Livro como Objeto, Linguagem e Descoberta
Fotograma de "O Homem e a Camêra" de Dziga Vertov, 1929 (página 23 do livro)
Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
![]()
Há livros que se oferecem à leitura; outros, antes mesmo de revelar suas palavras, já nos convidam a experimentar suas formas. "inda N’Ágóra", de Naila Rachid, publicado pela Editora Circuito, pertence a essa segunda categoria. A obra se apresenta não apenas como um conjunto de poemas, mas como um objeto artístico cuja concepção gráfica participa ativamente da construção de sentidos.

Ilustração da página 130: Ricardo Becker, Lupas e Correntes Metálicas, 2006
| “ |
"Desde a capa, a combinação da tipologia das letras com o formato circular provoca indagações sobre o conteúdo. A disposição dos elementos gráficos sugere movimento, descontinuidade e multiplicidade, como se a própria materialidade do livro anunciasse uma linguagem que não se deixará apreender por caminhos convencionais. Parabéns à autora do projeto gráfico, Valéria Naslausky, pela concepção visual que estabelece um diálogo instigante com a escrita.” |
As intervenções gráficas reforçam essa proposta. Fotografias, desenhos, diferentes tipologias de letras e diagramas não funcionam como simples adornos: integram a arquitetura da obra e conferem exatidão ao projeto editorial. Texto e imagem se atravessam, complementam-se e, por vezes, parecem disputar o espaço da página. A obra está dividida em quatro partes, cujos títulos já revelam a disposição da autora para desarticular as convenções da linguagem: “aToVls-À-ViS”; “FátuO-AT”; “doPalcOàPàginaAaoPicAdeiRO”; “atOiNfim”. Essa divisão, entretanto, parece-me predominantemente formal. Os poemas de todas as partes estão entrelaçados por uma mesma pulsação, pela erudição declarada da autora e por uma incessante investigação das possibilidades da palavra. As fronteiras entre os segmentos se tornam porosas.

Ilustração da página 86: Cristina Salgado, Sem Título, 2002
| “ |
"A leitura exige disponibilidade e repertório. Vertov, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Afonso Henriques Neto, Antonin Artaud, Paulo Leminski, Antonio Fraga, Rimbaud, Duchamp, Pollock, Cortázar, Khlébnikov e Murilo Mendes, entre muitos outros, compõem uma constelação de referências que abraça diferentes campos da arte. Não se trata apenas de reconhecer nomes, mas de perceber como essas presenças participam de um universo no qual poesia, cinema, pintura, pensamento e experimentação verbal se encontram.” |
Nas páginas de "inda N’Ágóra", centenas de palavras inventadas desafiam o vocabulário habitual e convidam o leitor a descobrir novos sons, ritmos e significados. A palavra deixa de ser somente veículo de comunicação para se tornar matéria plástica, sonora e visual. É como se cada invenção abrisse uma fresta na língua, permitindo que o sentido surgisse não apenas daquilo que se compreende imediatamente, mas também daquilo que nos desconcerta. Nesse aspecto, o livro oferece uma resistência à inteligência artificial padronizada, especialmente aos mecanismos que tendem a reproduzir fórmulas, regularidades e associações previsíveis. A escrita de Naila Rachid aposta na singularidade, na fricção e no desvio. Em vez de conduzir o leitor a respostas prontas, multiplica as possibilidades de interpretação. Seu território é justamente aquele em que a linguagem escapa à domesticação. Na página 47, a autora escreve: “viço-versa / não para /à toda decisivo / radar / ser o mundo entorno / abala / inconfidentes verdades”. O fragmento condensa parte dessa poética: o jogo sonoro, a instabilidade dos sentidos e a disposição de colocar em movimento aquilo que parecia estabelecido. A palavra se desdobra, a frase interrompe seu próprio curso e a realidade, deixa de ser uma superfície estável. Assim, ela vai “serpeardente” de uma página para outra, deslizando por entre as palavras fazendo da leitura uma experiência de contínua transformação.

Ilustração da página 40: Luiz Alphonsus "Corte em Montanha", 1971
| “ |
"Nas páginas 131 a 133, encontramos um verdadeiro caleidoscópio da efemeridade. Datas de nascimento e morte daqueles que a autora leu, estudou e sentiu compõem uma espécie de cartografia afetiva e intelectual. Mais do que uma relação de nomes, essas páginas expõem um cosmos particular, tecido pelas presenças que participaram de sua formação e de sua sensibilidade. Vida, obra, memória e desaparecimento se aproximam, revelando que a leitura é uma maneira de estabelecer vínculos.” |
A citação de Samuel Beckett, na página 118, parece iluminar a experiência proposta pelo livro: “o fim está no começo o no entanto continua-se”. A frase me fez confirmar que a divisão em quatro partes é mesmo formalismo. O começo já contém o fim, o fim remete ao começo, e a leitura prossegue, sem que seja possível determinar com precisão onde termina uma ideia e começa outra. A estrutura do livro obedece menos a uma organização linear do que a um movimento circular, de retomadas, desvios e permanências. Também me tocou o retrato da paisagem da Chapada dos Veadeiros, nas páginas 114 a 116. Tive a oportunidade de visitar inúmeras vezes a região e acreditava conhecer suas particularidades. Entretanto, a escrita da autora me apresentou outro ângulo, uma percepção que desloca o olhar habitual e revela dimensões menos evidentes da paisagem. Naila escreve que a região “escancara aos mil são os lábios de tormento um dulçor contra-relevo obsceno”. A imagem verbal não procura simplesmente reproduzir a natureza. A paisagem deixa de ser cenário contemplativo e se transforma em estranhamento. O que reconheço geograficamente ganha outra existência pela linguagem. Eis uma das qualidades da poesia: mostrar-nos novamente aquilo que julgávamos conhecer. E há, ainda, um contraponto fundamental à erudição que atravessa a obra. Ao trazer Severino Pinto, cantador nordestino, Naila Rachid demonstra que o conhecimento não se limita às referências consagradas pela tradição intelectual. A sabedoria popular também possui sua profundidade, seus enigmas e sua capacidade de traduzir a experiência humana em imagens de extraordinária precisão: “eu comparo nossa vida / com aquela dobra do esse / é uma ponta que sobe / e outra ponta que desce / e a volta que tem no meio / nem todo mundo conhece”. Nesses versos, a existência é figurada por uma curva: subida, descida e uma dobra intermediária cujo segredo nem todos conhecem. A simplicidade aparente da composição abriga uma compreensão dos movimentos da vida, de suas alternâncias e de seus mistérios. O cantador nos lembra que a sabedoria pode nascer tanto da investigação intelectual quanto da experiência acumulada, da oralidade e da observação sensível do mundo.

Página 132
| “ |
"Essa presença é particularmente significativa porque impede que a multiplicidade de referências eruditas se transforme em um sistema fechado. Em "inda N’Ágóra", a cultura não deveria ser entendida como uma hierarquia rígida, mas como um campo de encontros, no qual diferentes formas de conhecimento podem dialogar com a sabedoria.” |
Ao terminar a leitura, permanece a impressão de que o livro não se deixa encerrar em uma interpretação definitiva. Sua força reside justamente na abertura, na instabilidade e na capacidade de produzir novas relações entre palavras, imagens, memórias e referências. O projeto gráfico de Valéria Naslausky e a escrita experimental de Naila Rachid trabalham em sintonia para fazer da publicação um objeto artístico que pede não apenas leitura, mas observação, escuta e participação."inda N’Ágóra" é, assim, um convite a abandonar por instantes os caminhos conhecidos, aceitar o desconcerto e reconhecer que a linguagem guarda territórios por explorar. Entre a invenção verbal e a memória cultural, Naila Rachid constrói um universo próprio, no qual o fim pode estar no começo e, mesmo assim, a leitura continua.
![]()

Livro "
Editora Circuito
Rio de Janeiro - RJ
143 páginas
![]()

Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"



