Diálogo Brasil-Rússia sobre Cooperativismo
Vinicius Mesquita, presidente do Sistema OCB-RJ, e Feodossii Vladichevskii, consul-geral da Rússia no Rio de Janeiro

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
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O encontro entre Feodossii Vladichevskii, cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro; Vinicius Mesquita, presidente do Sistema OCB/RJ; Abdul Nasser, superintendente do SESCOOP/RJ; Renato Regazzi, gerente de Empreendedorismo Cooperativo do SESCOOP/RJ; e Niury Novacek, assessor de Relações da OCB/RJ, realizado na sede da instituição, revelou um panorama fascinante de cooperação bilateral, convergências econômicas e trocas de experiências sobre modelos de desenvolvimento socioeconômico.
Reunião Brasil-Rússia no SOCB-RJ
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"A discussão centrou-se na força do cooperativismo no Brasil, que hoje responde por grande parte do agronegócio, do sistema financeiro e da prestação de serviços, contrapondo-se à estrutura de mercado tradicional e abrindo portas para parcerias em tecnologia, comércio internacional e logística portuária. Enquanto o Estado do Rio de Janeiro possui uma economia altamente urbanizada e focada em pequenos produtores e prestadores de serviços, o cooperativismo brasileiro em geral exibe grande capilaridade e impacto macroeconômico.” |
A OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) atua como entidade integradora nacional, amparada por uma legislação específica que reconhece e organiza o setor. Tanto é assim que cerca de 54% do agronegócio brasileiro está estruturado sob a forma cooperativa, destacando gigantes como a COAMO, maior produtora de soja do Paraná e do país, e a AURORA, presente em 18 estados e integrando mais de 100 mil famílias produtoras. No Rio de Janeiro, o setor assume feições diversificadas, englobando laticínios locais, cooperativas de saúde (incluindo hospitais de grande porte pertencentes a médicos), cooperativas de crédito e iniciativas inovadoras de tecnologia.

Abdul Nasser, superintendente do SESCOOP-RJ
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"Um dos pontos altos da reunião foi a diferenciação conceitual entre o modelo cooperativo e o modelo corporativo tradicional das sociedades anônimas. Na cooperativa, como ocorre na AURORA, o produtor rural é, ao mesmo tempo, dono e fornecedor, recebendo o retorno econômico proporcional à sua entrega de matéria-prima e detendo direito a um voto, independentemente do volume de capital investido. Em contrapartida, nas empresas tradicionais, como a Sadia, os acionistas visam ao lucro sobre o capital, concentrando a distribuição de dividendos em poucos proprietários.” |
Assim, enquanto as corporações centralizam lucros, as cooperativas distribuem riqueza diretamente entre milhares de famílias, impulsionando o comércio local, a construção civil e a circulação de capital nas regiões onde operam. Esse modelo também se aplica a nichos urbanos, a exemplo da gestão compartilhada de aeronaves particulares e dos planos de saúde médicos.
Abdul Nasser, Viniciius Mesquita, Feodossii Vladichevskii e Renato Regazzi
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"Em relação à infraestrutura, a parte russa abordou gargalos logísticos e rotas de escoamento para produtos agrícolas e industriais, manifestando interesse em conhecer a conexão entre a produção do Centro-Oeste e a malha ferroviária integrada que chega ao Porto do Açu, no norte do estado do Rio de Janeiro, reconhecido como um terminal estratégico de grande calado para exportações. Além disso, informou haver demandas contínuas de importação de açúcar, bem como propostas voltadas a missões comerciais.” |
O intercâmbio comercial também poderia contemplar equipamentos médicos avançados, suprimentos hospitalares e sistemas de hemodiálise operados por redes cooperadas, campos nos quais a Rússia demonstra interesse em avançar. O cônsul-geral da Rússia e os representantes brasileiros também exploraram oportunidades de sinergia no setor de tecnologia da informação. Destacou-se a atuação de cooperativas fluminenses focadas exclusivamente em software livre, com vistas à soberania digital e à redução da dependência de grandes corporações estrangeiras (Big Techs), contando, inclusive, com reconhecimento internacional por sistemas de assinatura digital. Foi apresentada a proposta de criar ambientes tecnológicos fechados e seguros para o desenvolvimento de soluções brasileiras de inteligência artificial, integrando especialistas locais a parceiros internacionais. Vale notar que a Rússia já tem colaborado para a implementação de sistemas de reconhecimento facial e controle de fluxo urbano em cidades como Rio de Janeiro e Salvador.

Renato Regazzi oferece o livro "Desenvolvimento Local, redes colaborativas e os clusters".
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"A troca de experiências tecnológicas incluiu, ainda, soluções de transporte sustentável e logística autônoma, englobando modelos urbanos avançados baseados em ônibus elétricos com recarga rápida em paradas de rota, o que reduz drasticamente a emissão de gases poluentes, o uso pacífico de aeronaves não tripuladas para o transporte rápido de medicamentos e insumos médicos essenciais a regiões remotas, e o emprego de pequenos robôs terrestres autônomos para entregas urbanas eficientes, inspirados em experiências consolidadas em grandes metrópoles como Moscou.” |
No encerramento do diálogo, foram destacadas a pujança das cooperativas de crédito e a relevância de bancos cooperativos como Sicoob, Sicredi e Unicred. Essas instituições representam atualmente cerca de 16% do mercado financeiro brasileiro e se configuram como o segmento que mais cresce no país. Ao oferecer serviços bancários completos sob uma governança democrática, esse sistema prova que a lógica cooperativa pode competir em pé de igualdade com grandes conglomerados bancários tradicionais, garantindo taxas justas e solidez institucional.
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Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"



