Partigianos - Recuar Jamais

Partigianos - Recuar Jamais

Luiz Carlos Prestes Filho e os PARTIGIANOS

RECUAR JAMAIS
Entervista com Vlad e Dora da banda PARTIGIANOS
Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
​No cenário da música independente nacional, poucas propostas soam tão urgentes e necessárias quanto a da banda curitibana PARTIGIANOS. Formado por sete integrantes afinados tanto na sonoridade quanto na visão de mundo, o grupo transforma o palco em uma trincheira de luta. A linha de frente, capitaneada por Vlad Urban e Dora Urban, resgata canções históricas antifascistas ouvidas na infância, durante a década de 1970, e as atualiza com novos arranjos carregados de vigor. Embora o grupo não aposte em faixas autorais, a curadoria precisa do repertório serve como um manifesto vivo da memória social global. Suas releituras passam pela Guerra Civil Espanhola, pela resistência italiana durante a II Guerra Mundial e pelas canções que ecoaram contra as ditaduras na América Latina. Não posso deixar de recordar aqui que, em 1936, no calor da Guerra Civil Espanhola, a solidariedade internacional ganhou melodia. Carlos Palacio, Rafael Espinosa e Armand Guerra compuseram o “Hino a Luiz Carlos Prestes” — uma homenagem ao meu pai, o "Cavaleiro da Esperança", que estava nos cárceres da ditadura fascista de Getúlio Vargas e Filinto Müller. Esta obra atravessou o Atlântico e transformou-se no hino das Brigadas Internacionais. Homens e mulheres de todas as partes do mundo marchavam contra o fascismo cantando sua letra. Era a prova de que a solidariedade internacional e a arte não respeitam fronteiras quando a barbárie ameaça a humanidade. Hoje, noventa anos depois, a História se repete como urgência. O lançamento do EP da PARTIGIANOS, que traz no título a minha composição, “Recuar Jamais”, é o testemunho vivo de que a luta continua. Neste EP, a banda também canta o passado não por nostalgia, mas por necessidade. Ao traduzirem para o português as glórias da resistência italiana, da Colônia Cecília, e das lutas latino-americanas, Vlad e Dora Urban afirmam que o debate sobre a reforma agrária, a luta contra a jornada exaustiva da escala 6x1 e o combate diário às desigualdades são necessários.

"Recuar Jamais deixou de ser apenas a minha melodia. Assim como aquele hino de 1936 alimentou o peito dos voluntários na Espanha, a canção, a partir da interpretação dos PARTIGIANOS, gravada pelo produtor Renato Ximu, alimenta aqueles que se recusam a abaixar a cabeça para o neofascismo que nos espreita. Abaixo, Dora e Vlad nos abrem os bastidores do processo de gravação do EP. Demonstram a certeza inabalável de que a arte continua sendo uma arma bela e poderosa. Recuar? Jamais!”

Luiz Carlos Prestes Filho:. A banda conta com uma linha de frente de peso: Vlad Urban, Dora Urban, André Santos, Rubia de Oliveira, David Ernst, Gustavo Toscan, e Roberta Semchechen. Como surgiu a sintonia entre vocês e como essa formação atual define a identidade dos Partigianos hoje?
Partigianos: A sintonia surgiu muito porque temos uma visão parecida do mundo, sabemos da urgência da luta, e compreendemos que a música também é uma forma de resistência. A banda surge revisando antigas músicas de teor antifascista que eu e minha irmã Dora, ouvíamos com nossos pais, quando éramos crianças na década de 1970, e fez completo sentido quando adaptamos seus arranjos para os dias atuais. A nossa formação atual, com o baixo elétrico (a grande diferença da formação inicial) deu mais peso à sonoridade da banda.
Prestes Filho: Como a capital paranaense, com seu histórico rico de contracultura e cena underground, moldou o som e a urgência das letras de vocês no início da trajetória?
Partigianos: A grande maioria dos integrantes da banda são oriundos deste cenário, então a influência é realmente muito grande, mas temos também representantes de outras cenas musicais, fazendo está fusão tão característica da banda.

"Não temos músicas autorais, por tanto as músicas escolhidas possuem letras que trazem os ideias  que acreditamos serem importantes de serem cantados, ouvidos, e ecoados neste momento histórico tão crucial para nossa luta.”

Prestes Filho: Antes de chegarmos ao trabalho mais recente, como vocês enxergam a evolução musical e ideológica da banda se compararmos os álbuns anteriores com o momento atual?
Partigianos: A banda se mantém fiel aos ideais cantados desde sua fundação, o que muda neste momento atual é a busca de músicas no nosso idioma, procurando trazer ao público essas ideias de modo mais direto e urgente, além de nos permitirmos tocar temas que não sejam exclusivamentes políticos, como Mala Vida, da conhecida Mano Negra.

Federico Garcia Lorca recita poema em ato pela liberdade de Luiz Carlos Prestes - Madrid, 1936.

Prestes Filho: O título do novo álbum carrega uma força imensa, quase como um manifesto. Qual é a principal mensagem que "Recuar Jamais!" busca transmitir para o momento histórico atual? Quando no mundo assistimos o avanço do fascismo.
Partigianos: Essa música apareceu de surpresa para nós, mas vem de encontro, não só com os ideais do grupo como ao diagnóstico que fazemos do momento atual e também, com a nossa intenção de fazer músicas em português, então foi mais que um presente, foi uma oportunidade de dar um primeiro passo para essa nova fase.
Prestes Filho: Como foi o processo de gravação de "Recuar Jamais!"? O que ele traz de novo em termos de arranjos e texturas musicais em relação ao passado da banda?
Partigianos: Acreditamos que os arranjos de Recuar Jamais e Hasta Siempre Comandante, em relação ao álbum anterior, foram mais elaborados. O Renato Ximu, responsável pela gravação, masterização, construiu conosco um resultado efetivamente diferente, do qual nos orgulhamos muito.

"O material foi gravado com o estúdio do Ximu nos espaços de cada instrumentista, e cantor da banda, um trabalho quase artesanal e paciencioso, com muita qualidade, e com acesso total da banda. O processo de montagem com ele foi muito colaborativo e criativo.”

Prestes Filho: Como tem sido o feedback do público nos shows em relação às faixas desse novo álbum? Alguma música em específico tem gerado uma reação mais calorosa ou surpreendente?
Partigianos: A faixa título do álbum (Recuar Jamais) tem trazido uma resposta impressionante do público, acreditamos que boa parte dessa resposta seja por ser em português, e outra boa parte do peso que o arranjo expressa.
Prestes Filho: Como vocês definem o estilo musical dos Partigianos hoje? Quais são as principais influências sonoras que vocês misturam para chegar a essa sonoridade única?
Partigianos: Os Partigianos tem uma característica de mesclagem da música folclórica mundial e toda a influência que cada membro traz, como a música punk. Já nos perguntaram muitas vezes sobre que nome se dá a essa sonoridade, mas por ser tantas influências fica muito difícil nomear.

Prestes Filho: Quem são os principais autores das obras que vocês cantam? Vocês costumam musicar poemas e textos históricos ou as composições são majoritariamente autorais e coletivas?
Partigianos:O nosso repertório, como já contamos antes, não é autoral. Buscamos músicas  em grandes movimentos antifascistas, como, por exemplo, a Guerra Civil espanhola, como o autor Chicho Sánchez Ferlosio, ou músicas cantadas pela resistência italiana na Segunda Guerra Mundial, ou ainda nas músicas Latino-Americanas de resistência às ditaduras militares em todo o continente, que ainda são cantadas em pleno pulmão por jovem anti fascistas no mundo todo.
O início da Guerra Civil de Espanha, 80 anos depois - Jornalissimo
O poeta Pablo Neruda e o escritor  Ernest Hemingway participaram das Briagadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola
Prestes Filho: No cenário independente e de viés contestador, como vocês lidam com a questão dos direitos autorais e a distribuição das músicas? Vocês enxergam o formato tradicional da indústria como uma barreira ou uma proteção ao artista?
Partigianos: A grande maioria das músicas que gravamos não possuem direitos autorais, mas entendemos que o mercado se organizou dessa maneira, que infelizmente não atende ao interesse de pequenos compositores, e sim de grandes gravadoras, mas essas são as regras do jogo.
Prestes Filho: A música de conteúdo social tem um papel fundamental na formação política. Como os Partigianos enxergam a importância do seu trabalho junto à juventude e na mobilização das novas gerações?
Partigianos: Os Partigianos sempre entenderam que a música é uma das armas mais poderosas de contestação, e como entendemos também que estamos em uma luta, usamos as armas que temos. A música tem o poder de mobilizar, sensibilizar e também encorajar as pessoas para momentos sociais críticos, como o atual.

"Olhamos nosso trabalho como um modo de atuação integrada aos grandes movimentos sociais,  como os de manutenção da democracia, pela reforma agrária, a reforma contra a escala 6x1, e tantas outros. O engajamento proposto é direcionado à quem se identifica com estas propostas, independente da faixa etária. ”

Prestes Filho: O nome "Partigianos" remete diretamente à resistência histórica. A revolução socialista é um objetivo de luta real e compartilhado pelos integrantes da banda? Como a militância se funde com a arte de vocês?
Partigianos: Sim, o nome é inspirado na resistência, e a mesma era formada por uma frente ampla anti fascista.

"Entre nós temos socialistas, comunistas e anarquistas, que participam de movimentos, partidos, e também de forma autônoma, buscando influenciar a sociedade na busca incessante pela Revolução e do fim das desigualdades sociais.”

Prestes Filho:  Vocês já tocaram em diversos palcos, desde teatros até festivais e ocupações de movimentos sociais. Quais foram os espaços mais marcantes onde já se apresentaram?
Partigianos: O Show na Colônia Cecília, foi inesquecível. Na vigília pela Libertação do Lula, aqui em Curitiba, na frente da Polícia Federal, e também nas feiras agroecológicas do Movimento Sem Terra.

Arte de Luiz Carlos Rettamozzo

Prestes Filho: Além de tocar, os Partigianos também movimentam a cena local. Quais são os principais eventos e festivais que vocês organizam ou ajudam a articular em Curitiba e região?

Partigianos: Hoje o movimento mais importante que a gente procura incentivar, e trabalhar junto é o Outubro Vermelho, festival que celebra a Revolução Russa, mas quase todos os integrantes da banda atuam em movimentos culturais, como a Liga Antifascista de Futebol, o Psycho Carnival, entre outros.

Prestes Filho: A mensagem da banda já cruzou fronteiras. Em quais países vocês já se apresentaram e como foi a experiência de cantar a resistência em outras línguas e culturas?
Partigianos: Ainda não atuamos para fora das nossas fronteiras físicas, mas já soubemos dos Partigianos sendo ouvidos nas ruas de Gênova na marcha antifascista, na Itália; recebemos um convite para o Festival Internacional Antifascista na Rússia, mas infelizemente, em função da guerra, não foi possível efetivar nossa participação.
Prestes Filho: Para o futuro da turnê de "Recuar Jamais!", em quais países ou regiões vocês ainda pretendem cantar e levar a voz da banda?
Partigianos: A genta está aberto à qualquer possibilidade, acreditamos que a música não conhece fronteiras, é uma linguagem universal. A dificuldade é o tamanho da banda, somos em 7, então a produção sempre é um pouco mais trabalhosa, mas vamos!

Luiz Carlos Prestes Filho é compositor, poeta e jornalista