Clarisse Castro: Em busca da Harmonia Vital

Clarisse Castro: Em busca da Harmonia Vital

Clarisse Castro: Em busca da Harmonia Vital

Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

A rotina hospitalar, muitas vezes vista como um ambiente puramente técnico, esconde uma realidade alarmante de esgotamento físico e mental que afeta desde cirurgiões de ponta até a equipe de limpeza e apoio. Sob o peso de longas jornadas e a pressão por produtividade em um modelo de saúde cada vez mais capitalista, profissionais de todas as categorias enfrentam crises silenciosas que incluem depressão, ansiedade e dores crônicas. É nesse cenário de vulnerabilidade que nasce o projeto "Harmonia Vital", uma iniciativa pioneira idealizada por Clarisse Castro com o apoio do Maestro Evandro Rodriguese (proponente do projeto), voltada ao resgate do bem-estar e da dignidade humana no ambiente hospitalar.

Harmonia Vital conta com reconhecimento da Prefeitura da Cidade de Niterói

"A proposta utiliza intervenções com música erudita para induzir a regulação psicofisiológica dos trabalhadores, suavizando a tensão diária nos bastidores do atendimento à saúde. Inspirado no atendimento humanizado que a própria idealizadora recebeu no Hospital Niterói D’Or durante momentos críticos de sua vida — marcados por graves problemas de saúde, despejo e violência doméstica —, o projeto busca retribuir o acolhimento oferecido por médicos como os doutores Gilson Reis, Gabriel Micheli e Fernando Fernandes Machado. Ao mesmo tempo, a ação visa dar visibilidade e apoio psicológico e social à base da engrenagem hospitalar, como enfermeiros, técnicos, faxineiras e copeiras, que muitas vezes sustentam o cuidado afetivo ao paciente mesmo sob condições severas de invisibilidade e privação. O projeto, que ganhou força após a participação de Clarisse no edital do ISS da Secretaria das Culturas de Niterói, simboliza um pacto de reciprocidade que une ciência, arte e humanização para transformar os corredores da saúde.”

Prestes Filho: Clarisse, o que motivou a criação do seu projeto atual, o "Harmonia Vital", voltado para os hospitais?
Clarisse Castro: O projeto é um ato de pura reciprocidade. Estou entregando aos profissionais da saúde o tratamento humano que recebi de quatro grandes médicos que salvaram a minha vida quando enfrentei crises severas, dores extremas em EVA 10 e violência doméstica.

Clarisse Castro entre Fernando Fernades Machado (neurocirurgião) e Gilson Reis (clínico geral)

"Vi que a medicina humana resiste e quis resgatá-la.”

Prestes Filho: E por que focar tanto na liderança médica quanto nas equipes de apoio e limpeza?
Clarisse Castro: São dois polos essenciais. A liderança e os cirurgiões de ponta movimentam os ativos que sustentam o hospital, mas sofrem com depressão e esgotamento. O projeto usa a música erudita para trazer harmonia fisiológica a eles. Já o segundo polo acolhe enfermeiros, técnicos e a equipe de limpeza, que são essenciais, mas sofrem com a invisibilidade do modelo capitalista.

Clarisse Castro com Luciana Alvez, produção executiva e comunicação do projeto Harmonia Vital, sua amiga Marilda Ormy e o maestro Evandro Rodriguese

"Todos na engrenagem hospitalar merecem dignidade.

Prestes Filho: Quais médicos foram decisivos nessa sua jornada de recuperação?
Clarisse Castro: Os doutores Gilson Reis, Gabriel Micheli — neurologista que descobriu minha neuropatia e uma anomalia anatômica congênita — e Fernando Fernandes Machado, neurocirurgião que compreendeu meu histórico e por que eu não podia usar certos medicamentos. Mesmo sem recursos e longe do hospital, eles cuidaram de mim de graça. Foram responsáveis pela minha libertação de uma violência sistêmica.
Prestes Filho: Você também atuou como massoterapeuta em cuidados paliativos. Como foi essa experiência científica e afetiva?
Clarisse Castro: Em 2024, cuidei do meu amigo Eduardo Hugo, um ex-atleta com câncer no intestino, até a morte dele no Niterói D'Or. Usei a terapia clássica sueca, que é ciência e não estética, para aliviar dores terríveis causadas por extravasamento de líquido. Vê-lo conseguir suportar duas horas no batizado do filho de 7 anos foi o meu melhor pagamento. Nunca me senti tão feliz na vida.
Prestes Filho: Recuando no tempo, como a sua infância moldou essa sua visão de gestão em saúde e cidadania?
Clarisse Castro: Aos 5 anos, criada por minha tia, eu a via servir o café da manhã primeiro para o trabalhador da limpeza urbana, usando a mesma louça da casa. Ela me explicou que sem eles o lixo acumularia e traria doenças. Ali entendi que sem higiene não existe saúde, educação ou cultura. É uma visão que remete ao legado de Bezerra de Menezes na Vigilância Sanitária.

Embarcação do projeto "Lixo Flutuante"

Prestes Filho: Como surgiu e o que foi o pioneirismo do projeto "Lixo Flutuante" na Baía de Guanabara no fim dos anos 90?
Clarisse Castro: Nasceu da proposta do Seu Jorge Carvalho para limpar a Baía de Guanabara, que recebia dejetos de 15 municípios. Desenvolvemos o Catamarã, uma embarcação piloto de alta precisão em aço e alumínio, com calado de 30 cm para entrar nos manguezais sem encalhar. O projeto foi custeado de forma 100% privada por um investidor e teve o suporte técnico do Comandante Simas e o apoio institucional de Niterói, através do prefeito Jorge Roberto Silveira e de Fernando Guida.
Prestes Filho: Por que um projeto tão promissor foi descontinuado?
Clarisse Castro: Houve cobiça nos bastidores e problemas de gestão de terceiros. Como responsável financeira, recusei-me a fraudar a confiança do investidor e não assinei a continuidade; parar foi um ato de responsabilidade ética. Mais tarde, no ano de 2000, tentamos a Usina no Morro do Céu, que operava de forma limpa por desidratação, mas a mudança de governo e a interrupção de verbas externas descontinuaram o programa. Guardei esses estudos matemáticos por mais de 20 anos.
Prestes Filho: Em 2001, você assumiu a gestão administrativa da creche Jardim Regininha, em Macaé. Como foi conciliar a vinda de famílias estrangeiras do setor offshore com o afeto?
Clarisse Castro: Foi um desafio enorme. A creche nasceu do desejo da minha ex-sogra, Regina Boynard, de expandir o legado de sua mãe, a Professora Lêda Boynard. Atendíamos quase que exclusivamente filhos de estrangeiros (franceses, americanos, canadenses). Adaptamos um casarão de três andares com alma de lar e, por sugestão da Maria Fernanda Boynard, adotamos o método construtivista. Eu cuidava dos casos mais complexos e do acolhimento dos pais, garantindo um padrão rigoroso de biossegurança até me afastar em 2004 por uma gestação de risco.

"Clarisse Castro participa ativamente do projeto Conecta que é um programa de parcerias que oferece ferramentas digitais, conexões comerciais e eventos de networking para ajudar micro e pequenas empresas a gerenciarem finanças, aumentarem vendas e conquistarem novos mercados.”

Prestes Filho: Olhando para toda a sua história, fica evidente que o projeto Harmonia Vital não é um fato isolado, mas sim a continuidade natural da sua trajetória vitoriosa junto aos interesses da sociedade. O que você me diz?
Clarisse Castro: Você tocou no ponto central. Eu concordo plenamente. O Harmonia Vital não nasceu do nada; ele é o desdobramento lógico de tudo o que plantei e defendi ao longo da vida. A mesma ética que me fez parar o projeto da Baía de Guanabara para proteger a integridade dos investidores, e o mesmo senso de dignidade humana que aprendi aos cinco anos vendo minha tia acolher o gari na nossa mesa, são os motores que me guiam hoje.

"Cuidar da saúde emocional de quem está no hospital, do cirurgião de ponta à equipe da limpeza, é a consolidação de uma vida inteira dedicada a enxergar e valorizar o ser humano. É uma colheita de dignidade.

Luiz Carlos Prestes Filho é jornalista