Um Livro de Saudade e Conciliação
Catas Alttas - um livro de saudade e conciliação

Por Luiz Carlos Prestes Filho
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A leitura de "Catas Altas do Matto Dentro Minas Gerais", de Fátima Pinto Coelho, não é uma caminhada apressada. É um daqueles momentos quando a página impressa lentamente nos transporta para longe. Logo na abertura, a obra estabelece um marco de respeito: superar o texto introdutório de Ângelo Oswaldo seria uma tarefa impossível. Não há como rivalizar com quem guarda as Minas Gerais no pensamento, na trajetória vivida e num conhecimento ímpar sobre o patrimônio cultural brasileiro. Ângelo Oswaldo não apenas apresenta o livro, ele assina a moldura perfeita para a reflexão que se desdobra ao longo das páginas.
Desenho de Fátima Pinto Coelho
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"Ao avançar na leitura, na página 49, encontro um poema me fez parar para maravilhar.” |
Nas parreiras,
as uvas.
As uvas, amassadas no pé.
O vinho,
o melhor vinho,
o de mesa,
o de padre,
o de oferenda,
o santo vinho.
De repente, a serra mineira desfaz-se em horizonte marítimo e fui levado diretamente a Portugal. É a força da literatura revelando como a memória de Catas Altas carrega nos seus versos o sotaque, o pertencimento e a saudade. Contudo, para mim, a dimensão mais impactante da obra emerge na Parte II (2010–2016). É ali que o lirismo ganha densidade crítica e documental. Fátima Pinto Coelho registra as contradições vivas do território.
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"Suas imagens escancaram o contraste direto entre a preservação do patrimônio e as pressões da intervenção humana, entre a imponência da paisagem e as marcas sociais e econômicas do nosso tempo.” |
Fui a Catas Altas e o município recebeu equipamento urbano.
Junto com o agora “turismo rural” e “Estrada Real”,
achei pousadas, restaurantes com sous-plat,
vitrines com blindex,
motoqueiros fazendo trilhas de cross.
E, pelas ruas,
a cada esquina, de quatro em quatro,
latas para lixo orgânico, reciclável, com suas devidas cores,
convidam os visitantes ao seu uso civilizado.

Desenho de Fátima Pinto Coelho
A emoção que as palavras acima despertam, faz nascer justamente dessa honestidade do olhar: a beleza do lugar que resiste, não se recusando a mostrar suas cicatrizes. Para os leitores interessados nas dinâmicas da memória, da cultura e do desenvolvimento regional, o livro de Fátima Pinto Coelho é um registro fundamental - um convite a olhar para o nosso patrimônio com afeto, sem fechar os olhos para a a complexidade.
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Serviço:
CATAS ALTAS DO MATTO DENTRO
MINAS GERAES
Fatima Pinto Coelho
BARLÉU EDIÇÕES 2018
Editor: Carlos Leal
Editor Assistente: Aline Castilho
Coordenação Editorial: Luiz Feldman
Projeto Gráfico: Marcelo Drummond
Consultor: Carlo Cirenza
Desenhos: Fatima Pinto Coelho: 82, 94, 108
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Luiz Carlos Prestes Filho é jornalista e poeta



