas Gerais

159 páginas

Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"