A Trajetória e a Visão de Manoel J. de Souza Neto
Manoel J de Souza Neto - Reflexões sobre o caminho Percorrido

Entrevista Manoel J. de Souza Neto
Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
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Há mais de duas décadas, quando nossas trajetórias se cruzaram, descobri em Manoel J. de Souza Neto um espírito raro. Nossa amizade foi temperadas pela teimosia da pesquisa independente e pela recusa do pensamento único. Historiador, formulador técnico e guardião da memória, Manoel é, sobretudo, um pensador. Em tempos polarização cega, ele busca a da imparcialidade rigorosa na análise das políticas públicas. Sua leitura sobre o fomento cultural no Brasil não afaga governos nem satisfaz militâncias. Com dados auditados do Tribunal de Contas da União (TCU) e levantamentos minuciosos do seu Observatório da Cultura do Brasil, Manoel desnuda as vísceras de um sistema de incentivo que nasceu liberal e perpetua assimetrias. Ele demonstra, sem rodeios, como mecanismos como a Lei Rouanet concentram quase 80% dos seus recursos no Sudeste e deixam as periferias e os rincões do país à margem. Para ele, criticar as distorções do fomento não é atacar os artistas, estes trabalhadores precarizados, mas sim exigir que o Estado cumpra os artigos 215 e 216 da Constituição. Por se recusar a vestir o colete das torcidas organizadas, foi chamado de "bolsonarista" por liberais. Ao defender o financiamento público, de "comunista" por dogmáticos ao escancarar a exclusão das favelas. Manteve-se altivo e sereno. Essa mesma independência intelectual o credenciou como um dos pioneiros e principais analistas da Guerra Híbrida no Brasil. Muito antes de o tema virar jargão acadêmico ou manchete de jornal, Manoel enxergou nas fissuras da cibercultura e nas Jornadas de Junho de 2013 o surgimento de uma nova tecnologia política. Investigando de perto, catalogando mais de meio milhão de documentos e rastreando o financiamento de think tanks estrangeiros, ele desvendou como algoritmos, Operações Psicológicas e o lawfare foram articulados para fraturar a soberania nacional, manipular o clima psicossocial do povo e mercantilizar a subjetividade humana. Sua tese incômoda: a guerra contemporânea não é travada apenas em quartéis ou fronteiras, mas no front invisível dos nossos próprios dispositivos, onde o imperialismo de dados e as grandes big techs ditam o que devemos consumir, pensar e sentir. Essa postura de denunciar as engrenagens da dominação cultural e tecnológica teve custos altos, traduzidos em incompreensões. Contudo, para um homem temperado na ética do Kung Fu e na disciplina transmitida pelo Mestre Lee Chung Deh, o combate nunca foi sobre vencer, mas sobre dominar a si mesmo. Manoel é a síntese do artesão intelectual e do praticante marcial. Ele transita com a mesma precisão entre os manuais de Sun Tzu, a psicanálise de Lacan, a teoria dos jogos e a marcenaria autoral em seu ateliê. Na madeira bruta, no preparo paciente das conservas gastronômicas e na salvaguarda de mais de 400 mil documentos na Fonoteca da Música Paranaense, ele pratica a mesma arte: a de preservar o essencial. Fundador do Museu do Som Independente e autor de obras referenciais para a sociologia da arte brasileira, Manoel nunca buscou o aplauso do mercado nem os cargos. Sua trajetória reflete o ideal do "faça você mesmo", uma resistência viva diante do avanço predatório das máquinas e da inteligência artificial, que ameaça eclipsar a sensibilidade e a autoria do ser humano. Como pai, enxerga no amor a única salvação possível contra a barbárie hiperconectada, ensinando às filhas que a história e o conhecimento crítico não servem para cultuar o passado, mas sim como ferramentas inegociáveis de liberdade.
Ao olhar para essas duas décadas de convivência, vejo em Manoel J. de Souza Neto o retrato do intelectual orgânico.

Manoel de Souza Neto é marceneiro... também das palavras
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"Num Brasil sufocado pela superficialidade das narrativas, sua voz abre caminho para quem deseja compreender as reais dinâmicas do poder, da cultura e da soberania. É uma honra e um privilégio caminhar ao lado de um pensador que transforma a indignação em pesquisa científica e o rigor técnico em compromisso social. Manoel nos ensina que a verdadeira resistência cultural não se faz com gritaria ou subserviência ideológica, mas com trabalho e preservação da memória.” |
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Prestes Filho: Manoel, sua trajetória de pesquisa está profundamente ancorada na riqueza cultural do Paraná. Como você analisa a contribuição da música produzida no estado para a consolidação da identidade musical brasileira ao longo das últimas décadas?
Manoel: A pesquisa da cena musical independente e underground local foi a minha formação pessoal, ética, acadêmica, de lutas e causas sociais, antes dos cursos, estudos e da formação acadêmica. Na adolescência, assumi essa proposta. Envolvi-me rapidamente com a produção da cena e, muito novo, aos 15 anos já realizava festas e aos 18 anos já produzia shows de bandas autorais. Produzi discos, programas de rádio, fanzines e encontros para debater o cenário. E, com 21 anos de idade, já dava entrevistas como referência no assunto. Hoje, passadas mais de três décadas, percebo o quanto eu pouco sabia, já que era um ambiente quase inexplorado, mas também o quanto esse tema de pesquisa difícil moldaria minha personalidade e meus valores. A música paranaense, essa desconhecida do Brasil e do mundo, é também, devido aos processos de dominação capitalista dos mercados, das mídias e das indústrias culturais, uma desconhecida do próprio povo do Paraná. E, nesta jornada, tentei entender o fenômeno, ao mesmo tempo em que registrava e divulgava a cena musical da região. Minha inspiração para as pesquisas sempre estiveram dentro das teorias críticas para a reflexão do papel da música como produto do capitalismo, e isso foi possível para mim antes dos estudos formais, devido ao fato de eu ter interesse e relações com a cena punk e eletrônica (especialmente dos fanzines, literatura e cinema cyberpunk), com uma formação orgânica que naturalmente olha de forma cética e crítica para a sociedade. Entendi a questão da música local como campo de dominação do imperialismo cultural e do capital internacional, que se reproduz como fenômeno de alienação das massas e de consumo controlado, via comunicação, de produtos dos grandes centros produtores de entretenimento do mundo, em oposição às periferias. A diferença entre o cenário daquela época, controlado por uma mídia top-down e pela escassez artificial de produtos, utilizada para a valoração de mercadorias e o direcionamento de poucos lançamentos, para o lucro das majors (gravadoras multinacionais) e o atual fenômeno de liberação da música na internet é que o controle se tornou ainda maior e mais subjetivo. Poucas big techs controlam o novo mercado, em acordo com os antigos donos das redes estabelecidas de detentores de catálogos, por meio de algoritmos, bots e psychographics, direcionnado cada vez mais o consumo através da vigilância e da extração de nossos dados e perfis pessoais, num sistema de controle da cultura, gosto e escutas cada vez mais personalizado, on demand. Para a música paranaense, o que mudou é que antes existia uma barreira para ser conhecida e consumida, o famigerado “jabá”, apoiado pelas propinas das grandes gravadoras para a velha mídia de massas, emissoras de rádio e TV, sem o qual não era possível adentrar ao mercado musical no mundo e, portanto, a maioria ficava relegada ao desconhecimento social. Apesar da comprovação da vasta produção criativa local, quem ouviu falar em música paranaense? Com os algoritmos, a nova barreira são os altos valores pagos para se atingir engajamento nas plataformas e redes sociais. Se antes a barreira era o contrato e o pagamento de jabá pelas majors na velha mídia, hoje a barreira é o dinheiro suspeito e o jabá 2.0 (na curadorias de plataformas), com patrocínio das bets, do crime organizado, do agro e de outros possíveis investidores, que passaram a lavar dinheiro com o negócio da música.

"A (des)construção da Música na Cultura Paranaense", hoje um livro clássico de Manoel J. de Souza Neto
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"Em três décadas, vejo que mais artistas locais têm seu lugar em mercados de nicho. Muitos grupos de sertanejo, pop e rock, artistas evangélicos, atingiram o sucesso, enquanto o fino da cena, os sons experimentais do underground local, conquistaram público pelo mundo em seus segmentos, mas em mercados de nichos bem restritos. Ainda assim, a música local segue não sendo associada a Curitiba ou ao Paraná, como se não existisse relação orgânica entre sociedade, cultura e população. É o efeito de anos de esvaziamento das expressões locais na mídia, resultando no consumo alienado de produtos da indústria cultural estrangeira, fenômeno que se repete pelo mundo, onde as expressões locais não foram amparadas histórica, social e economicamente por suas comunidades. A música paranaense existe, tem nomes relevantes em alguns segmentos, mas, como cultura de um povo, não se expressa e nem é reconhecida. Meus estudos, portanto, ajudaram mais a entender os processos de dominação cultural internacional do que a sanar o problema da divulgação da música paranaense, ao qual depende das secretarias de cultura, emissoras de rádio, TV, jornais, que ao invés de cooperar, nos combateram ativamente para impedir a difusão da música local.” |
Prestes Filho: Tendo acompanhado por anos os bastidores e as dinâmicas do Ministério da Cultura e do fomento público, como ex conselheiro do CNPC e editor do Observatório da Cultura do Brasil, qual é a sua avaliação crítica sobre a evolução das leis de incentivo à cultura no Brasil? Onde elas acertaram e onde ainda falham no combate às assimetrias regionais?
Manoel: Acompanho essa discussão há décadas. Fiquei 13 anos com seis mandatos em câmaras temáticas de música e no Conselho Nacional de Políticas Culturais, além de umas 30 comissões técnicas e grupos de trabalho, em atividades com o Ministério da Cultura, além de quase 3 década em entidades de classe e associações da música, vendo isso de perto. E posso afirmar que existem problemas no fomento cultural no Brasil. Considero necessária, portanto, a retirada dessa temática da polarização política que ora criminaliza artistas, ora transforma qualquer crítica ao fomento em disputa partidária. O livro do 40 anos do MinC que produzimos no Observatório da Cultura do Brasil foi uma oportunidade para entendermos o fenômeno. A Lei Rouanet teve o mérito de mobilizar recursos e profissionalizar parte da produção cultural brasileira, mas nasceu de uma concepção liberal. O Estado renuncia ao imposto e transfere ao mercado (grandes empresas, bancos e seus institutos e fundações) o poder decisório sobre dinheiro público. O resultado continua profundamente assimétrico. Estudos que reunimos no Observatório da Cultura do Brasil, a partir de dados de auditorias do Tribunal de Contas da União realizadas em 2025 e 2026, mostram que 79,66% da captação está concentrada no Sudeste. São Paulo e Rio de Janeiro concentram 68,98%, e suas capitais, 63,21%, contra os demais 5.569 municípios brasileiros. Essa desproporção na aplicação dos recursos se torna ainda mais grave quando consideramos dados do Observatório Ibira30, de 2025, que revelaram que, na cidade de São Paulo, 90% do fomento ficou no centro expandido, basicamente nos bairros nobres, e somente 1,38% chegou às periferias da grande metrópole brasileira. Isso significa que a exclusão das políticas culturais não ocorre apenas em termos regionais, estaduais e das grandes capitais, mas também internamente nos grandes centros, com relação às suas periferias. Não existe melhor definição de concentração burguesa e exclusão das periferias do que a Lei Rouanet, na qual o bairro de Pinheiros, onde fica a Faria Lima, centro do mercado financeiro e das fintechs no Brasil, recebe, segundo os dados do Observatório Ibira30 de 2025, cerca de R$ 18.000,00 per capita em vantagens decorrentes de ações culturais para cada rico da região, enquanto, em estudo realizado pelo Observatório da Cultura do Brasil em 2026, calculamos que o MinC, por meio do edital Rouanet Favelas, da Vale, aplica R$ 0,61 por cada um dos 16.390.815 moradores das periferias favelizadas urbanas. O contraste é brutal, ficando de um lado, uma concentração de recursos culturais em territórios de alta renda, e outro, uma fração mínima de recursos alcançando populações periféricas. São metodologias e bases de dados distintas, mas o comparativo ajuda a revelar a dimensão territorial da desigualdade na aplicação dos recursos culturais. Houve avanços recentes na descentralização regional, mas programas especiais somaram apenas R$ 75 milhões, 2,59% de R$ 2,9 bilhões. Diferentemente do que mídias de esquerda e direita dizem o problema não são os artistas, mas o desenho da política baseada em seleções por mérito, e difinição de projetos feita pelo departamentos de marketing das grandes empresas. Seja a farra das emendas Pix, que a mídia na atualidade, expõe contratos milionários de shows em pequenas cidades, seja a Lei Rouanet, a Lei Aldir Blanc, PNAB ou o FSA da Ancine, todos esses mecanismos estão com problemas (e isso não é opinião, são fatos comprovados e auditados pelo TCU). A situação piora, pois o TCU encontrou cer da 29,7 mil prestações pendentes, envolvendo aproximadamente R$@@ bilhões, além de fragilidades de fiscalização, transparência e risco de prescrição. 95% dos projetos simplesmente são arquivados sem o mínimo de analise documental, segundo o TCU. Minha crítica é de interesse público, não obscena polarização política que reduz tudo a torcidas e gritaria. O que precisamos é de mais cultura e mais financiamento, mas com controle, avaliação de eficácia e distribuição territorial capazes de transformar renúncia fiscal em verdadeira política pública de Estado, que chegue a quem mais precisa.

Imprensa da cena musical paranaense, década de 1990
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"Entendo que devido as minhas pesquisas há quem me xingue, de bolsonarista por criticar um mecanismo liberal, ou de comunista por defender a ampla distribuição dos recursos da cultura entre a população. Mas de fato defendo o nacional-desenvolvimentismo e o papel da cultura para a nação. Mas não é o estado que faz cultura. Não é o artista o objetivo da política cultural. Mas, na Constituição, a cultura é citada nos artigos 215 e 216 da CF/88, com objetivos de atender à população, assim como educação e saúde. E esse papel das políticas públicas já não pode mais ser ignorado. É preciso admitir que nossos mecanismos de fomento não têm papel realmente integrado com o que prevê a Constituição. Até por isso chovem críticas contra a Lei Rouanet, pois, na ponta, seja a população, seja a classe artística, todos percebem que os recursos não chegam.” |
Prestes Filho: O Centro de Referência (Fonoteca da Música Paranaense e Observatório da Cultura do Brasil) que você fundou tornou-se um pilar indispensável para quem pesquisa a cultura brasileira e regional. O que o motivou a idealizar esse espaço e quais foram os maiores desafios institucionais para torná-lo realidade?
Manoel: Eu idealizei esse Centro de Referência (inicialmente com nome Musin) em pesquisas de economia política, história e sociologia da música a partir de uma inquietação antiga, ao perceber que parte significativa da memória cultural brasileira desaparecia por abandono, descarte ou falta de políticas de preservação de temas críticos, ou de temas que não eram apadrinhados pelas elites, pela máquina pública ou legitimados pela mídia e pelo mercado. Desde 1989, comecei a reunir, catalogar e estudar documentos da música e das cenas independentes. Depois, vieram o Museu do Som Independente (MUSI), em 2003; o Observatório da Cultura do Brasil, em 2011; e também fundei a Fonoteca da Música Paranaense - Coleção Manoel José de Souza Neto, em 2013. O trabalho cresceu da música para a sociologia, a economia, a política cultural, o direito autoral, a economia política da comunicação, a memória, o patrimônio e as políticas públicas de cultura. A Fonoteca chegou a cerca de 400 mil documentos, enquanto nossas pesquisas contribuíram para mais de 230 trabalhos científicos, livros, filmes, reportagens, planos setoriais e debates nacionais, realizados sem leis de incentivo à cultura, por meio da cooperação voluntária e multidisciplinar entre a produção independente e o meio acadêmico. O maior desafio sempre foi institucionalizar uma iniciativa independente, criada a partir da ideologia de origem punk chamada de “faça você mesmo” (do it yourself), enfrentando a falta de recursos, estruturas públicas frágeis e resistência à memória não oficial. Talvez nossa jornada seja essa mesma, seguindo a origem ideológica, seguir livre à margem, mas livre. Os apagamentos, cancelamentos e a atuação contrária de grupos de interesses, militância política e cargos comissionados são desafios à parte, já que, além de não existir apoio, ainda sofremos sabotagens e perseguições estatais, políticas e partidárias, devido à produção de conhecimento e às pesquisas críticas incomodarem certos grupos que têm vantagens estabelecidas. Existe uma diferença entre agrupamentos que usam a academia para produzir peças de propaganda de gestões e verdadeiras pesquisas com função social. A pesquisa científica, quando comprometida com sua função social, não deveria estar subordinada a governos, partidos, grupos de interesse ou à conveniência de gestores, mas à produção de conhecimento, à documentação dos fatos e ao interesse público. Hoje, o desafio é transformar esse patrimônio acumulado em uma instituição permanente, coletiva, acessível, digital e capaz de sobreviver aos seus próprios fundadores. O MUSIN se desligou da rede após a separação de parcerias e sofre de letargia por falta de iniciativa do agente que ficou responsável, mas simplesmente desapareceu. Já a Fonoteca passa por desafios. Ainda que tenhamos conquistado uma parceria com o espaço do grupo Musics, na UNESPAR (Universidade Estadual do Paraná), existem indivíduos tentando se apropriar indevidamente do acervo para fins comerciais e privados (gente que busca alguma teta pública, já que o potencial de arrecadação em inventários por leis de incentivo está na casa dos milhões de reais), o que nos demanda atenção permanente para a proteção dos objetivos acadêmicos e coletivos que constituíram este acervo. Bem como nos levam a ter de agir de forma mais rígida com oportunistas e pessoas que agem de má fé. Quanto ao Observatório da Cultura do Brasil , o canal e o coletivo estão passando por reformulação após o sucesso dos estudos sobre os 40 anos do MinC, a Lei Aldir Blanc e a Lei Rouanet. Porém, as pesquisas acabaram gerando controvérsias falsas vindas do meio estatal, e a cobertura displicente da imprensa acabou fazendo dos estudos algo que eles não eram. De forma equivocada, as redes jogaram o debate para as polarizações e narrativas em favor da direita ou da esquerda, sem efetivamente destacar os dados técnicos e legais que constavam de nossos relatórios, que tinham como foco a análise dos mecanismos de fomento à cultura. As últimas pesquisas renderam mais de 10 mil páginas de estudos e relatórios, e a forma como a imprensa cobriu esse trabalho foi, no mínimo, irresponsável ou ideológica, o que nos fez ligar um sinal de alerta. Depois dessa experiência, que acabou fragilizando a saúde mental de alguns de nossos ex-membros, os canais foram paralisados e as parcerias com o jornalista responsável foram encerradas, com a assinatura de contratos onde exigimos que os atos controversos fossem encerrados, e como não cumpriu a palavra, ocorreu a ruptura. Isso foi a gota d’água, e um duro aprendizado, de que uma coisa é a ética dos estudos e a outra como divulgam isso. O retorno da iniciativa se dará por meio da valorização da produção científica e de grupos que efetivamente valorizem a produção de conhecimento independente, isenta, responsável e crítica, capaz de falar o que for necessário, sem medos irracionais das reações de agrupamentos políticos e cargos comissionados. Principalmente, não queremos ser confundidos com outros Observatórios e grupos de estudos ou congressos, que em sua maioria viraram linha auxiliar de propaganda estatal e apoio a cargos comissionados, que não fazem outra coisa além de mentir com dados, para defender a manutenção de grupos no poder.

Imprensa sobre a polpitica setorial de música, década 2000
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"No momento, retornei aos estudos específicos da economia política da música brasileira, e em breve sairão resultados dessas pesquisas. Enquanto isso, na Fonoteca, o foco está no retorno ao atendimento de pesquisas acadêmicas relacionadas à música e à sociedade no Paraná. São diferentes frentes, e eu pessoalmente não estarei em todas, por ter tomado a decisão de me dedicar aos aspectos que considero pessoalmente mais relevantes desses campos de pesquisa, que é a teoria e estudos de caso imanentes, que permitam entendimento amplo da sociologia e economia política da música. Os estudos locais, e de casos, podem perfeitamente ser feitos por bolsistas de graduação, e por isso liberei acesso do meu acervo para a academia, para que ocorra incentivo a produção cientifica. Não é uma retirada, mas uma filtragem que já deveria ter feito há mais tempo.” |
Prestes Filho: No Centro de Referência, como é feita a articulação entre o impacto econômico da cultura e a suas dimensões estéticas e sociais? É possível mensurar o valor simbólico sem reduzir a arte a meros indicadores de mercado?
Manoel: Nos estudos independentes, ou nos atendimentos a professores e alunos, nunca separamos economia, estética e relações sociais, porque a música não existe isolada do mundo, ao contrário, ela antecipa e revela transformações da sociedade (tese do Jacques Attali). Seja nas relações antropológicas e sociológicas da música, seja na análise do materialismo histórico e dialético, a música precisa ser observada em suas relações e contradições. A partir da análise de processos históricos envolvendo criação e produção musical, posso afirmar que a micronização tecnológica democratizou a produção, rompeu antigos monopólios e criou oportunidades para milhões de autores-produtores, mas também produziu hiperoferte, precarização e queda do valor econômico unitário da música. Já o streaming de música aprofundou uma contradição, liberou a produção e a difusão, mas não necessariamente o consumo, agora o mercado é mediado por plataformas, algoritmos e grandes corporações. Com a IA generativa, entramos em outra revolução, a das máquinas que também produzem, selecionam e podem substituir criadores, alterando autoria, estética, trabalho e até nossa relação de escuta, que deixa de ser uma experiência sensível para se tornar uma brincadeira, como um game, que, no conceito de B. F. Skinner, premia os ratinhos que consumem este jogo em confinamento, colaborando para o controle e domesticação das massas. As empresas, na atualidade, utilizam as pulsões e os sintomas dos ouvintes para alimentar sistemas de machine learning, ensinando as máquinas a interpretar não apenas a música produzida pela humanidade até aqui, mas também a alimentar os desejos dos usuários dos serviços de produção musical generativa feita com IA, para fidelizar, ou, melhor, viciar ouvintes em uma autoprodução de sons que retroalimente suas demandas psicológicas e estados de humor. Portanto, música agindo junto com aliada da industria farmacêutica para controle de estados de espírito, humor e psique. Por outro lado, as big techs criaram Ias generativas treinadas com materiais autorais, sem autorização. O efeito é de uma dupla desorganização do espaço da música, na criação, desvaloriza-se e apropria-se o trabalho alheio, na oferta dos serviços, alimentam-se os sujeitos de si mesmos, para preencher suas paixões, eliminando o sentido histórico da música como expressão de criadores e como experiência individual e coletiva de escuta de espectadores. Na atualidade, qualquer pessoa que tenha acesso às plataformas de criação musical por IA generativa pode alimentá-las com o prompt que quiser, solicitando que a máquina atenda aos seus desejos. Isso é a morte dos criadores e intérpretes, e também a morte do ouvinte, pois cria um simulacro, fechando a experiência em si mesma, na satisfação imediata, isolando cada um em suas próprias prisões mentais e sentimentais, e gerando o corte da relação do ouvinte com os compositores e relações sociais e culturais. Por isso, pesquisas sobre música que tratam de valor simbólico não cabem apenas em temas como streams, PIB, mercado, feiras, festivais, vendas ou formação de preço e valor econômico. Nossa questão central é outra, o que acontece quando a música deixa de ser uma experiência humana, produzida por humanos que deveriam produzir subjetividades, memória, identidade e autonomia, para se tornar produção de máquinas que criam para que outras máquinas escutem?

Manoel com o maestro Waltel Branco, Hermeto Pascoal com a esposa Aline Morena
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"Medir a economia é necessário, mas reduzir a cultura ao mercado é não compreender aquilo que estamos medindo. A cultura e a arte podem ser aplicadas em alegorias de desenvolvimento humano e medidas de formas subjetivas. Podem ainda ser medidas nas cadeias produtivas de formas mais objetivas. Mas o que precisamos cada vez mais é entender a barbárie capitalista contida no processo civilizatório, na sociedade pós-industrial, e compreender que a arte e a cultura ajudam a medir, sobretudo, a humanidade que um dia fomos e aquela que estamos nos tornando. Razão pela qual precisamos, inclusive, rever para que lado as pesquisas da música estão orientadas na atualidade.” |
Prestes Filho: Seus livros abordam temas centrais para as políticas culturais no Brasil. Ao olhar para a sua obra reunida, qual livro você considera o seu divisor de águas teórico e por quê?
Manoel: Essa é uma pergunta difícil, pois a maior parte do meu trabalho está dispersa em mais de 3.000 entrevistas, comentários, notas e artigos, publicados em sites, jornais, anais de congressos, livros, filmes e até fanzines. Infelizmente, diversos destes livros ainda estão inéditos devido a uma rasteira que levei de um editor, ao qual me enganou e segurou meus lançamentos por anos. Mas, com certeza, destaco três que por alguma razão, podem no futuro, ajudar novos pesquisadores na compreensão de alguns fenômenos da música. O primeiro, lançado em 2004, com texto de apresentação de capa do meu entrevistador, Luiz Carlos Prestes Filho, foi um divisor de águas na pesquisa da música local: “A (Dês)construção da Música na Cultura Paranaense”. O trabalho desencadeou, no estado, a proliferação de pesquisas acadêmicas em história e sociologia da música da região. O segundo é o estudo monográfico em Ciência Política, “Música brasileira: conflitos entre grupos políticos, sociais e econômicos na Câmara Setorial de Música do Ministério da Cultura, no início do século XXI”, no qual revelo a atuação de grupos de interesse nas disputas regulatórias, nas políticas públicas e no fomento do setor musical, a partir da análise de documentação oficial e de uma observação participante, acompanhando o processo de dentro. Um terceiro estudo é apenas um artigo, mas que pode ter uma relevância ainda não totalmente compreendida, devido à inovação da abordagem. Pode ser lido em "A populalização dos meios de produção e difusão da música, e crise na indústria fonográfica: Revolução do precariado musical e contrarevolução", Lugar Comum, nº 43, UFRJ, 2015, pp. 149–162.

Grutpo de Trabalho dedicado aos estudos de música eletrônica
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"Nesse estudo, faço uma breve análise das mudanças na produção musical e da aplicação de teses de economia política, demonstrando tendências e impactos na produção musical e seus efeitos sociais, que se confirmaram dez anos depois. E, até por isso, enquanto teoria que se confirmou, vale a leitura. Claro que existem outros, como o ensaio da Música na IA que lancei em 2025, aquele sobre o julgamento de mérito nas leis de incentivo à cultura de 2012, os textos sobre a Guerra Hibrida, além de estudos sobre temas variados, mas gosto mais dos citados acima.” |
Prestes Filho: Para os jovens gestores e pesquisadores que frequentam o seu Centro de Referência hoje, qual é a principal lição prática sobre a sustentabilidade de projetos culturais a longo prazo?
Manoel: É uma dura lição que preciso compartilhar. Existem oportunidades crescentes, novas opções de sustentabilidade, mas não quero ser propagandista de conteúdos de auto-ajuda, nem vender nenhum curso para quem quer empreender no campo das pesquisas. Por isso, prefiro falar de forma realista. Se, por um lado, existe uma crescente massa de pesquisadores que se forma para não atuar em seu campo de trabalho, por não se adequar ao mercado e por não conseguir disputar as poucas vagas de docência existentes em cada campo, quando comparadas ao número de formandos, existem outros desafios, como a disputa interna na academia (aquela descrita por Pierre Bourdieu em Usos sociais da ciência) e tensões que se ampliam com as guerras culturais, a ideologização da ciência e a substituição da produção intelectual pelos assistentes de IA. Cada vez mais, grupos de pesquisa com fomento público ou privado, mas com finalidade acadêmica, tendem à rarificação e até à extinção. Estudos e organismos independentes como o nosso já são raros, por manterem independência em relação às instituições dentro das universidades, sustentados por esforços próprios, acordos e parcerias de cooperação. Diversas pesquisas foram financiadas com apoio de entidades não estatais, e poucos recursos públicos foram acessados em pesquisas pontuais. A sustentabilidade está cada vez menos associada à qualidade ou à emergência dos temas em questão e mais ao modelo americano incentivado pelo capital. Restam, cada vez mais, espaços apenas para papers e reports destinados a apoiar decisões dos mercados. No entanto, onde antes existiam pesquisas de campo, equipes, métodos, ética, conferência por pares científicos e prazos adequados, tudo está sendo substituído por pesquisas de legitimação de agentes identitários, liberais, de direita ou de esquerda, com seus valores e ideologias políticas, disfarçadas de ciência. Enquanto isso, pesquisas realizadas por meio de forms (formulários on-line), distribuídas em grupos de WhatsApp, passam a ser tratadas como substitutas ou equivalentes a pesquisas sérias que utilizam métodos estatísticos, quantitativos e qualitativos. No lugar do trabalho humano, com dados verificados, entra o trabalho de assistentes de IA, com dados cuja fonte, procedência e tratamento nem sempre são confiáveis. Agrava-se a situação com a epidemia de trabalhos acadêmicos que não foram sequer estudados, pesquisados ou escritos por seus autores, mas produzidos por IA. Esse cenário se torna ainda mais preocupante com a tendência de substituição dos docentes por IAs de mediação educativa, em que cada sujeito percorrerá percursos educativos autogestionados, sem a atenção e o acompanhamento de pedagogos. As pesquisas, sejam acadêmicas ou de mercado, passam por forte desvalorização, tendência que já é sentida pelos professores há muito tempo, na carga horária, no valor da hora-aula e nos cortes de bolsas de pesquisa, mas também no mercado, onde o excesso de informação, ainda que desqualificada, gera a impressão de excedente na produção da mercadoria conhecimento, promovendo a queda da taxa de lucro unitário e a inviabilização econômica. Essa situação força mais pessoas a utilizarem ferramentas de IA, que aumentam a produtividade e reduzem a qualidade, ampliando a bolha da produção feita por IA, o desemprego, a pressão por maior produtividade individual e a queda do rendimento, somados à exigência de maior velocidade na entrega de resultados. Esse cenário desolador revela a insustentabilidade das pesquisas na atualidade e a manutenção de muitos estudos por teimosia ou vocação. Muitos pesquisadores têm produzido e-books ou publicações distribuídas mediante pagamento de assinatura, buscando rentabilizar estudos com valores baixos e ampliar o acesso dos leitores. Mas até isso passa por alta competitividade e pelo risco de maior desvalorização do trabalho intelectual. Em meio ao futuro incerto, a valorização do trabalho feito por humanos vira uma espécie de resistência da espécie diante das máquinas, como num livro de distopia cyberpunk. Eu, por exemplo, sou e sempre serei pesquisador por pura teimosia. Pois aprender tem de ser, primeiro, um desejo do indivíduo. Como diria Lacan, o sintoma do pesquisador é seu objeto de pesquisa. Em “A ciência e a verdade”, publicada em Escritos (1966), Lacan postula que o saber não é neutro, ele carrega a marca do sujeito. O objeto “a” como causa também está no Seminário 10 - A Angústia e no Seminário 11 - Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, onde Lacan desenvolve o conceito de objeto “a”, o objeto causa de desejo. Na pesquisa teórica, o objeto que o pesquisador recorta no mundo e tenta explicar nada mais é do que a projeção daquilo que esse objeto causa no próprio pesquisador, e que também move seu sintoma. Não se trata, portanto, apenas de escolher racionalmente um objeto de pesquisa, mas de reconhecer que existe uma relação subjetiva entre aquele que pesquisa e aquilo que é pesquisado. Na teorização de Jacques-Alain Miller, principal herdeiro teórico de Lacan, é onde encontramos o maior desenvolvimento da aproximação entre a posição do pesquisador e o sintoma/gozo. Em suas conferências sobre a “Orientação Lacaniana”, Miller detalha como o analista, ou o pesquisador, é fisgado pelo real daquilo que investiga. É por isso que, para mim, pesquisar não é apenas exercer uma profissão, ocupar um espaço acadêmico ou produzir conhecimento. É também responder a alguma coisa que nos captura, que insiste, que retorna e que nos obriga a continuar investigando. É nesse sentido que continuo pesquisador por teimosia. Porque o objeto de pesquisa não é apenas algo que escolhemos, em alguma medida, é também aquilo que nos escolhe.

A longa trajetória de Manoel J. de Souza Neto
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"E para quem na atualidade pesquisas culturais (mas também é artista ou gestor), sugiro que faça a reflexão do quanto tem de relação com aquilo que está sendo pesquisado, ou se está envolvido com a pesquisa como profissão, ou como paixão. Deve rever as razões de se manter na atividade, especialmente aqueles que pretendem continuar neste campo social pelo dinheiro, pelos humores, paixões ou sintomas.” |
Prestes Filho: Você foi um dos pioneiros no Brasil a debruçar-se sobre o conceito de guerra híbrida. O que o levou a perceber, antes de muitos, que o campo da disputa política e cultural havia mudado de patamar?
Manoel: Eu cheguei à guerra híbrida por um caminho improvável, a música, o cinema, a cultura e a internet. Em 2010, pesquisava indústria cultural, direitos autorais, cultura digital e regulação, acompanhando essas disputas também por dentro das instâncias do Ministério da Cultura. A promessa da internet era a desintermediação da sociedade sem os velhos mediadores da mass media, em que todos poderiam produzir, difundir e ser mídia. Mas percebi uma contradição. Enquanto discutíamos democratização, poucas plataformas concentravam infraestrutura, dados e capacidade de determinar o que seria visto. A neutralidade da rede podia ser quebrada não apenas tecnicamente, mas politicamente pelo algiritmo, pela seleção da informação e pela fabricação do clima psicológico de nações, grupos e indiviuos. Isso ocorreu formalmente em acordos e negociações em comissões e debates da internet global, ACTA, PIPA, SOPA, TPP, AI5 Digital, entre outros, com a mudança das regras de acesso e distribuição de informações e com a violação de nossos dados privados. Na mesma época, massas sem lideranças ou pautas claras passaram a ocupar as ruas em nações consideradas inimigas pelos EUA e pela UE. Passei, então, a comparar o que ocorria nas Revoluções Coloridas e nas Primaveras Árabes com movimentações que surgiam no Brasil e outras regiões do mundo. Em 2013, fui para dentro do fenômeno. Lancei uma isca. Coloquei a máscara do Anonymous no perfil e distribuí palavras de ordem em grupos conservadores, mas também em grupos ancaps, progressistas identitários e outros, e fui prourado. Dei corda, aceitei ser cadastrado como suposta "lidenrança" e passei a observar páginas, células e métodos de cooptação. Ao mesmo tempo, reuni mais de 500 mil imagens, atas, documentos, fotografias, artigos e memes entre 2010 e 2020. Foi quando percebi que Junho de 2013 não terminava em Junho. Eu estava obeservando uma tecnologia política que envolvia redes sociais, propaganda, agitação de rua, operações psicológicas e depois, lawfare, guerra tecnológica, operações de assassinatos, destruição de infraestrutura e ataques a mercados financeiros, tudo funcionando de forma articulada, em jogos adaptativos que não paravam até fraturar regimes e nações. Acompanhei sua continuidade até o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a ascensão da extrema direita. Posteriormente, cruzei nomes, organizações e financiadores e encontrei relações documentadas com fundações, ONGs e think tanks estrangeiros, tanto em redes liberais quanto em setores do ativismo e das militâncias de direita e de esquerda. Foi aí que a ficha caiu. A disputa política havia deixado de ocorrer apenas em partidos, eleições ou quartéis. O novo território de conflito era também o algoritmo, a informação, a cultura e a própria percepção da realidade, ou aquilo que chamaram depois de pós-verdade, fake news e realidades alternativas, que ocorrem nas relações e redes sociais de cada um. A nova fronteira de combate transcende territórios e coloca cada civil no front de combate virtual. Sobre isso, Escrevi mais de 40 artigos entre 2012 e 2018. Em 17 de junho de 2013, meu primeiro dossiê saiu no Conversa Afiada de Paulo Henrique Amorim. A guerra híbrida, no entanto, não é lawfare, nem são fake news. Isso demandaria um curso inteiro para explicar, mas, em resumo, são dinâmicas das teorias dos jogos aplicadas a novas formas multitudinais de conflitos, sem fronteiras ou exércitos convencionais, atuando em meio à sociedade e dentro dos lares e canais de cada um, em múltiplas camadas, em constante adaptação, visando, por meio da manipulação de massas, fraturar regimes, mercados e a democracia em nações inimigas do eixo, e em favor da especulação de mercados, bolsas e grandes riquezas. A guerra cultural, os conflitos identitários, a fragmentação e a divisão social, e mesmo os usos do meio artístico e cultural, estão todos sendo teleguiados por esses think tanks estrangeiros, que elaboram esses conflitos, criando as dinâmicas, distraindo a população para que se atinjam objetivos civis-militares sem resistência da população. Das polêmicas de influencers digitais que frequentam os trending topics, passando pelas eleições e chegando aos discursos de ódio contra artistas patrocinados pela Lei Rouanet, ou aos grupos que defendem os mecanismos imperfeitos, todos são alvo dessas máquinas de manipulação, algo que eu já havia revelado há 15 anos e que depois foi confirmado por denúncias, investigações e documentários que trataram de casos como o Facebook ou a Cambridge Analytica. Infelizmente, muita bobagem foi escrita no Brasil sobre isso, e o tema foi popularizado com estudos sem base ou investigação, sem observação direta, e com teorias equivocadas apresentadas por agentes contratados por partes interessadas, seja para culpar o PT, seja para atacar a Lava Jato. Isso deformou os saberes para espectadores e curiosos sobre o tema.

Manoel J. de Souza Neto e a Luta de Classes
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"Hoje, é notório que as massas são manipuladas por essas tecnologias digitais, mas falar dos mecanismos, agentes, operações e objetivos da guerra híbrida contra o Brasil naquela época foi muito ousado, e me custou alto.” |
Prestes Filho: Como as ferramentas da guerra híbrida - como a desinformação, as disputas narrativas e o ataque às instituições - atingem especificamente a produção cultural e a memória de um país?
Manoel: Eu vejo a cultura como um dos territórios centrais da guerra híbrida, porque dominar um país não significa apenas ocupar um território militarmente, ou dominar sua economia, ou controlar seu governo, mas antes significa disputar sua memória, seus símbolos, sua produção artística e, principalmente, decidir quem terá voz e mídias para influenciar a população. Foi justamente isso que comecei a observar antes e durante julho de 2013. As redes que vinham da cultura digital, da mídia livre, dos coletivos e dos movimentos disputavam protagonismo, narrativas e capacidade de mobilização. Na época, escrevi que havia uma verdadeira “captura da agenda” e uma luta pelo controle da produção simbólica. O problema é que parte dessas redes não desapareceu depois das Jornadas de Junho. Minha hipótese, construída ao longo dessas pesquisas, é mais perturbadora. Concluo que segmentos sociais e personagens daquele mesmo ecossistema político midiático posteriormente se institucionalizaram, passaram a circular pelo ambiente político-cultural em cargos comissionados, conselhos, organizações, comitês, pontos, programas, editais e estruturas de participação e influência sobre o próprio Ministério da Cultura. Eu já apontava que determinados coletivos disputavam protagonismo para transformar articulação social em moeda de troca. Após a queda do MinC, com o retorno, o órgão se viu sequestrado por militância e convertido em máquina de propaganda e palanque permanente (indiferente ao governo). Porém, claro, isso precisa ser entendido como uma hipótese de continuidade das ações de redes e interesses, não como prova de que todas as pessoas das Jornadas sejam hoje responsáveis pelo controle do orçamento cultural, ou de que a cultura e os artistas estejam envolvidos em agitação política coordenada por ONGs estrangeiras. Claro que não! 99,9% do meio cultural está tão longe das salas fechadas, que não tem a menor idéia do que ocorre nos bastidores. Mas ignorar o campo, os objetivos e quem domina é uma ingenuidade. Estou falando da existência de agentes treinados pro ONGs, infiltrados nos meios, em posições de destaque, agindo para interesse do capital estrangeiro.É aí que guerra híbrida e política cultural se encontram. Não é preciso censurar um artista se você consegue controlar os mecanismos que determinam quem recebe recursos, quem participa das instâncias decisórias, quem ganha recursos e visibilidade e qual narrativa passa a representar a “cultura brasileira”. Não é necessário atacar com armas uma nação se é possível distorcer sua cultura, sua história, sua identidade, seus valores e suas ideologias políticas. A própria Rouanet demonstra o tamanho dessa disputa. Meus estudos apontam concentração recorrente de recursos, reprodução das redes já estabelecidas e exclusão da ampla maioria dos trabalhadores culturais. O imperialismo cultural, pode ser entendido aqui. O mecanismo ainda entrega enorme poder de seleção ao mercado, porque grandes empresas e grandes riquezas, alinhadas com interesses estrangeiros e das bolsas de valores, decidem quais projetos aprovados efetivamente receberão patrocínio. Da mesma forma, verbas de editais de fundos de cultura, emendas Pix de deputados em espetáculos de pequenos municípios, investidores que colocam recursos para engajar artistas em plataformas de streaming, patrocínios de empresas de bets ou verbas de mecenato trocadas por impostos têm o mesmo uso, os desvios de recursos para lavagem de dinheiro e para manter redes de operações de coletivos dessas militâncias, sejam supostamente de direita ou de esquerda. Portanto, o ataque à memória não acontece apenas queimando livros, museus e cinematecas, ou fechando auditórios, livrarias e lojas de discos. Ele ocorre quando instituições deixam de representar a pluralidade da sociedade e grupos organizados conseguem transformar política pública em política para si, enquanto são financiados pelo Estado, mas teleguiados por interesses estrangeiros para produzir um significado social capaz de influir nos valores da população. A guerra híbrida produz justamente isso. Primeiro, disputa-se a narrativa. Depois, ocupa-se o espaço institucional. Finalmente, naturaliza-se aquela correlação de forças como se fosse representação de toda a sociedade. Então, controla-se o campo em disputa e o fluxo dos recursos e narrativas para manutenção dos agrupamentos que legitimam a operação. Quando poucos passam a escolher o que será financiado, preservado, digitalizado, exibido e lembrado, não estamos discutindo somente dinheiro da cultura. Estamos discutindo quem terá o poder de escrever a memória do país e produzir os significados. Inclusive editar o passado, fabricar o presente e pavimentar o futuro. Não à toa, ninguém mais fala em interesses reais da população, ou em algum projeto nacional. Tudo se resume à guerra cultural para manutenção de distrações e ocultação da realidade, coordenada por influenciadores favorecidos na circulação de conteúdos nas redes que pertencem aos senhores feudais das big techs.

Manoel J. de Souza Neto - Observatório da Cultura
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"O epistemicídio, o apagamento de culturas, identidades, lideranças e produção simbólica cultural das muitas expressões brasileiras, ocorre em vários níveis, todos no sentido de encobrir expressões, linguagens, e valores políticos e coletivos das comunidades brasileiras. Em seu lugar, são postas lideranças fantasiadas daquelas culturas, mas com narrativas construídas a partir do que os estrangeiros pensam do Brasil, do que a direita criou como figura arquétipa de um imaginário tóxico de um certo tipo de esquerda. Nada disso ocorre à toa, mas como parte de um projeto. E isso tudo que afirmei acima, pode ser seguido com uma pista, que demanda uma simples pergunta - Se todos agora sabem que só é visto quem tem engajamento nas redes, que é pago, quem paga o engajamento destes influenciadores?” |
Prestes Filho: Evolução do Fenômeno: Do momento em que você iniciou suas pesquisas sobre o tema até os dias de hoje, de que maneira a guerra híbrida se reconfigurou com o avanço da inteligência artificial e das plataformas digitais?
Manoel: A hipótese que eu vinha formulando nos estudos sobre guerra híbrida ganhou uma dimensão muito maior com o desenvolvimento das plataformas digitais e da inteligência artificial. Se, em 2013, eu apontei como as redes sociais mobilizam as massas desorganizadas para as manifestações de rua, em 2018 eu já chamava atenção, em artigos, para bots, algoritmos, identificação de perfis psicológicos, vigilância corporativa e capacidade de uma rede social produzir "clima psicológoco" sobre milhões de pessoas. Hoje, entretanto, o problema deixou de ser apenas Facebook, propaganda ou fake news. Formou-se uma infraestrutura privada de informação, vigilância, classificação e produção simbólica, na qual poucas empresas possuem capacidade extraordinária de conhecer populações e, simultaneamente, determinar aquilo que essas mesmas populações veem, suas crenças, valores e ideologias. Tudo isso ocorre dentro de uma estrutura ainda mais grave, considerando que poucas empresas controlam data centers, nuvem, IA, publicidade, buscas, sistemas operacionais e redes sociais. Portanto, já não estamos falando apenas de privacidade. Estamos falando de poder econômico, poder informacional e soberania de nações controlados pelos novos donos das terras digitais do tecnofeudalismo. E, com a IA, surge um sistema de vigilância e interação global, com capacidade de diálogo e interação pessoal com parte significativa da população, que passa a operar o controle de massas em níveis de influência direta sobre a consciência individual.

Manoel J. de Souza Neto
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"A novidade histórica não é tão nova, no sentido de que a literatura distópica já havia feito essa previsão, com a instalação da Matrix, o despertar da Skynet ou a instalação do Big Brother. O que assusta é a simplicidade do princípio. Quem conhece a população também pode escolher aquilo que ela verá, pensará, tornando a contrução de consensos praticamente um simulacro. Controle de leis, ideologias, punições, renda, moradia, sistemas de crédito social, serviços públicos e até o direito de ir e vir. Nada está a salvo dos efeitos do que está por vir. É a fusão entre vigilância, propaganda, mercado e edição da própria realidade, em tempo real, influindo na interação direta em cada ser humano.” |
Prestes Filho: Soberania e Informação: Diante da complexidade das operações psicológicas e digitais no cenário contemporâneo, quais mecanismos de defesa um país como o Brasil precisa construir para resguardar sua soberania cultural e de dados?
Manoel: Olhando isso como um tipo de mapa de riscos, desde a segurança da população e a soberania nacional já estão sendo profundamente afetados. O problema já não é apenas a fake news, mas toda a arquitetura invisível que passou a organizar a vida social. Algoritmos são caixas-pretas e ninguém sabe exatamente por que recebe determinada notícia, anúncio ou recomendação, enquanto celulares viraram sensores permanentes, recolhendo localização, hábitos, preferências e comportamento. Governos, bancos, operadoras, big techs, anunciantes e corretores de dados conseguem cruzar informações que o próprio cidadão não consegue visualizar sobre si mesmo, criando mercados paralelos de dados e relações entre empresas de tecnologia e estruturas estatais e de inteligência militar. Na política, microdirecionamento, impulsionamento oculto, influenciadores pagos, bots, fazendas de likes e astroturfing podem fabricar artificialmente consensos de maiorias populacionais. Algoritmos premiam conflito, medo, indignação e permanência, enquanto dark patterns induzem escolhas e o usuário quase nunca consegue escapar da personalização. Com IA generativa, o problema explode. Fake news, vozes, imagens, vídeos, músicas e deepfakes podem ser produzidos industrialmente, enquanto permanecem opacos os dados usados no treinamento, os filtros, alinhamentos, valores, ideologias e critérios programados nos modelos, além das empresas especializadas nesses conteúdos, muitas vezes encobertas pelas próprias plataformas. Ou seja, cidadão exposto e bandidos protegidos. Livros, músicas, fotografias, jornais e pesquisas entram nesses sistemas sem transparência suficiente, pois depois a máquina treinada com essas obras passa a concorrer com seus próprios autores. Surgem fake musics, falsos artistas, fraude de streaming, teses e livros acadêmicos produzidos por IA e clonagem de identidade. Crianças tornam-se mercado de dados, adolescentes recebem sistemas de recomendação desenhados para adultos, enquanto idosos e pessoas vulneráveis ficam expostos a golpes, manipulação, conteúdos tóxicos e vendas de serviços e produtos baseados em seus históricos médicos vazados nas redes. A boa notícia é que o debate internacional está mudando, e a discussão deixou de ser apenas “liberdade de expressão versus censura”. O mundo começou a reagir, ainda que timidamente. União Europeia, Reino Unido, Austrália, Brasil e Estados Unidos começam a tratar algoritmos, dados, publicidade, IA, proteção infantil, propriedade intelectual e manipulação informacional como problemas de infraestrutura, direitos fundamentais e segurança nacional. O próprio Digital Services Act europeu reconhece que plataformas gigantes podem amplificar conteúdos e “moldar opinião em escala”, exigindo mitigação de riscos sistêmicos. A União Europeia construiu o modelo mais amplo, combinando proteção de dados, transparência de publicidade, controle de dark patterns, proteção infantil, feeds não personalizados e regras para IA, inclusive exigindo identificação de propaganda política, financiadores e conteúdos sintéticos. Reino Unido, Austrália, Brasil e EUA avançam por caminhos distintos, desde segurança de crianças, verificação de idade e proteção de dados sensíveis até combate a deepfakes e responsabilização das plataformas. No entanto, acho todas as medidas ainda muito superficiais. Também surgiu reação organizada dos criadores, em defesa de músicos, jornalistas, escritores e artistas que pressionam por autorização, transparência e remuneração, conseguindo inclusive alterar propostas governamentais. A relação de forças começa, portanto, a mudar, porém as forças que operam são poderosíssimas, já que big techs fundiram-se com donos de catálogos de audiovisual, música e livros, com velhas empresas de matrizes energéticas poluentes e até empresas do complexo industrial e militar das nações bélicas. Nos tribunais, as big techs já enfrentam multas bilionárias, restrições à venda de localização e disputas sobre uso de obras protegidas no treinamento de IA, ainda que não exista consenso jurídico sobre o que é fair use, cópia ilícita ou concorrência desleal. A transparência real não é necessariamente abrir apenas o código, mas permitir auditoria sobre critérios de recomendação, financiadores, publicidade, treinamento, vieses, decisões automatizadas e impactos sociais. O processo contra a Meta/facebook movida por estados americanos, provocou um acordo para proteção dos usuários, especialmente crianças e adolescentes. parece promissor e é um exemplo a ser acompanhado. Existe tendência de maior cobrança de transparência de dados das empresas. Ou seja, a quebra do sigilo corporativo estabelecida pelas empresas anônimas nos últimos dois séculos é o que está em jogo, e também uma nova fronteira de enfrentamento entre o interesses da população e do capital. E o Brasil, como está nisso? Apoiando a instalação de data centers dessas multinacionais em nossas terras, com controle estrangeiro, e ainda permitindo os efeitos devastadores do excessivo consumo de água que essas ferramentas exigem. Nas estimativas utilizadas nesta pesquisa, seriam cerca de 50 ml por iteração e 500 ml por texto longo, apenas para resfriamento, fora o uso de água, carvão, petróleo e outras matrizes utilizadas para alimentar eletricamente esses data centers. O mundo realiza entre 3,5 bilhões e 4,5 bilhões de consultas por dia nesses agentes de IA. Não precisa ser matemático para chegar à conclusão de que a IA não apenas pode nos dominar, mas sua ampliação indefinida pode nos matar de sede. Pelo mínimo estimado, essa conta implica um consumo de centenas de milhões de litros de água ao dia. E pode chegar aos bilhões de litros de água ao dia. A soberania diante da IA não é apenas o controle de tecnologias cada vez mais avançadas, mas a capacidade de determinar o custo-benefício dessas ferramentas. Um data center pode consumir desde cerca de 10 kW, em instalações pequenas, até centenas de megawatts e, nos maiores projetos, aproximar-se da escala de 1 GW. A inteligência artificial amplia essa pressão energética, envolvendo o custo de armazenamento de dados e processamento e o custo de realizar bilhões ou trilhões de operações matemáticas continuamente. Nas estimativas apresentadas, uma busca convencional consumiria aproximadamente 0,0003 kWh, enquanto uma resposta simples de IA chegaria a 0,003 kWh e a geração de uma imagem, a cerca de 0,029 kWh. O hardware evolui rapidamente e, para uma mesma carga computacional, pode baixar o volume energético, porém a contradição é paradoxal, e que quanto mais eficiente e barata fica cada operação, maior se torna o volume global de processamento e a dependência humana, ampliando as exigências de consumo energético e de matéria-prima. Logo, vão precisar converter nossa própria energia corporal, para alimentar as IAs. Já viram isso em algum filme? O contraste biológico ajuda a dimensionar o problema. O cérebro humano trabalha continuamente com potência próxima de apenas 20 watts, embora comparações diretas entre sua capacidade cognitiva e FLOPs (Operação de Ponto Flutuante) de computadores sejam apenas aproximações. O corpo humano inteiro dissipa algo próximo de 100 watts em repouso. Enquanto as máquinas chegam a gastar de 20 x até 50 vezes no resfriamento no comparado com o gasto no processamento. Isso a grosso modo é claro, pois o calculo de processamento humano e das máquinas, tem limitações conceituais. Fazemos muito mais caçulos automáticos em escalas muito superiores as máquinas. Assim, enquanto a evolução produziu uma extraordinária máquina biológica de baixo consumo, a revolução da IA depende de data centers, chips, sistemas de refrigeração, redes elétricas, usinas e infraestrutura gigantesca. Portanto, a corrida pela inteligência artificial é também uma corrida por energia, água, semicondutores e capacidade computacional, transformando processamento de dados em questão econômica, ambiental e estratégica.

Manoel J. de Souza Neto palestrando sobre o compositor Walter Branco
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"Estamos desvalorizando os seres humanos e a potência que temos juntos, com baixo consumo, para entregar às máquinas nossas tarefas, a custos altíssimos em todos os sentidos para a existência da vida na Terra. Estamos preparando nossa obsolescência e o fim do Homo sapiens.” |
Prestes Filho: Como começou a sua caminhada nas artes marciais e qual foi o impacto do encontro com o Mestre Lee na sua formação pessoal?
Manoel: Minha aproximação com as artes marciais nasceu menos do desejo de lutar que da necessidade de aprender a lidar comigo mesmo. No final dos anos 1980, estudava numa escola de elite em Curitiba e vivia em confronto com aquele ambiente tóxico, inclusive no aspecto físico, atravessado pelo que Bourdieu define como violência simbólica, que as elites utilizam como forma de ataque e manutenção de poder. Contra bullying, aprendi a me defender. Sendo rebelde e explosivo, criticava política, religiões, mídia, capitalismo, indústria cultural e a imagem artificial da “cidade modelo”, e a hipocrisia da alta sociedade, e isso claro incomodava e me levava a conflitos, muitas vezes as vias de fato. Em contraponto eu buscava liberdade nos subterrâneos, entre punks, góticos, poetas, proto-clubbers, DJs, fanzineiros, ilustradores e artistas, mas também gangues de rua, freqüentadores de fliperamas, e toda a marginalia com quem andava. Mas também haviam excessos e um componente autodestrutivo, fruto das relações com outros jovens com problemas sociais, familiares, desajustados e todos que procuravam naquelas ambientes uma fuga de suas realidades. Neste caldeirão existiam tensões, e riscos de tomar um assalto, ou ser atacado por uma gangue de neonazistas. Enquanto minha avó, professores e amigos estimulavam minha formação intelectual, que incluía livros orientais, do Tao, Sun Tsu, I Ching, Budismo, monges tibetanos dentre outros, do outro lado meu pai, empresário do comércio exterior (que negociava de eletrônicos, a tanques de guerra), abriu uma janela para o Oriente através de seu olhar construído em mais de 200 viagens de negócios para a Ásia, que me trouxe histórias sobre cultura e culinária, com a qual ele fazia questão de manter contato. Essas experiências me levaram ao cinema, à filosofia e, depois, às artes marciais asiáticas. Meu irmão mais velho foi apresentado por amigos chineses ao Mestre Lee Chung Deh, e depois conduziu-me aos 12 anos ao Kung Fu, para me defender dos mais velhos na escola. Lee, formado na linhagem do Grão-Mestre Chan Kowk Wai, representou um contraponto ao caos. Com ele, compreendi que Kung Fu não era derrotar alguém, mas disciplina, ética, persistência e domínio de si. Exercícios, meditação, Budismo, Taoísmo e prática marcial ensinaram que governar a própria força importa mais que controlar o outro, articulando corpo, mente e espírito.
Manoel J. de Sauza Neto - Anonymous
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"Continuo crítico, inquieto e avesso às unanimidades. As artes marciais não apagaram esse fogo, ensinaram-me a dar-lhe direção e controle. É uma lição que levo à política, escritas, mídias, cultura e à vida. Força sem consciência produz conflito. Disciplina transforma energia em caminho diante das adversidades. Afinal, Kung Fu é precisamente isso, habilidade construída com esforço, prática e tempo.” |
Prestes Filho: Quais são os ensinamentos fundamentais que a convivência com o Mestre Lee lhe trouxe e como a disciplina do Kung Fu se reflete na sua rotina rigorosa de trabalho e pesquisa?
Manoel: O principal ensinamento do Mestre Lee talvez seja que o adversário mais difícil está dentro de nós. Kung Fu significa habilidade adquirida com esforço e tempo. Portanto, não existe resultado consistente sem repetição, paciência, disciplina e aperfeiçoamento. Para alguém de temperamento difícil como eu, isso foi fundamental. As artes marciais não apagaram minha inquietação, mas ensinaram-me a tentar direcionar essa energia. Essa disciplina aparece diretamente em minha rotina de pesquisador. Consigo permanecer anos investigando um assunto, reunir milhares de documentos, organizar acervos, cruzar informações e retornar inúmeras vezes ao mesmo problema, sem desanimar. Desistir jamais! Foi assim desde a arqueologia do underground, iniciada em 1989 e posteriormente transformada em produção cultural, arquivos, livros e pesquisa. Ou enfrentamentos em pesquisas que revelaram a realidade das leis de incentivo à cultura e dos órgãos de gestão cultural. Me enfrentaram e tentaram de todas as formas me intimidar com intenção de me forçar a paralisação destes estudos. Mas a disciplina me mantém no caminho. Com Lee, aprendi ainda que ensinar não significa simplesmente entregar respostas, mas ajudar alguém a encontrar seu caminho. Kung Fu, Tai Chi Chuan, meditação, Taoismo e Budismo forneceram uma espécie de pendulo para me equilibrar diante da boemia, da tendência workaholic, esportes radicais, das polêmicas e do caos. Diante de hábitos e praticas que são conflitantes, com o tempo dominei quase todas, e hoje já posso ir em qualquer igreja dizer que fui salvo por Jesus (contem ironia).
Manoel J. de Souza Neto e o Mestre Lee Chung Deh
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"A disciplina não vai te tornar santo, ou equilibrado, ou de que trará ausência de conflito. Apenas vai ter ensinar a continuar caminhando apesar de tudo.” |
Prestes Filho: A prática do Kung Fu e Tai Chi Chuan envolve equilíbrio, percepção do espaço e leitura do oponente. De que forma essa filosofia o ajudou no entendimento das teorias dos jogos e guerra híbrida, ou a enfrentar os embates e tensões do ambiente acadêmico e institucional?
Manoel: O Kung Fu e o Tai Chi Chuan me ensinaram algo que depois reconheci na Teoria dos Jogos e nos estudos sobre Guerra Híbrida, de que não existe movimento isolado. Há forças, espaço, tempo, intenção e resposta em interações. Toda ação altera as escolhas do outro. Antes de agir, é preciso ler posições, antecipar possibilidades e calcular conseqüências, como nos jogos sucessivos e seus equilíbrios. Com o Mestre Lee compreendi que Yin e Yang (陰陽) mostram que forças aparentemente opostas podem integrar o mesmo processo, sendo partes da mesma coisa em mutação, enquanto o Taoismo ensina adaptação em lugar de rigidez. O Taoismo acrescenta o Wu Wei, 無為, a “não ação”, que não significa passividade, mas saber quando não forçar o movimento, e deixar que algo aconteça naturalmente. Mas as teses também ensinam quando é necessário forçar. Em Sun Tzu, 不戰而屈人之兵 (bù zhàn ér qū rén zhī bīng) expressa vencer submetendo a resistência sem batalha, e 避實擊虛 (bì shí jī xū), “evitar o cheio e atingir o vazio”, ensina a não desperdiçar força onde o adversário é mais forte. Enquanto que aprender as teses da diplomacia em Guiguzi, 鬼谷子, o Mestre do Vale dos Fantasmas, acrescenta a leitura da persuasão, intenção e relações de poder. Esses saberes teóricos e práticos orientaram meu trabalho em iniciativas como think tank, agenda setting, defesa de causas sociais, CPI, estudos, relatórios, auditorias, comissões, conselhos, políticas públicas e propostas de leis. São formulações modernas, mas nelas reencontro problemas antigos, como informação, assimetria, percepção, adaptação e antecipação, na Arte da Guerra como afirmou Sun Tsu, é a arte da dissimulação (詭道). Isso foi importante nos embates acadêmicos, jornalísticos e institucionais que enfrentei. Acabei virando debatedor profissional, a tal ponto que perdeu a graça o debate, porque as pessoas hoje preferem atacar o interlocutor, do que discutir ideias. Aprendi que nem toda provocação exige confronto frontal e que recuar, observar ou simplesmente esperar também pode constituir movimento. Meu temperamento continua combativo, mas a prática marcial ensinou-me a buscar distância crítica, tal como compreender o tabuleiro antes de mover uma peça. Como numa luta, força sem percepção desperdiça energia, estratégia começa pela leitura do ambiente, cenário, jogadores, suas jogadas e intenções. A psicanálise, com as artes marciais, filosofia, materialismo histórico e dialético linguagem e a criação artística, me ajudam a integrar qualquer jogo, ou debate. Alias, todos sempre estão jogando conscientemente ou inconscientemente.

Manoel J. de Souza Neto com o Mestre Lee aprendeu que: "Não existe resultado consistente sem repetição, paciência, disciplina e aperfeiçoamento."
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"A diferença para quem domina as teorias dos jogos, é justamente ter o entendimento da permanente dissimulação e falsidade das relações, movidas por interesse mesquinhos. Ter entendimento dos jogos, te põem no espelho, e ajuda nos processos de cura diante dos próprios defeitos como ser humano. Não ter ilusões quanto ao comportamento humano e suas motivações mais mundanas, básicas e instintivas, e buscar não aderir a mediocridade.” |
Prestes Filho: Olhando para a sua história de vida, qual é a principal herança ética e cultural deixada por seus pais e antepassados no homem e pesquisador que você se tornou?
Manoel: A principal herança que recebi de meus pais, avós e antepassados talvez seja uma ética de responsabilidade diante do outro, da história e das grandes questões e causas sociais, nacionais e da humanidade. Os objetivos críticos das minhas pesquisas não nasceram apenas da formação acadêmica, ao contrário. Foram abertos por uma história familiar que, com todas as suas contradições, ensinou-me a perceber injustiças sociais, relações de poder e o dever de tomar posição diante delas. Minha própria genealogia carrega essas contradições. Há uma origem sefaradita ibérica, marcada pela perseguição e pela conversão forçada ao cristianismo, mas também antepassados envolvidos nas bandeiras, guerras e na formação territorial do Brasil. Portanto, minha história familiar reúne perseguidos e agentes de processos históricos violentos, guerras, invasões, derrubada de governos, enquanto outros criaram leis e instituições importantes, portanto, envolvidos com questões de relevância nacional. Gosto de pensar isso também pelo conceito oriental de carma, não como culpa hereditária, mas como consciência do que herdamos, consequências de processos anteriores e temos responsabilidade sobre aquilo que fazemos com o que recebemos. Se antepassados meus participaram das violências que ajudaram a constituir o Brasil, cabe às gerações seguintes compreender criticamente essas histórias e trabalhar para não reproduzi-las. A defesa do social e da população entrou afetivamente em minha vida por influência de minha avó, Cecy Xavier do Carmo, que era uma grande leitora e pesquisadora autodidata. Ela me pediu que tivesse responsabilidade para com a população brasileira, até porque tínhamos um carma a pagar com a população. Depois, essa defesa ganhou forma como consciência de classe. No século XX, minha família também foi atravessada por tradições anarquistas, comunistas, e trabalhistas. Meus dois avôs representam muito dessa formação. Manoel, líder da União Brasileira dos Ferroviários, e Eurípedes, que foi fiscal e depois diretor local no Ministério do Trabalho, e editor do Jornal O Trabalho, um dos técnicos que ajudaram nos estudos que fundaram a CLT, especialmente na questão do salário mínimo. Deles veio uma compreensão muito concreta do trabalho, do Estado e das desigualdades brasileiras, para pensar soberania, desenvolvimento e justiça social, através das conversas e leituras familiares. A luta de classes deixou de ser para mim apenas um conceito abstrato quando passei a observá-la nas tensões entre arte, cultura, indústrias culturais e poderes econômicos e políticos. Mas talvez a maior herança familiar seja a ética da defesa popular, o amor pelas pessoas. O povo tem toda culpa, mas não tem culpa de nada. Eu tenho toda responsabilidade pelos meus erros, e nem por errar, deixo de ter o direito a vida social, opinião e representação política. A busca pela integridade nesse processo tornou-se uma posição de vida. Nunca é tarde para assumir posição diante das adversidades sociais, das injustiças e, sobretudo, na defesa da justiça e da vida humana. Essa formação não veio somente da família. Ao longo da vida, encontrei mestres que deram método, linguagem e disciplina àquilo que inicialmente era apenas inconformismo. Minha avó ocupa um lugar fundamental, mas também o Mestre Lee Chung Deh, que me ensinou disciplina e domínio de si, o Maestro Waltel Branco, na compreensão da música, minha prima Adalice Araújo, nos estudos críticos da arte, e você Prestes, com relação aos estudos da economia política da cultura. Isso dentre outros professores, artistas, intelectuais e amigos que me ensinaram no caminho. As palavras dessas pessoas permaneceram comigo porque cada uma, à sua maneira, ajudou a transformar inquietação em trabalho. E isso permitiu que me tornasse um rebelde com causas, método e objetivos, alguém que procura transformar indignação em pesquisa, crítica, produção artística e trabalho determinado, em defesa do povo.

Manoel com Fernanda Abreu
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"No pesquisador que me tornei, tradição não significa repetir os antepassados, mas compreender suas experiências, acertos, erros e contradições para escolher conscientemente o que fazer com aquilo que recebemos. ” |
Prestes Filho: O que a convivência com suas filhas ensinou sobre o futuro e de que modo a paternidade transformou o seu olhar sobre o mundo e suas prioridades?
Manoel: Não tenho costume de falar de questões familiares, relações, amizades ou intimidade. Preservo minha privacidade muito antes da internet e não aderi à exposição da vida privada nas redes. Ainda que tenha preservado a minha vida privada, entendo que, diante de uma pergunta como essa, vinda de você, não posso deixar de me manifestar. As coisas pelas quais passei e a maldade que enfrentei de pessoas em quem confiava e que amava, me levaram a decisões como fechar a porta para quem não faço questão de ter na minha vida, mas também a me encarar com minhas sombras, entender o que me faz infeliz e não mais permitir que isso adentre a minha vida. Antes de me tornar pai de uma adulta e de uma criança, eu não tinha noção da minha fragilidade no mundo, da minha condição de impermanência e nem mesmo das responsabilidades comigo e com outras pessoas. Mais importante, não enxergava a minha própria família e as relações tóxicas que permeiam a maioria das relações familiares, na maioria das famílias. Não reproduzir com minhas filhas, erros dos meus antepassados. Elas têm meu apoio e amor incondicional. Eu cresci numa família perfeita, que se tornou disfuncional de uma hora para outra. Às vezes, em conversas com amigos, eles se admiram de como aguento perseguições de Estado, de grupos de interesses e de máfias. No geral, dou uma gargalhada e digo que isso é fichinha. Se soubessem o que as famílias fazem com seus próprios familiares na vida privada, achariam que aquela diferenciação entre a casa e a rua, do antropólogo Roberto DaMatta, não se sustenta inteiramente na ideia de que o lar seria o lugar do aconchego e da segurança, enquanto a rua representaria os perigos. Na minha interpretação, são muitos os lares verdadeiros destruidores das subjetividades, da integridade, da dignidade e da felicidade. Com tanto sofrimento passei a perceber, especialmente após a pandemia, a irrelevância de muitas das iniciativas e objetivos que maioria das pessoas costuma a a hipervalorizar. O amadurecimento e o enfrentamento realista da vida definitivamente fazem com que as pessoas entendam o que realmente importa. Foi como reaprender a viver, compreender que tantas ideologias, projetos e causas não significam nada diante de quem somos e de quem amamos. Isso não significa que sou um bom pai, apenas que sei das minhas falhas e procuro ser o que puder de melhor, não reproduzindo com elas o que eu sofri e escolhendo ser, com elas, o oposto do que outras pessoas foram comigo.

Manoel com Ivan Lins
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"Quanto ao futuro, essa é uma questão delicada e para a qual as pessoas conscientes deveriam estar atentas. Estamos em um mundo em colapso, em que guerras, meio ambiente, emprego, renda, moradia, dignidade humana e democracia estão em profunda conturbação, com riscos de convulsões sociais em escala global. O que importa é o amor, e talvez seja a única coisa capaz de salvar as pessoas que atravessarão este século.” |
Prestes Filho: Sendo um pesquisador da memória e da cultura, como você transmite às suas filhas o valor das raízes, da história e do conhecimento crítico no dia a dia familiar?
Manoel: Como disse anteriormente, não tenho costume de falar de questões familiares, relações, amizades ou intimidade. Preservo minha privacidade muito antes da internet e nunca aderi à exposição da vida privada nas redes, recusando aquilo que considero parte de um projeto de controle social e de produção de seres desejantes, hedonistas e fetichistas, uma crítica na linha daquela apresentada em O Século do Ego (The Century of the Self), famosa série de documentários de 2002, criada pelo jornalista britânico Adam Curtis para a BBC. Na série, Curtis mostra como Edward Bernays, sobrinho de Freud, utilizou conhecimentos oriundos da psicanálise para incutir na sociedade ideias de ampliação do consumo, manipulando desejos por meio da mídia e da publicidade. Essa crítica é importante para aquilo que procuro transmitir às minhas filhas, porque memória, história e conhecimento crítico não são, para mim, apenas informações sobre o passado. São instrumentos para compreender o presente e preservar a própria autonomia diante das arquiteturas sociais que procuram moldar desejos, comportamentos e formas de vida. Compreendo que a sociedade tem fragilizado as relações sentimentais e que o capitalismo tem coisificado sujeitos e afetos, transformando praticamente tudo em moeda e produto. Para as mulheres, somam-se a isso não apenas os efeitos do machismo, mas também imposições relacionadas à família, à Igreja, aos padrões de beleza e de moral e à condição de serem tratadas como objetos de consumo ou propriedade de outro. Por isso, ensinar liberdade, autonomia, pensamento livre e autodeterminação é, para mim, uma das mais profundas expressões do meu amor por elas. Transmitir o valor das raízes e da história também significa não esconder os erros das gerações anteriores, mas aprender com eles para que não sejam reproduzidos. Conhecer a própria história não deve servir para aprisionar alguém ao passado, mas justamente para permitir que faça escolhas diferentes. As experiências de vida, as percepções sociais e políticas, as orientações de desenvolvimento pessoal, espiritual e ético e até mesmo as estratégias de sobrevivência deveriam ocupar um espaço maior na transmissão de conhecimento entre gerações. Mais do que preparar os filhos exclusivamente para a educação formal, o mercado de trabalho ou uma determinada vocação, considero fundamental prepará-los para compreender criticamente o mundo em que vivem, inclusive porque muitos dos modelos tradicionais de educação já não correspondem à realidade atual. É também por isso que valorizo as relações humanas, afetivas e espirituais, o estilo de vida e a integração com comunidades, redes de apoio e coletivos. Num mundo marcado por poucas oportunidades, discursos de ódio, polarizações e relações cada vez mais mediadas por interesses, a capacidade de adaptação sem perder-se como sujeito talvez seja uma das aprendizagens mais importantes que podemos transmitir aos mais jovens. O que aprendi olhando para o passado e para o futuro que está por vir é que as pessoas não podem mais construir suas referências apenas em redes irreais, exposição pública, influenciadores, líderes, ideologias políticas, coachs ou falsos profetas do empreendedorismo. São os afetos, as amizades, o amor e as redes reais de solidariedade que importam na construção de realidades e ambientes saudáveis para o florescimento da vida de cada um e de suas comunidades. A realidade nunca foi aquilo que está no noticiário ou aparece numa tela, mas a vida concreta e próxima de cada um. Daí a necessidade de ensinar aos mais jovens que aquilo que circula numa timeline infinita tem relevância praticamente zero diante da vida real. Muitas vezes, trata-se apenas de uma simulação, de um simulacro que produz a sensação de que aquilo que vemos na tela é o mundo e nos impede de enxergar o que verdadeiramente importa.

Manoel com Sérgio Dias dos Mutantes
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"O conhecimento crítico começa, nesse sentido, pela capacidade de distinguir realidade de representação. Pesquisar memória e cultura me ensinou justamente que compreender de onde viemos é uma maneira de compreender quem somos, mas também de decidir quem não queremos ser. É nesse sentido que procuro transmitir às minhas filhas o valor das raízes, da história e do pensamento crítico, não como culto ao passado ou obediência às tradições e estruturas, mas como ferramentas de liberdade. No fim, são os afetos, as amizades, o amor e as redes reais de solidariedade que importam para a construção de ambientes saudáveis onde a vida possa florescer.” |
Prestes Filho: A Marcenaria, Artes e o Trabalho Manual: No seu tempo livre, as criações ocupam um lugar especial. O que o trabalho manual — que exige paciência, precisão e respeito à matéria-prima — traz de contraponto ao trabalho intelectual e conceitual?
Manoel: O trabalho manual é quase um contraponto necessário ao meu trabalho intelectual. Se na escrita, mídia, pesquisa e na cultura trabalho com teorias, informações, conflitos e reflexão, que se materializam textualmente em um artesanato intelectual que exige muito da mente, no ateliê preciso lidar com criatividade, emoções, matéria, peso, resistência, superfícies, erro, frustação, paciência e busca de precisão, sem perder a sensibilidade, a intenção da expressão e a subjetividade artística. Há algo de concreto nisso. A madeira e o ferro não aceitam retórica, e não são tabelas que vão sustentar sua intenção. Eu sempre criei objetos, transformei, inventei desde que comecei a andar e falar. Talvez por isso fosse chamado de Professor Pardal ou de MacGyver (ManéGyver), desde criança. Enquanto amigos saiam de casa com uma bola, eu saia com um jogo de ferramentas e chaves de fenda, e com canivete suíço no bolso. Isso faz parte da minha vida mais do que cargos, formação, pesquisas ou livros. Se existe alguma coisa que me define, é essa busca pela criação, que chamam de bricolagem, arts and crafts, DIY, gambiarra, ou seja lá o que for. As inspirações, porém, não vêm propriamente da arquitetura ou da decoração de interiores. Minha produção nasce também do interesse pela cultura, pela literatura e pelo cinema cyberpunk e pós-punk, além de estéticas presentes em distopias e linguagens como dieselpunk, industrial, brutalismo e mid-century modern. São referências que dialogam com minha crítica ao capitalismo, ao consumismo, ao avanço desregulado da tecnologia e à obsolescência programada. A estética do século XX eliminou aos poucos a forma, qualidade, em troca de função e lucro. A obsolescência programa é um crime. Lancei um manifesto da Under Dogs que define justamente essa produção como cultura pós-industrial, resistência, autonomismo e resposta à crise ambiental, propondo peças com durabilidade, sustentabilidade e economia circular. Por isso, não faço propriamente restauro, nem marcenaria, muito menos carpintaria ou serralheria. Trabalho com uma produção que as redes chamam de revamp, refurbishment, recycling e refinishing, um monte de termos em inglês, para transformação, recriação, reforma, gambiarra. Eu recrio, recombino, mudo a função e também o significado dos objetos, as vezes até dou nomes as obras. Mas não me limito a isso, já que faço fotografia, arte digital, desenho, crio objetos. São madeiras antigas, pés de máquinas, ferragens industriais, dormentes ferroviários, cruzetas de postes, tripés de teodolito, mobiliário escolar e peças hospitalares. Materiais robustos, caros ou cada vez mais raros. A ideia é retirar objetos do descarte, e devolver-lhes função, identidade e permanência. É uma espécie de arqueologia industrial.

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"Aquilo que o capitalismo tornou obsoleto retorna como objeto útil, afetivo e cultural. Não se trata apenas de reaproveitar materiais, mas de desconstruir histórias, funções e significados, transformando aquilo que seria descartado em algo que possa novamente ocupar um lugar na vida e casas das pessoas. Mas não é nenhuma industria, sequer divulgo. Mas com certeza isso ocupa um espaço importante na minha vida, talvez bem maior do que as pessoas possam imaginar. Já pensei em mandar todo mundo à merda, e me fechar no ateliê. E talvez eu faça isso!” |
Prestes Filho: O preparo de conservas é uma tradição que envolve tempo, química e preservação. Como nasceu esse seu interesse e qual é a sua receita ou ingrediente de estimação?
Manoel: Só você para me perguntar uma curiosidade como essa. Quase ninguém vai entender, mas é interessante tocar nesse assunto. É que nem conversa de bar, comida e filosofia de botequim. Fui criado por uma avó intelectual, que mantinha traços culturais de nossas origens nos pratos que preparava para as refeições. Acredito que a comida faz parte fundamental, assim como a música, das famílias, comunidades, culturas e civilizações. Meu pai viajou por todos os continentes e gostava muito de comer coisas diferentes. Um vendedor na estrada, cheio de histórias para contar, como no filme Big Fish (2003), mas, ao buscar essas experiências gastronômicas, suas passagens nos anos 70 e 80 também lembram cenas do programa Parts Unknown, de Anthony Bourdain. Em casa, as refeições tinham conexões culturais internacionais, graças ao capricho de minha mãe, que buscava trazer para casa algo que acompanhasse as experiências de meu pai. Isso moldou meu paladar e me ajudou a desenvolver experiências culturais abertas ao diferente, do junkfood, a nouvelle cuisine ao Sushi. Algo que me ajudou a interagir com todo tipo de cultura. Com os anos, passei a cozinhar cada vez mais, mas foi na pandemia que tive de me desdobrar. Primeiro, montei um bunker, antes mesmo de qualquer iniciativa de alerta das secretarias de saúde, pois havia estudado o caso da Covid na China logo no começo e lançado um relatório sobre o assunto 90 dias antes da pandemia estourar no Brasil. Então, me fechei, fui me preparar e cozinhar. Na mesma época, descobri que tinha intolerâncias alimentares, e o desafio me levou a ter de lidar com minha saúde e com o retorno ao básico. Pensei, na época, em como as pessoas se alimentavam antigamente. Busquei nas minhas avós as lembranças de como se produzia comida e de como se preservavam os alimentos antigamente. Foi nessa época que diversifiquei e experimentei mais a produção de conservas. Fazia de tudo, desde pepino japonês e gengibre até misturas de cebola, pepino, cenoura e couve-flor, mas também batatas, cebola, vagem, chuchu, beterraba, quiabo, entre outros. Não dava conta de consumir tudo e até distribuía para amigos e familiares. Gengibre e pepino japonês agridoce são meus preferidos. Cheguei a gravar, fotografar e compartilhar algumas dicas de preparo nas redes sociais.

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"Afinal, cozinhar acabou se tornando também uma forma de recuperar memórias, experimentar culturas e retornar a conhecimentos básicos que atravessam gerações. Não existe memória afetiva mais sincera do que o amor pelo alimento.” |
Prestes Filho: Fazer conservas também é uma forma de guardar o tempo. Você enxerga alguma analogia entre o ato de preservar alimentos em potes e o trabalho de preservar memórias e documentos no seu Centro de Referência?
Manoel: Sim, definitivamente. Da minha disciplina, rotina, trabalho, criação artística, relatórios, peças que eu crio, ou conservas, tudo demanda pesquisa, entendimento, prática, guarda. Para mim, todas essas experiências de vida partem da pesquisa, memória, do entendimento, afetos e fichários para acessar estes saberes quando necessário. Até para se criar algo novo, ou contestar sistemas, deve-se ter repertório.
Prestes Filho: Entre livros, leis de fomento, a disciplina do Kung Fu, a madeira na marcenaria e o convívio familiar: qual é o seu segredo para manter a mente sã e a produção em alto nível ao longo de todos esses anos?
Manoel: Talvez o segredo seja entender que o desafio tem sido sempre o mesmo, permanecer de pé, apanhando, sem perder o rumo. Ao longo dos anos vieram pressões, ataques, cancelamentos, processos infundados (aos quais venci todos), tentativas de intimidação e inúmeros desafios. Houve momentos de sobrevivência, mas também de aprendizado, descobertas e criação. E, diante de tudo isso, algumas coisas se tornaram inegociáveis, como família, saúde, integridade, compromisso social, estudo, determinação, ideais, sonhos e amor, especialmente os ideais por um mundo melhor. Claro que a leitura ajuda a manter a mente ativa, mas a escrita muito mais. A pesquisa ensina a questionar ou fazer as perguntas certas. As políticas culturais, estudos e a experiência profissional obrigam a compreender a realidade para além dos discursos, e isso me ajudou a me tornar um leitor da realidade, e entendedor dos significados ocultos daquilo que observo. A criação artística permite transformar aquilo que se vive em alguma coisa nova, que faça sentido em meio a coisas e objetos sem sentido. O ateliê ensina a respeitar os materiais, as técnicas, o tempo e o processo. A madeira não pode ser desrespeitada para se tornar aquilo que imaginamos, é preciso conhecê-la, trabalhar com suas características e, muitas vezes, descobrir no próprio material o caminho da obra. E o Kung Fu traz uma lição semelhante. Disciplina não é apenas treinar o corpo, mas aprender a permanecer concentrado quando existe pressão. É a busca pela compreensão que força sem equilíbrio se perde, e que resistência não significa ausência de dificuldades, mas capacidade de continuar avançando apesar delas. O convívio familiar também é fundamental. É onde a vida deixa de ser apenas trabalho, pesquisa, militância ou produção intelectual e recupera sua dimensão humana. É preciso ter vínculos que nos lembrem de que nenhuma causa, por importante que seja, pode substituir a própria vida, os afetos e amores. Por isso, não acredito muito em um “segredo” ou “fórmula” para a vida. Quem sou eu de exemplo para vida de qualquer outro ser humano? Somos todos pessoas forradas de defeitos. Acredito em prática cotidiana, em esforço, ensaio e repetição. Ler, estudar, pesquisar, criar, treinar, trabalhar, conviver, descansar, recomeçar e manter a curiosidade viva. No mais, não mantenho mais a mesma capacidade. Esses tempos um amigo comum nosso, me fez um elogio sobre a minha capacidade laboral. Até usou isso para jogar na cara de umas pessoas que não gostam de mim. Agradeci, e pensei, nossa, não ando rendendo muito mais não, e isso em razão da saúde e da idade. No entanto, não posso deixar de entender que acumulei bem mais conhecimento no caminho do que pretendia, ou do que a minha capacidade permitiria. Além disso, me chamam de milagre ambulante, tenho uma síndrome rara degenerativa, 35 fraturas (da época dos esportes radicais), restrições alimentares sérias e eu ainda estou de pé. Depois de tantos anos, talvez a maior disciplina seja justamente não permitir que as adversidades determinem quem somos, da mesma forma que não deixo outras pessoas determinarem quem eu sou. E existe algo ainda mais importante. O amor move as pessoas. É ele que dá sentido ao conhecimento, à criação, à família, aos sonhos e até às lutas. Quando existe uma razão maior para continuar, as dificuldades deixam de ser apenas obstáculos e passam a fazer parte da trajetória, etapas necessárias a própria existência. No fundo, manter a mente sã (se isso é possível) e a produção em alto nível (também me questiono sobre isso) são ações que demandam o aprendizado continuo, sem perder a humanidade, abraçando suas sombras, lutando sem perder a alma, a serenidade e ainda produzindo sem perder o sentido daquilo que se faz. Como dizia o comandante, sem perder a ternura. Não estou aqui para fazer sucesso, ganhar dinheiro, me preocupando com o que pensam de mim, ou sustentando falsas amizades, mas apenas deixando um legado. Já na vida privada, o que me importa são os sorrisos fáceis e a felicidade nas coisas mais simples. É disso que se trata a vida.
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Luiz Carlos Prestes Filho, Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval" e Manoel J. de Souza Neto



