LENDAS Coluna Prestes

LENDAS Coluna Prestes

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"Coluna Prestes" - arte de Vasco Prado

 

LENDAS - Coluna Prestes

p o e m a - p a r a - o r q u e s t r a

 

Luiz Carlos Prestes Filho

p o e m a s - m ú s i c a s - t e x t o s

 

“Era a lenda que nos acompanhava por toda parte. Muitas se formaram a nosso respeito”.

Lourenço Moreira Lima no livro “A Coluna Prestes, Marchas e Combates”

 Dedico esta obra ao fundador do Estado do Tocantins, Governador José Wilson Siqueira Campos, que teve a coragem de realizar a obra do Memorial Coluna Prestes Tocantins em Palmas, na Praça dos Girassóis, junto a sede do Governo do Estado, no Centro Geodésico da nação. Desta maneira, fixar a imagem do Cavaleiro da Esperança no coração do Brasil.

O autor de "LENDAS - Coluna Prestes", Luiz Carlos Prestes Filho, e o arquiteto Oscar Niemeyer, autor do projeto de arquitetura do Memorial Coluna Prestes Tocantins

 

Introdução

 

A Coluna Prestes não tem paralelos na História da humanidade. Foi a mais extensa de todas as marchas realizadas ao longo da História. Nenhum povo fez outra igual. Seus objetivos: liberdade e justiça social.

Derrotando 17 generais do exército regular brasileiro - em batalhas e manobras - os revoltosos, como foram batizados pelo povo por onde passaram, cruzaram vinte quatro (24) mil quilômetros de todo o Brasil.

"No ano de 1995, percorri a trilha da marcha, entrevistei 450 testeminhas que vivamente me relataram fatos distantes e causos, como se os revolucionários tivessem acabado de passar. Durante a viagem tive a idéia de construir o Memorial Coluna Prestes Tocantins, que o Governador José Wilson Siqueira Campos realizou em Palmas, com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer; e o Memorial Coluna Prestes Santo Angelo, no Rio grande do Sual, que o prefeito Adroaldo Loureiro realizou, na antiga Estação Ferroviária da cidade. Oscar Niemeyer também projetou a meu pedido o Monumento Coluna Prestes para as cidades de Santo Angelo (RS), Santa Helena (PR), Arraias (TO) e de Crateus (CE). Ao Memorial Coluna Prestes Tocantins dediquei sete anos de minha vida, sempre com o apoio incondicional de minha mãe, Maria Prestes (1995-2001).

Memorial Coluna Prestes Santo Angelo, Rio Grande do Sul, ponto de partida da marcha. Inauguração 1996.

 As canções, os cordeis e os poemas do povo simples do interior sobre a Coluna Prestes me aproximaram do nativismo gaucho; do rasqueado pantaneiro; da catira goiana; da jiquitaia tocantinense; do bumba-meu-boi maranhense; do xaxado nordestino; da viola caipira mineira; entre tantos outros gêneros. Desta vivencia musical vem a obra "Lendas - Coluna Prestes". 

 

Águia Barbuda

 Orquestra / Movimeto nº1 - "Avante Camarada"

 

Seu olhar dos horizontes

Queria hoje descansar

Mas continua a voar para longe

Para longe, para longe... como parar?

 

Suas asas estão pesadas

Queriam hoje descansar

Mas continuam a busca, a busca

O voo... como parar?

 

Amanhece já é hora

Vem aos poucos o despertar

Volta o homem ao seu corpo

As garras somem ao voltar

 

Moradores do interior do Brasil até hoje adoram confessar, bem baixinho, para não ter testemunhas, que o chefe da Coluna via o futuro. Tanto que ele sempre sabia tudo sobre os caminhos que seus soldados iriam percorrer. Afirmavam que à noite ele se transformava numa águia, conservando a sua face barbuda, e sobrevoava os rios e as florestas, as cidades e as fazendas. Nesse voo ele marcava onde era possível encontrar comida, cavalos e local para pouso. E, claro, descobria onde estavam escondidos os inimigos:

“Prestes ‘advinhava’, razão porque não podíamos ser batidos pelas forças do ‘guverno’, das quais eles sempre tinham notícias de derrotas que lhes infligimos. O nome de Prestes enchia todos os pensamentos. Os matutos, quando nos encontravam, era logo por quem perguntavam, e quando se achavam na sua presença, olhavam-no com um respeito supersticioso, admirados de ser nosso chefe aquele moço pequenino e cabeludo, de face pálida e maneiras delicadas. A fama de Prestes empolgava a alma angustiada das multidões sofredoras como uma promessa de liberdade e justiça”. (Relato do secretário da Coluna Prestes, Lourenço Moreira Lima, no seu diário “Marchas e Combates”, pág. 194)

Memorial Coluna Prestes Tocantins, projeto Oscar Niemeyer, em contrução, Palmas, 1998.

Link - Movimento nº1: "Avante Camarada"

https://www.youtube.com/watch?v=YLLFibF2kxI&list=OLAK5uy_m_oiyp_uDnF3P_7qYrX59KdebEhmlv488&index=1

O Movimento nº1 - “Avante Camarada”, foi realizado a partir da obra original do compositor e maestro , Antônio espírito Santo. Mestre da banda da cidade de Angical, interior do Estado da Bahia, ele compôs “Avante Camaradas”, numa homenagem a passagem da Coluna Prestes por suas terras. A mesma acabou indo parar no hinário das Forças Armadas Brasileiras.

  

Visões

Orquestra / Movimento nº 2 – "O Herói"

 

Não foi só Santo Ângelo que iluminou

Não foi só São Luiz que apontou

Quando pediu para o soldado

Este o caminho mostrou

Muito além do futuro que antes do passar chegou

 

Seu soldado tinha ervas de obê no chimarrão

Tocava atabaque, tocava violão

Com um relâmpago ensinou

Fez o comandante ter visão

Disse: “Pode correr o Brasil

Seu corpo está fechado, morre não”

“O Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, que formou o núcleo da Coluna Prestes, era na sua maioria composto de soldados negros. Entre eles o jovem Hermogêneo Dias Messa, que contou certa vez: “Eu lembro daquela cobra que estava sobre a pedra. Era uma sucuri. Foi com uma paulada que Prestes acabou com ela. Isso nos aproximou. Senti nele coragem. Lembro, que eu tinha o Baito e o Companheiro. Eles eram ensinados, um saltava no pescoço do inimigo, o outro segurava as pernas do pobre coitado. Prestes ria dessa habilidade dos meus cães. Isso nos fez ser iguais. Lembro que eu fui jogar osso e ganhei por adivinhar as jogadas de toda a nossa negrada. O Prestes ficou admirado. Curioso me perguntou como eu podia adivinhar as coisas? Foi ai que eu contei para ele como ter visões. O nosso comandante gostou e passou a praticar. Naquele dia eu segredei para ele não ter medo, que o corpo dele estava fechado”.

Alegre, Hermogêneo, lembra da brincadeira que os soldados cantavam para o sargento Sapo do Batalhão Ferroviário:

 

“Tudo corria muito bem

Tudo estava bem e bom

Quando o sargento Sapo

Velho afamado mandou entrincheirar

Toda a negrada com choque rolou

Rolou, rolou, rolou

Até que o sargento gritou

Não é rolar!

É no buraco que tem que entrar”

 

Memorial Coluna Prestes Tocantins, projeto Oscar Niemeyer, em contrução, Palmas, 1998.

Link - Movimento nº2 - "O Herói":

https://www.youtube.com/watch?v=zp4pS2qXutE&list=OLAK5uy_m_oiyp_uDnF3P_7qYrX59KdebEhmlv488&index=2

  

Cavalgando Peixes

Orquestra / Movimento nº 3 – "Lendas Coluna Prestes"

 

Foram tantas águas de tantos rios para atravessar

Que daria para dizer que a Coluna atravessou um mar

 

Tantos bichos ferozes essas águas escondiam

Horrendos de amargar

 

Eles saltavam para a terra tudo querendo arrastar

Para as suas profundezas, era correr ou se entregar

 

Tinha peixe do tamanho de carro de boi para cavalgar

Os viventes que escaparam têm medo de contar

  

Nenhum rio foi obstáculo para a macha seguir seu rumo. Contam que o comandante nem precisava solicitar embarcações para travessias das águas. Ele lançava uma misteriosa armação e uma rede, abrindo passagem para os homens e animais sobre as águas. Caso alguém corresse risco de cair nas profundezas dos rios, a rede segurava.

Os revolucionários atravessaram os principais rios brasileiros: rio Uruguai (Rio Grande do Sul e Santa Catarina); rio Araguaia (Mato Grosso e Goiás); rio Tocantins (Tocantins e Maranhão); rio Balsas (Maranhão); rio Parnaíba (Maranhão e Piauí); o rio Jaguaribe (Ceará); e o rio São Francisco (Pernambuco, Bahia e Minas Gerais).

Lembra no seu diário o secretário da Coluna Prestes, Lourenço Moreira Lima que os matutos: “... Ficaram escandalizados quando Cordeiro de Farias (um dos comandantes da Coluna) lhes perguntou pelas canoas, porque lhes haviam dito que atravessávamos os rios sem nos utilizarmos de embarcações, por conduzirmos um ‘apareio de mangaba’ que estendíamos sobre as águas passando por ‘riba deles’ bem como uma ‘rede’ de apanhar homens e cavalos, rede tal que não havia ‘vivente’ que lhe escapasse” (pág. 194)

Peixes-monstros ameaçadores não intimidavam os homens de Prestes. Os guerreiros laçavam os mesmos e colocavam celas neles. Contam no interior que os revoltosos cavalgavam estas criaturas com a mesma bravura e elegância com que os gaúchos o faziam sobre os seus cavalos.

““Disseram-nos (...) que havia (...) peixes colossais, feras monstruosas que atacavam as ‘criaturas’ até fora do rio, salientando-se pela audácia o Negro d’água um ‘bicho feroz’ que saltava em terra, ereto como um gigante e as perseguia, arrastando-as para o fundo d’água; e um outro, cujo nome não sabiam ‘tamanho da roda de um carro de bois’, que corria pelas margens atrás dos homens, um horrendo terém”. (págs. 194-195)

Memorial Coluna Prestes Tocantins, projeto Oscar Niemeyer, em contrução, Palmas, 1998.

Link - Movimento nº3 - "Lendas Coluna Prestes":

https://www.youtube.com/watch?v=6mrKaXqR880&list=OLAK5uy_m_oiyp_uDnF3P_7qYrX59KdebEhmlv488&index=3

Nossa Senhora de Lourdes

Orquestra / Movimento nº 4 – "O Anel de Ferro"

  

E o vento soprava mas nenhum galho se mexia

E os revoltosos pisavam as águas mas nenhum ruído escapava

 

De muito distante vinham os cânticos e as rezas

A pálida luz do círio iluminava mas não queimava

 

A marcha do Anel de Ferro se fechava

Na invisibilidade a revolução escapava

“A Coluna Prestes fez seus primeiros movimentos nos pampas gaúchos, sob a proteção de Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga, São Miguel das Missões e de Nossa Senhora de Lourdes. Sua identidade foi marcada pelo laço vermelho maragata que envolveu o peito de soldados e comandantes. A Coluna Prestes teve como marca musical o som da gaita gaúcha. Conta a lenda que as mulheres de São Luiz Gonzaga, fiéis a esta santa, pediram um milagre e foram atendidas, pois a Coluna Prestes escapou misteriosamente do Anel de Ferro armado pelos inimigos no entorno daquela cidade. Quatorze mil (14.000) soldados do Exército Brasileiro não viram passar os mil (1.000) homens comandados por Prestes, que romperam o cerco como seres “invisíveis”. Quando o Anel de Ferro se fechou, a Coluna Prestes já estava fora dele e a mais de 100 quilômetros de distância de São Luiz Gonzaga. O exército, o governo e os jornais tinham sido categóricos: o cerco seria intransponível."

Como os revoltosos – denominação dada pelo povo para a Coluna – conseguiram escapar? Tem morador local que lembra que seu avô disse para o seu pai, que contou para sua tia, que afirmou para o melhor ervateiro da aldeia que foi uma águia barbuda que orientou aquela retirada na escuridão da madrugada. As mulheres de São Luiz Gonzaga não acreditam em águia nenhuma. Para elas, o sumiço da Coluna Prestes foi ação da Nossa Senhora de Lourdes. Como agradecimento, aquelas mulheres ergueram uma gruta em homenagem à santa. Assim, nunca ninguém da cidade vai esquecer do milagre que evitou o derramamento de sangue de tantos irmãos. Esta gruta hoje é local de devoção.

 Memorial Coluna Prestes Tocantins, projeto Oscar Niemeyer, em contrução, Palmas, 1998.

Link - Movimento nº4 - "O Anel de Ferro":

https://www.youtube.com/watch?v=eJpvBRc6ydA&list=OLAK5uy_m_oiyp_uDnF3P_7qYrX59KdebEhmlv488&index=4

 

Vivandeiras

 (Para canto sem acompanhamento ou declamação)

 

O sofrimento é a única verdade que merece atenção

Para a vivandeira Joana a maldade

Não participou do ato da criação

Nem do parto da Santa Rosa que deu ao mundo o filho da revolução

 

A Cara de Macaca e a Chininha andarilha

Nenhuma bala pegava porque a verdade sabia

Que a morte acertar não podia

A criatura que a mentira combatia

 

Isabel estava com as vivandeiras

Nenhum sofrimento sua verdade abatia

Um negro de Santo Ângelo a Redentora protegia

Para ele o império da liberdade um dia voltaria

 

A Coluna Prestes contou com a participação de trinta (30) mulheres. Estas nunca pediam milagres. Eram guerreiras, enfermeiras, mães e amantes. Quando necessário, pegavam em armas.

“As nossas Vivandeiras marchavam ‘lindo’, como dizem os gaúchos. Passavam Hermínia com sua cadela dentro duma estopa, a tiracolo; Santa Rosa, com o José, ‘Filho da Revolução’’, (...) muitas vezes cavalgando junto ao pescoço de algum soldado; a velha Joanna, pequenina e gorduchinha (...); a Onça, maxixando na lama; a Cara de Macaca, carregando o fuzil do companheiro; a Chininha, (...) andarilha sem igual, apesar das suas avantajadas banhas de mulata”. (pág. 351)

Grupos de negros do Brasil Central foram ao encontro da Coluna Prestes. Disseram que sabiam que entre as trinta (30) mulheres estava a Redentora, a Princesa Isabel. Diziam que a participação dela era a prova de que a Coluna Prestes lutava pelos negros e pela volta da Monarquia. Alguns contaram que a Princesa Isabel levava consigo a sua coroa real, que era sim uma das revoltosas. Por isso, a população oprimida e abandonada via na passagem das trinta Vivandeiras a mesma mão que acabou com a escravidão.

“Em Porto Nacional, o povo acorria curioso para ver a Princesa Isabel, que viajava conosco, conforme se espalhou, por nos acompanhar uma Vivandeira desse nome”. (pág. 199)

Memorial Coluna Prestes Tocantins, projeto Oscar Niemeyer, em contrução, Palmas. Ao fundo o Palácio Araguaia, sede do Governo do Estado do Tocantins, Praça dos Girassóis, 1998.

Jaguncinho

Orquestra / Movimento nº 5 – "Recuar Jamais":

 

Meninos pontiagudos, cabelos ondulados em fechos

Corpos de madeira, de aço, inteiriços de miras certeiras

 

Tinham no máximo um metro e cinquenta e cinco

Nas mãos o brasão do exército brasileiro

 

Quantos peitos essas baionetas visitaram? Quantas vezes esses gatilhos dispararam?

Quantas bandoleiras arrebentaram no meio do tiroteio?

 

Os meninos da Coluna Prestes eram identificados como Jaguncinhos. Eles cumpriam serviços que exigiam coragem. Muitas vezes foram esses guris responsáveis pela busca de informações sobre os deslocamentos inimigos - na vanguarda, na retaguarda ou nos flancos.

“Durante a marcha, muitos meninos de 12 a 14 anos se incorporaram à Coluna, distinguindo-se alguns pela sua bravura. Entre outros, lembro-me dos seguintes: Jaguncinho e Aldo (...), Tiburcio, maranhense, Pedrinho e José Thomaz de Aquino, piauienses. O último desses meninos foi promovido a aspeçada por ato de bravura, conforme consta no Boletim n. 29 do Comando em Chefe, datada de 1926”. (pág. 491)

Memorial Coluna Prestes Tocantins, projeto Oscar Niemeyer, em contrução, Palmas. Junto a futura entrada, Luiz Carlos Prestes Filho, 1998.


Link Movimento nº 5 – "Recuar Jamais":

https://www.youtube.com/watch?v=6pXAXNMxPgY&list=OLAK5uy_m_oiyp_uDnF3P_7qYrX59KdebEhmlv488&index=5

Xibéu

 (Para canto sem acompanhamento ou declamação)

 

Olhando para o céu, entendo não fomos uma estrela

E como poderíamos ser? Andarilha nossa coluna um planeta

 

Nunca dormimos, nunca paramos, só descansamos no sono daqueles

Que fecharam as pálpebras depois de um tiro certeiro

 

Caraíba, caju, manga, capim santo, açoita cavalo

Acabou-se o mate do chimarrão

 

Como esse mato brilhava no nosso caldeirão!

Nas frias madrugadas do pantanal, do cerrado, do sertão

 

Os ervateiros descobriam o xibéu das folhas, das sementes, dos galhos

Os mateiros na caatinga os mistérios das flores, dos frutos

 

Não, nunca fomos uma floresta e como poderíamos ser?

Se andarilha a nossa coluna como um bicho do mato

 

Nunca dormiu, nunca parou, só descansou no sono daqueles

Que fecharam as pálpebras depois de um tiro certeiro

 

Quando a marcha avançou para além das terras do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso, a reserva de erva-mate acabou. Não tinha como ter café. A bebida que passou a manter os revolucionários em pé era preparada com a vegetação que encontravam no caminho. Os caldeirões comunitários ferviam nas frias madrugadas. Parecia fazimento de poções mágicas para aquisição de força e de bravura.

“A indústria do xibéu desenvolveu-se extraordinariamente (...) na ausência do café. As folhas de caraíba, caju, manga, capim santo, açoita cavalo e de outras plantas ferviam nas chaleiras e panelas, em torno das quais nos aglomerávamos à espera que a água fervesse, para ingerirmos alguma coisa quente, mesmo sem açúcar”.(pág. X )

O autor de "LENDAS - Coluna Prestes", Luiz Carlos Prestes Filho, e o arquiteto Oscar Niemeyer, autor do projeto de arquitetura do Memorial Coluna Prestes Tocantins.

Padre Cícero e Lampião

Orquestra / Movimento nº 6 – "A Coluna dos Prestes":  

Presidente chamou Floro, este chamou o Padinho

Padinho chamou Prestes que respondeu que o seu caminho

Não tinha como parar, que não iria pra Juazeiro até a luta acabar

 

Presidente voltou pro Floro, este voltou pro Padinho

Padinho chamou Lampião que em Juazeiro recebeu a missão

De rastilhar a serpente luminosa, apanhar, estrangular

 

Presidente deu dinheiro, armas e munição

A patente que fez de Virgulino o mais famoso capitão

Do exército brasileiro com toda razão

 

Mas ao sair de Juazeiro Lampião rompeu a corrente

Padinho-Floro-presidente

Seguiu a trilha oposta da serpente

“Um santo popular brasileiro, o Padre Cícero, escreveu para o Capitão Luiz Carlos Prestes disponibilizando apoio, dizendo que ia conversar com o Presidente do Brasil sobre a liberdade pela qual lutavam. Na sua opinião, os revoltosos deviam acabar com a guerra e depositar as armas em Juazeiro do Norte. Prestes não aceitou. O presidente do Brasil de então, o Arthur Bernardes, deu armas e dinheiro para o Lampião. Pediu para ele combater os revolucionários. O cangaceiro pegou o dinheiro e as armas, mas não aceitou enfrentar os homens de Prestes."

Luiz Carlos Prestes Filho junto a escultura do pai, Luiz Carlos Prestes, durante a exposição da obra junto ao Palácio do Planalto, Brasília, Praça dos Tres Poderes, 1998. Antes de ser fixada no Memorial Coluna Prestes Tocantins. Obra dos escultor Maurício Bentes.



Link Movimento nº 6 – "A Coluna dos Prestes":

https://www.youtube.com/watch?v=vNATMvUAIOg&list=OLAK5uy_m_oiyp_uDnF3P_7qYrX59KdebEhmlv488&index=6

 

Santos Revoltosos

Orquestra / Movimento nº 7 – "O Chamado da Coluna Prestes":

 

Dois Santos Revoltosos nos olhos do menino

Da janela ele via tudo sozinho

 

Sobre as padiolas muita luz

Que de tão intensa ilumina quem conduz

 

Quando conta, não acreditam, dizem estar a inventar

Ele jura, insiste, viu os Santos Revoltosos chegar

 

Vieram para Crateús para os anjinhos proteger

Essa é a causa pela qual vieram combater

São muitos túmulos de combatentes da Coluna Prestes espalhados pelo Brasil. Sem lápides, sem datas de nascimento ou morte. Em Crateús, no interior do Ceará. Dois revolucionários ali enterrados são chamados de Santos Revoltosos. O poeta Gerardo Mello Mourão, que menino viu os revoltosos passarem, lembrava que no entorno destes túmulos os moradores passaram a enterrar crianças mortas antes de completar um ano: “Quando morriam nossos pequenos anjinhos a gente fazia assim para os proteger. Os Santos Revoltosos da Coluna Prestes acompanham os anjinhos até o reino dos céus”.

Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, sobre o pedestal do Memorial Coluna Prestes Tocantins, Palmas. A obra do escultor Maurício Bentes. Inauguração 2001.


Link Movimento nº 7 – "O Chamado da Coluna Prestes":

https://www.youtube.com/watch?v=sbMBKYGeFQY&list=OLAK5uy_m_oiyp_uDnF3P_7qYrX59KdebEhmlv488&index=7

 

Velocidade da Marcha

Orquestra / Movimento nº 8 – "A Travessia do Pantanal":

 

A costela do pampa no pantanal é maçã do peito

No cerrado é granito, no nordeste dianteira gaúcha

 

Parece a mandioca do pampa que no pantanal é aipim

No cerrado uaipi e no nordeste macaxeira

 

Mas só se parece, porque foi a dianteira

Que fez a marcha atravessar tantas fronteiras

A marcha foi feita sempre com manobras ágeis e rápidas. Reza a lenda que a alta velocidade era possível porque os gaúchos comiam somente as partes dianteiras dos animais. “Diziam que só comíamos as partes dianteiras do gado para andarmos depressa. (...) Os matutos ficavam intrigados com o fato dos gaúchos desprezarem os quartos das reses, - que não prestam para churrasco, - e como não encontrassem explicação para isso criaram a lenda”. (pág. 194)

Maria Prestes, Luiz Carlos Prestes Filho e Luiz Carlos Prestes Moscou, União Soviética, 1978


Link Movimento nº 8 – "A Travessia do Pantanal":

https://www.youtube.com/watch?v=sm62w6YZQ18&list=OLAK5uy_m_oiyp_uDnF3P_7qYrX59KdebEhmlv488&index=8

 

Eterniza

Orquestra / Movimento nº 9 – "A Liberdade Marcha"

Morrer é fácil, viver é outra coisa, viver é não desanimar

Não desistir, não se vender, não se curvar

 

A liberdade pede vida como o pampa pede uma planície infinita

Com um céu azul e um verde de verde de verde até o fim

A Coluna Prestes criou tantas lendas por todo o nosso Brasil que virou um livro do Jorge Amado, “O Cavaleiro da Esperança”. Foi lembrada no livro de Guimarães Rosa, “Grandes Sertões, Veredas”. Foi uma referência para Érico Verissimo, quando escreveu “O Tempo e o Vento”. Virou poemas de Pablo Neruda, de Murilo Mendes e de Alexei Bueno. Canções de Paulo da Portela e Taiguara. Virou obra de arte pelas mãos de Cândido Portinari, de José Pancetti e Oscar Niemeyer.

Memorial Coluna Prestes Tocantins, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, Palmas, inaugurado em 2001.

Link Movimento nº 9 – "A Liberdade Marcha":

https://www.youtube.com/watch?v=LDZSzsSE7fY&list=OLAK5uy_m_oiyp_uDnF3P_7qYrX59KdebEhmlv488&index=9

Monumento Coluna Prestes Tocantins, projeto do arquiteto Oscar Nimeyer, Arraias (TO), 1996.

LENDAS – Coluna Prestes 

Monumento Coluna Prestes, projeto do arquiteto Oscar Nimeyer, Santo Angelo (RS), 1996.

Luiz Carlos Prestes Filho, durante o ano de 1995 percorreu os 24 mil quilômetros das trilhas da Coluna Prestes. Como resultado, idealizou e realizou a construção do Memorial Coluna Prestes de Santo Ângelo (Estado Rio Grande do Sul) e o Memorial Coluna Prestes do Tocantins, e Palmas (Estado do Tocantins). Realizou a construção dos monumentos Coluna Prestes nas cidades de Arraias (Estado do Tocantins), Santa Helena (Estado do Paraná), Crateús (Estado do Ceará) e Santo Ângelo (Estado Rio Grande do Sul). O arquiteto convidado foi o Oscar Niemeyer. Luiz Carlos é autor das obras “Casa de Pedra” (poesia) e “Piaçaba e Acrescidos” (oratório).

Lendas - Coluna Prestes

@luiz carlos prestes filho - todos diretos reservados ao autor - é proibida a reprodução ou transmissão desta obra, ou parte dela, por qualquer meio, sem prévia autorização do autor

@Todamérica Edições LTDA

A Grande Marcha – uma Lenda Brasileira

José Luiz Cunha Lima é historiador e guia cultural da Chapada dos Veadeiros.

 

O poema para orquestra “LENDAS – Coluna Prestes”, de Luiz Carlos Prestes Filho me fez voltar para os extensos chapadões luminosos floridos e sem horizontes do coração do Brasil. Local onde muitas vezes trumbiquei em pedra rara, matacão cristalino, ou num cipó de chão. Os movimentos, o libreto e a letra me fizeram despencar dentro de um buracão enorme que se estendia e se alongava. Aos poucos atingi o salão de uma caverna escura como a selva. Acendido o fósforo da pupila, me foram revelados, entre estalactites e estalagmites, esculturas que fariam Fidias, Rodim ou mesmo Michelangelo sentirem-se meros lascadores de pedras. Findo o colapso, me vi na catedral fabulosa, Maragata, chamada Coluna Prestes. Incandescida por grandes fogueiras, embalada por tambores, cornetas e decorada por laços vermelhos. Tudo é tão real nesse oratório que parece um sonho. Realidade que não cabe em si, epopeia que transborda, feito heroico. Cheio de façanhas, gestos generosos, ternura e graça. 

Monumento Coluna Prestes , projeto do arquiteto Oscar Nimeyer, Crateus (CE), 2006.

A Coluna Prestes foi uma jornada heroica e solene, feita por brasileiras e brasileiros, gente como a gente. Desfile suntuoso de lendas e magias perlustrando os sertões Brasil. Gesta maratônica dos Revoltosos.

Documento assinado por Oscar Niemeyer relacionado com a construção do Monumento Coluna Prestes em Crateús (CE).

Nas cenas e combates, entre marchas e episódios, a “lenda nos acompanhava por toda parte”, anota o escrivão da marcha, Lourenço Moreira Lima. Ele destaca no seu diário o parto da vivandeira loira e fogosa, que namorava o alemãozinho do Rio Grande. Quando nasceu o menino negro, ele foi rapidamente, e com alegria, sem qualquer constrangimento, adotado pela tropa entusiasmada: “Filho da Revolução”. Lourenço, o bacharel-feroz, na beira do Rio Novo, lá pelos lados do Jalapão, encontrou um pé de botina que lhe faltava. Calçou. Continuou a Marcha como um arlequim de sapatos amarelo e vermelho. A enfermeira Hermínia, austríaca de nascimento, paulista de origem, no Piauí, ultrapassou atrevidamente a trincheira inimiga para tratar os feridos do outro lado. Foi elogiada pela imprensa. Lamentou-se a sua não captura.

A cada lenda o Cavaleiro da Esperança enchia todos os pensamentos da população, o que fez o cronista afirmar a certa altura que: "Prestes não é somente uma das maiores afirmações da energia e da inteligência da nossa raça, mas um dos tipos mais eminentes de toda humanidade". Um herói. Um titã. Um Prometeu da Pátria.

Entre poetas e cantadores, na hora do almoço, na hora do jantar, entre altares improvisados com cotocos de velas e fotos de jornal, correndo, de boca em boca, através dos meninos, dos velhos, das senhoras, o povo todo falava dos guerreiros que atravessavam o país. Entre os clarões das ladeiras, das encostas iluminadas por archotes, entre índios, lugares e povoados quase inexistentes, como aquele São João do Pinduca, os revolucionários conheceram as “casas habitadas por pobres negros, todos papudos, que ali viviam miseravelmente”.

 

Monumento Coluna Prestes , projeto do arquiteto Oscar Nimeyer, Santa Helena (PR), 1998.

“A Coluna marchava dentro de uma glória de ouro”, dentro de uma dura realidade. Respiravam o aroma do delírio, fermentado pelo fabuloso, que diante de montanha enigmática, contavam causos estranhos que aconteciam: “Milhares de galos cantando no meio dia, moça dançando ao luar, dobre de sinos, as aves-marias, frades sem cabeça cavalgando esqueletos de cavalo, cobras enormes de olho de fogo, deslizando pelas suas encostas escarpadas, e, por fim, o Diabo percorrendo as suas cercanias montado num colossal porco-espinho, cujos grunhidos horrendos enchiam a solidão num raio de cem léguas.”

Durante a marcha aconteceu um arrebatamento da imaginação, é sobre isso este oratório. Tanto que contando um conto, e aumentando muitos pontos, a lenda falava que entre as vivandeiras havia uma “preta feiticeira, chamada Tia Maria, que dançava nua diante das metraiadeiras". Ela, ao som de um flautim tocado por um "tá de coroné Favorino”, “fechava o corpo dos homens” frente para às balas dos inimigos, antes de começar o combate.

Luiz Carlos Prestes Filho ao lado de uma das esculturas do conjunto "Os 18 do Forte de Copacabana", que fica ao lado do Memorial Coluna Prestes Tocantins, Palmas, Praça dos Girassois. Obra dos escultor Maurício Bentes.

As músicas desta obra servem de auréola para a marcha. Som nos leva até as estrelas do Cruzeiro do Sul e as fazem “brilhar com uma intensidade nunca vista”.

Luiz Carlos Prestes, a esposa Maria e o filho Luiz Carlos - Romênia, 1973